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Será que James Cameron é o Oliver Stone do século XXI?  Ou, pior, o Gillo Pontecorvo de nossa época?

Talvez. “Avatar” é um filme curioso, pois continua sendo um enorme sucesso de público (os números mostram que ele já ultrapassou  “Titanic” como a maior bilheteria de todos os tempos – embora um certo desconto deva ser feito pelo fato de que os ingressos nos cinemas 3D é são um pouco mais caros), ao mesmo tempo em que atrai críticas à direita e à esquerda do espectro ideológico.

Em entrevista recente, Cameron teve que fazer algo que julgo inédito para um profissional de Hollywood durante um governo Democrata: defender-se das acusações de que seu filme é anti-americano.  E penso que ele o fez com galhardia:

Speaking at a private industry screening of the film, the director with his star Zoe Saldana said that “Avatar” — with its depiction of mineral exploitation on a distant planet and a cadre of trigger-happy mercenaries charged with instituting a scorched earth policy — is very much a political film.

But he rejected comments by critics that the film is un-American even if it is an allegory for American military forays.

I’ve heard people say this film is un-American, while part of being an American is having the freedom to have dissenting ideas,” Cameron said, prompting loud applause from a capacity crowd at the ArcLight Hollywood.

This movie reflects that we are living through war,” Cameron added. “There are boots on the ground, troops who I personally believe were sent there under false pretenses, so I hope this will be part of opening our eyes.” [grifo meu]

Então.  Até o Evo Morales concorda.  🙂

As críticas à esquerda, pelo menos as que eu vi, me parecem menos interessantes.  Em sua maioria, acusam o filme de racismo, pelo fato de os Na´vi precisarem, ao cabo e ao rabo, de um humano “convertido” para liderar sua luta contra a ocupação terráquea.  Outros criticam a lentidão com que o protagonista assume seu dilema moral.  Tudo isso procede, mas eu prefiro lidar com fatos, e os fatos são, em ordem decrescente de importância:

a) Jake Sully é um marine, alguém de quem se espera qualquer coisa menos preocupar-se com os dilemas morais da guerra, e talvez a maior crítica que se possa fazer ao filme é que a despeito disso ele termina por preocupar-se com esse tipo de coisa _ embora devamos levar em conta que em certo momento do filme fica claro que os Na´vi o adotaram para “curá-lo de sua insanidade”;

b) o fato é que, para traçarmos um paralelo histórico, poucas vezes na História um povo ou civilização tecnologicamente inferiorizado foi capaz de resistir à agressão de forças tecnologicamente superiores _ e nesse caso talvez o problema do filme tenha sido o de que os terrestres tenham sido, afinal, derrotados (ainda que pela “Gaia” do planeta e não pelos Na´vi ou mesmo Jake Sully, embora ele é quem tenha tido a idéia _ que vergonhosamente não ocorreu aos Na´vi _ de apelar pra ela);

c) pessoal, estamos falando de um filme de Hollywood, que tem que passar por uma enorme quantidade de filtros (principalmente financeiros) antes de se transformar em um projeto real; Cameron simplesmente não teria conseguido pôr a mão no orçamento que teve, se tivesse se dedicado a criar um filme que trabalhasse meticulosamente todos os problemas sociológicos, filosóficos e morais da situação _ principalmente porque, independentemente dos pendores ideológicos dos CEO´s em Hollywood, um filme assim não atrai grandes públicos e não dá retorno.

Já a crítica à direita varia entre a previsível e a francamente imbecil.  No geral, ela se reduz a recriminar a “ingenuidade” do filme em retratar a tentativa de genocídio de uma civilização por outra tecnologicamente superior, em uma curiosa exibição de má consciência em que a única “suspension of disbelief” admitida é a da ficção do “direito natural”.

Mas há casos patológicos.

Tomemos, por exemplo, Jonah Goldberg, o cara que ficou famoso por escrever um livro (“Liberal Fascism”, traduzido no Brasil como “Fascismo de Esquerda“) que confunde autoritarismo e tendência ideológica e propõe a tese de que o fascismo é um movimento de esquerda, usando argumentos que, quanto à sua estrutura lógica,  já deviam ter sido colocados em seu devido lugar ao tempo de Aristóteles.

Goldberg cometeu um artigo no Los Angeles Times que tem, ao menos, o mérito de possivelmente acabar com toda e qualquer pretensão do rapaz à seriedade.  Porque nesse artigo a grande recriminação que Goldberg faz ao filme é que, raios, como é possível que os Na´vi não tenham Jesus em seu coração???

The film has been subjected to a sustained assault from many on the right, most notably by Ross Douthat in the New York Times, as an “apologia for pantheism.” Douthat’s criticisms hit the mark, but the most relevant point was raised by John Podhoretz in the Weekly Standard. Cameron wrote “Avatar,” says Podhoretz, “not to be controversial, but quite the opposite: He was making something he thought would be most pleasing to the greatest number of people.”

What would have been controversial is if — somehow — Cameron had made a movie in which the good guys accepted Jesus Christ into their hearts.

Of course, that sounds outlandish and absurd, but that’s the point, isn’t it? We live in an age in which it’s the norm to speak glowingly of spirituality but derisively of traditional religion. If the Na’Vi were Roman Catholics, there would be boycotts and protests. Make the oversized Smurfs Rousseauian noble savages and everyone nods along, save for a few cranky right-wingers.

Levando em consideração que os primeiros navegadores europeus só precisavam ir ali na África para encontrar gente que jamais tinha ouvido falar de Cristo ou por falar nisso em um Deus único, seria deveras engraçado esperar que um tal espanto se realizasse em Alpha Centauri, por mais que ensinemos às crianças que Papai do Céu está, oras, no Céu.

[na verdade, Goldberg quer mesmo é dizer que uma das razões do sucesso do filme é sua aura “religiosa” em termos de uma conexão transcendental com a Natureza, e que isso só é possível porque nós temos um “instinto de fé” _ uma assertiva fácil de se jogar nas páginas de um jornal para leigos, mas que, a vero, é objeto de uma complexa discussão evolucionária]

***

Em um curioso “twist” nesse tema do embate entre esquerda e direita acerca de “Avatar” lá no Exterior, no Brasil o filme acabou se tornando foco de algo parecido, só que no papel de bode expiatório, como se pode ver na entrevista dada pelo Barretão no Globo Online:

Mas o que o senhor acha que aconteceu para o público do filme ficar abaixo do esperado?
BARRETO
: Houve vários erros. O primeiro foi realmente termos aceitado exibir o filme na abertura do Festival de Brasília. Brasília é a capital política do país, e, naquela altura, já surgiam os primeiros comentários de que o filme teria uma influência nas eleições. Estávamos entrando na arena dos leões. Além disso, a data era muito longe do lançamento. O filme teve uma exposição a partir de Brasília que só se justificaria se lançássemos uma semana depois. Com o “Tropa de elite”, por exemplo, assim que surgiu o fato da pirataria, deflagrando uma mídia grande, eles anteciparam o lançamento. Nós poderíamos ter tido um pouco mais de audácia e fazer o mesmo. Se fizéssemos, também teríamos evitado a onda do “Avatar”, que foi subestimado, não só por nós, mas por todo mundo. A gente achou que o “Lula” seria a grande novidade. Aí comprovou-se que “Avatar” não era apenas um grande evento, mas também um muito bom filme.” (grifo meu)

Tio Rei, é claro, pinta e borda em cima:

Barretão sabe que não tem essa de lançamento errado, Avatar etc. Foram dois os erros principais:

a) O primeiro foi mesmo de expectativa. O filme mais caro da história do cinema brasileiro ambicionou ser o de maior bilheteria;

b) se a expectativa era essa, já expliquei em outro texto que a personagem teria de ser outra.”

Bom.

Qualquer um que lide com indústria de cinema a sério sabe que existem algumas variáveis chave no negócio, uma vez estando o filme pronto:  o número de cópias produzidas (com reflexo, evidentemente, no número de salas onde o filme será lançado) e a competição em termos de que outros filmes serão lançados conjuntamente ao seu.

A distribuidora do LFB é a Downtown Filmes, fundada por Bruno Wainer em 2006.  Bruno Wainer, filho de Danuza Leão com Samuel Wainer, não é exatamente um leigo nesse mercado _ na verdade ele é um grande nome da indústria nacional, e conhece as regras do jogo.  Bem, Avatar foi lançado em 18 de dezembro, LFB em primeiro de janeiro _ dois fins de semana depois.  Eu não acredito que Wainer tenha realmente achado que ‘Avatar” era, assim, um azarão; e mesmo tendo evitado o lançamento ombro a ombro,  também não creio que Wainer pudesse acreditar que dois finais de semana _ sendo que um, o fim de semana do Natal _ fossem suficientes para “esvaziar” a pressão da demanda por “Avatar”.  Resta especularmos sobre o porque de resolverem lançar o filme assim mesmo.

Portanto, acho leviano, da parte do Tio Rei, dizer “que não tem essa de lançamento errado, Avatar etc“.  Tem essa sim, é claro.  E tanto o Barretão sabe disso que na mesma entrevista diz que o negócio foi “um erro de avaliação coletiva” de produtores, distribuidores e exibidores.

Por outro lado, é verdade, e nisso concordo com Reinaldo, que nego tinha altas expectativas quanto ao filme _ não tivessem, não o teriam feito estrear em mais de 400 salas, um número superior ao campeão nacional de bilheteria atual, “Se Eu Fosse Você 2”, com 300 salas.  Em poucas palavras, apostaram alto, acreditando que o alto grau de aprovação da figura de Lula como presidente se traduziria em um maná de ingressos de cinema.  Ledo engano _ o brasileiro não tem muita vocação para este tipo de coisa.  Acho que nem Getúlio Vargas na década de 30 teria sido sucesso de público.  Talvez Pedro I…  🙂

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Na Wired:

Pumzi, Kenya’s first science fiction film, imagines a dystopian future 35 years after water wars have torn the world apart. East African survivors of the ecological devastation remain locked away in contained communities, but a young woman in possession of a germinating seed struggles against the governing council to bring the plant to Earth’s ruined surface.

(…)

Like recent standouts District 9 and Sleep Dealer, the short film taps into Third World realities and spins them forward for dramatic effect. But to produce Pumzi, Kahiu looked to the past, as well as the future.” [grifo meu]

***

Isso me lembra desse artigo sobre a necessidade da ficção científica:

We live in a world that is incredibly frightening for a growing portion of the population because of the exponential rate of change and development we are experiencing. (…). Our world is changing so fast now that we often don’t have time to contemplate the full ramification that come with the increasingly rapid adoption of new technologies and social changes. Most often this is simply because these changes are being introduced almost one after another after another without any time to breath. Speculative fiction however, if widely adopted makes it almost instinctive that we think about these situations and possible outcomes before they even arise. It puts our brains into a future simulator of sorts where we are running through countless of possible outcomes for our society every week, culminating to subconscious database of sorts of ‘what if’ scenarios that we carry around with us. Without this database in our heads we blindly charge forward through the jungle of our progress without any regard of potential cliffs that lay ahead until it is too late.

Isso me faz pensar sobre as razões pelas quais o Brasil não produz ficção científica de nenhuma espécie, nem no audiovisual, nem na literatura.  Será que é porque abdicamos de pensar o futuro?  Talvez.

Onde foi parar este filme??

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She´s back!

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Já havia ouvido falar, mas agora que estreiou fui ver o “plot”.

Spoilers abaixo.

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Deu no Guardian:

China is to pull the plug on screenings of Avatar at most cinemas and replace the Golden Globe-winning film with a patriotic biopic on the life of Confucius, according to reports.

Hong Kong’s Apple Daily said the state-run China Film Group has ordered cinemas across China to stop showing the 2D version of the film and to show only the 3D edition, amid concerns from China’s censors that it could cause unrest. Because there are so few 3D cinemas on the mainland, the order effectively prevents general distribution of the James Cameron blockbuster.

Parallels have reportedly been drawn between the plight of the Na’vi, who face the threat of eviction from their woodland home, and those in China vulnerable to displacement by predatory property developers.

Bloggers are speculating about the toll Avatar could inflict on home-grown films. The Confucius picture is directed by Hu Mei and stars Chow Yun-fat as the sage.” [grifo meu]

***

Por algum motivo, nenhuma das duas explicações me parece muito convincente.   Mas realmente parece que a questão dos incorporadores imobiliários é importante por lá.

***

Cameron deve estar triste.

***

Clash of Titans?

Tio Rei tem um post intitulado “Agressão aos Direitos Humanos Também no Cinema“.  Não, amigo, não se trata de uma gangue de lanterninhas torturadores que se aproveitam do escurinho do cinema para te fazer contar o final do filme mesmo que ele ainda esteja no início.  Vejamos:

A Ancine, a Agência Nacional de Cinema, precisa agir depressa para ver se consegue salvar do vexame “Lula, O Filho do Brasil”, o filme hagiográfico sobre a vida de Lula que não conseguiu repetir a proeza de mentir mais do que a propaganda oficial. Em matéria de cinema, ninguém supera Franklin Martins, o ministro da Verdade. Como jornalista, ele já exibia essa tendência, razão por que seus chefes o convidaram a assumir de vez o discurso oficialista. Mas me desviei um pouco do principal. No lusco-fusco de 2009, ali no apagar das luzes de um ano e no aceder as de outro, Lula editou o decreto nº 7. 061 – precisamente no dia 30 de dezembro. É curto. Leiam. Volto em seguida:

Reproduzo, do tal Decreto, apenas as partes que ele grifou:

Art. 1o As empresas proprietárias, locatárias ou arrendatárias de salas ou complexos de exibição pública comercial estão obrigadas a exibir, no ano de 2010, obras cinematográficas brasileiras de longa metragem, no âmbito de sua programação, observado o número mínimo de dias e a diversidade dos títulos fixados em tabela constante do Anexo a este Decreto.

(…)

Art. 3o A ANCINE, visando promover a auto-sustentabilidade da indústria cinematográfica nacional e o aumento da produção, bem como da distribuição e da exibição das obras cinematográficas brasileiras, regulará as atividades de fomento e proteção à indústria cinematográfica nacional, podendo dispor sobre o período de permanência dos títulos brasileiros em exibição em cada complexo em função dos resultados obtidos.”  [grifo meu]

E Tio Rei continua:

Que coisa comovente! Numa tabela em anexo, o decreto específica o número mínimo de sessões com filme nacional, dependendo do número de salas controladas por uma mesma empresa.

Falta agora a instrução normativa da Ancine. Mas notem: não contente em impor o filme nacional, o decreto atribui à agência o poder para definir o tempo em que um filme ficaria em cartaz em cada sala, entenderam? É isto: também nesse caso, a liberdade vai para a breca. O estado se torna o grande programador dos cinemas.

Chega a ser patético que esse decreto tenha vindo à luz na antevéspera da estréia do , dadas as expectativas, maior insucesso da história do cinema brasileiro: “Lula, O Filho do Brasil“. Como fica evidente, quando o telespectador não quer, não há máquina de propaganda, dinheiro ou adesismo que dê jeito. O “maior lançamento da história” está sendo rejeitado até pelos camelôs. Ainda escreverei a respeito. Só que terei de passar pela provação de ver o filme primeiro.

Ou seja, ele quer fazer crer que na calada da noite, no final de 2009, o Presidente da República publicou um decretinho solerte só para fazer decolar o “Lula, o Filho do Brasil”.

Neste caso, tenho algumas surpresas para o Tio Rei.  Vejamos o caput do Decreto que ele menciona:

O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso da atribuição que lhe confere o art. 84, inciso IV, da Constituição, e tendo em vista o disposto no art. 55 da Medida Provisória no 2.228-1, de 6 de setembro de 2001, DECRETA:”

E o que diz o art. 55 da Medida Provisória 2.228-1, assinada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso???  Isso:

Art. 55. Por um prazo de vinte anos, contados a partir de 5 de setembro de 2001, as empresas proprietárias, locatárias ou arrendatárias de salas, espaços ou locais de exibição pública comercial exibirão obras cinematográficas brasileiras de longa metragem, por um número de dias fixado, anualmente, por decreto, ouvidas as entidades representativas dos produtores, distribuidores e exibidores.

§ 1o A exibição de obras cinematográficas brasileiras far-se-á proporcionalmente, no semestre, podendo o exibidor antecipar a programação do semestre seguinte.

§ 2o A ANCINE aferirá, semestralmente, o cumprimento do disposto neste artigo.

§ 3o As obras cinematográficas e os telefilmes que forem exibidos em meios eletrônicos antes da exibição comercial em salas não serão computados para fins do cumprimento do disposto no caput.”

Pois é.  Desde 2001, TODOS OS ANOS, há um Decreto presidencial, em geral publicado no Diário Oficial da União no final de dezembro (excepcionalmente no início de janeiro), definindo a cota de tela para o ano subsequente.  Por obra e graça de Fernando Henrique Cardoso.

Pior: esse mecanismo já estava em vigor ANTES MESMO da MP 2.228-1, como podem ver abaixo:

E o que dizia o artigo 29 da Lei 8.401, citada no caput desse Decreto como sua base jurídica? O seguinte:

Art. 29. Por um prazo de dez anos, as empresas proprietárias, locatárias ou arrendatárias de salas, espaços ou locais de exibição pública comercial exibirão obras cinematográficas brasileiras, de longa metragem, por determinado número de dias, que será fixado anualmente por decreto do Poder Executivo.

1° A exibição de obras cinematográficas brasileiras far-se-á proporcionalmente, no semestre, podendo o exibidor antecipar a programação do semestre seguinte.

2° A aferição do cumprimento do disposto neste artigo far-se-á semestralmente por órgão designado pelo Poder Executivo.

3° O não cumprimento da obrigatoriedade de que trata este artigo sujeitará o infrator a uma multa correspondente ao valor de dez por cento da renda média diária de bilheteria, apurada no semestre anterior à infração, multiplicada pelo número de dias em que a obrigação não foi cumprida.

O que é a mesma redação, praticamente, do art. 55 da MP 2.228-1.  Quer dizer, quase.  Na versão da Lei 8.401, o mecanismo da cota de tela deveria vigir por dez anos.  A MP 2.228-1 (lembrem-se, assinada pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso) estendeu esse prazo para…20 anos!

Depreende-se daí o seguinte:

a)  O Presidente Fernando Henrique Cardoso “agrediu os direitos humanos” dos espectadores de cinema tanto ou mais que Lula.

b) Tio Rei MENTIU quando disse que o Decreto visa turbinar o filme “Lula, o Filho do Brasil”.  Inclusive, os dias de cota de tela ali propostos são os mesmos que do Decreto do ano anterior, determinados no Decreto no. 6.711, de 24 de dezembro de 2008:

***

Eu não sou o maior dos fãs da cota de tela e acho que esse instituto deve ser sobretudo temporário, devendo acabar quando a indústria cinematográfica brasileira for capaz de andar pelas próprias pernas.  O que talvez não esteja muito longe, segundo matéria de Gustavo Briggato no Valor de hoje:

Cinema nacional cresce 76% em 2009

O número de pessoas que assistiram a filmes nacionais em 2009 cresceu 76% na comparação com 2008, segundo levantamento da Agência Nacional do Cinema (Ancine). Foram 16 milhões de expectadores. Conforme adiantou o Valor em 8 de dezembro, foi a segunda melhor marca do cinema nacional em sua fase de retomada – o período inaugurado em 1993 com a edição da Lei do Audiovisual.

Os filmes brasileiros arrecadaram R$ 113,9 milhões no ano. “Se Eu Fosse Você 2” liderou a bilheteria com 6,1 milhões de ingressos vendidos e R$ 50,5 milhões arrecadados. O filme superou a marca estabelecida em 2005 por “Dois Filhos de Francisco”, que atraiu 5,3 milhões de expectadores.

A cota de tela tem sido importante nesse movimento?  Possivelmente, sim, ao assegurar uma fatia de mercado para filmes nacionais _ sem o qual dificilmente investidores se animariam a botar seu dinheiro na produção de um filme nacional que, por várias características únicas do mercado cinematográfico (como a prática das distribuidoras internacionais, as majors, exigirem a exibição de um portfolio de seus filmes pelos cinemas, criando uma verdadeira barreira à entrada ao produto nacional), é um empreendimento de elevado risco.

Mas parece que a “programação” dos cinemas pelas empresas internacionais não preocupa tanto Tio Rei quanto ganhar as eleições desse ano.

Não mais contente com os resultados das “sequels”, Hollywood inventa uma nova moda: os “reboots”.

Assim, depois transformar “Jornada nas Estrelas” em uma “Malhação nas estrelas”, vem aí “Spidey” _ as aventuras de Peter Parker adolescente no high school:

Easily the biggest news to hit in recent weeks was the word that Sony has scrapped production on Spider-Man 4 and will reboot the character with a new film (and, presumably, an ensuing series) featuring a new cast and creative team. A general 2012 date has been mentioned, but no specific date has yet been set; expect the studio to stake a claim in May, and for any other films in that region to shift accordingly. (…)

We don’t know much about what that script entails, other than it will feature a younger teenage Peter Parker. EW calls the script “gritty, contemporary” and references Batman Begins, seemingly not only in the sense that Christopher Nolan reinvented Batman on film, but in the sense of tone. Which would be a shame. Let’s have anything but a gritty Spider-Man, please. Anyone with a shred of understanding of the character knows that, while the stories can be heavy, ‘gritty’ isn’t what makes Spider-Man universally appealing.”

Que virá depois?  A adolescência dos X-Men?  Ops!

O io9 mostra como Avatar foi inspirado em capas de discos do Yes

Avatar já bombou mais de um bi de dólares.

E a imprensa especializada já diz que dificilmente a Fox se negará a produzir uma continuação.  Aliás,  Cameron pensa em um arco de 3 filmes.

Um fato curioso é que filmes 3D vêm se dando bem nas telonas, mas mal na venda de DVD´s.   Porque, naturalmente, as pessoas que viram o filme em 3D não acham a mesma graça em rever o filme em casa em 2D.  O problema é que isso desequilibra a equação financeira dos filmes, a ponto de executivos não terem muita certeza se vale a pena produzir mesmo em 3D dado que a renda total de um filme ainda é muito dependente da janela em DVD _ e é provável que o mesmo valha para as janelas ancilares da TV por assinatura e aberta.

De onde se depreende que a pressão por monitores de vídeo em 3D será intensa nos próximos anos.  Aos céticos, afirmo que já vi uma tela da Philips há dois anos, reproduzindo imagens em 3D sem necessidade de óculos especiais.  Elas virão, com certeza, portanto, se você já comprou sua TV de 40 ou 42 polegadas, não vale a pena partir para a de 50.

***

Quanto às idéias para uma continuação de “Avatar”, muito se fala em explorar, talvez, o que os humanos andam fazendo nas outras luas de Polyphemus.  Eu diria que a idéia é idiota.  A Venture Star veio direto da Terra para Pandora, o que sugere que a colonização da lua é feita diretamente da Terra e não a partir de outros postos avançados no sistema de Alpha Centauri.  Se Cameron deseja manter a coerência da história, não vai dar pra explorar este veio.

***

A expectativa é grande com o lançamento do iSlate ou como quer que venha a se chamar o tablet PC da Apple.  O mercado torce para que a empresa tenha produzido o e-reader que incendeiará o bolso dos consumidores.

Hoje atinei que um e-reader decente possibilitará que os editores de livros técnicos possam vir a vender livros como uma “assinatura”, dando direito às reedições, que poderão ser baixadas wirelessly para o aparelho.

Copernicus, colaborador frequente do site “Ain´t it cool”, é um astrofísico que trabalhou no SETI, dá aulas de xenobiologia, e faz algumas observações sobre a ciência por trás de Avatar.  Ele dá uma boa nota ao filme, e eu também, mas tenho algumas ressalvas às opiniões dele [extraordinariamente, estou colocando o texto traduzido pelo Google Translate – que melhorou muito ultimamente – com umas maozinhas minhas onde necessário]:

“Eu tenho uma pequena reclamação, a de que, dadas as suas capacidades de trabalhar em rede, os Na’vi não deveriam ser tão tecnologicamente inferiores aos seres humanos. Na Terra, a maior barreira à progressão tecnológica é que as informações que existiam no cérebro dos seres humanos primitivos não podiam ser facilmente compartilhadas ou conservadas. Assim que a escrita foi desenvolvida, de repente, era possível armazenar informação fora do cérebro, e gravar e produzir conhecimento. O conhecimento disponível a um ser humano ou tribo passou de um valor de um cérebro (e uma quantidade mínima de tradição oral) para os milhares, e, finalmente, milhares de milhões de cérebros . O resultado foi uma explosão tecnológica e social. Hominídeos tiveram a tecnologia como lanças por cerca de meio milhão de anos, mas apenas 7.000 anos após o desenvolvimento da escrita já tinha sido capaz de deixar o planeta. E a partilha de conhecimento ainda está passando por uma revolução com o desenvolvimento da internet. Agora temos acesso instantâneo ao conhecimento combinado de toda a história da humanidade.”

Tirando a possibilidade de que o tipo de comunicação possível pela conexão neural Na´vi seja algo bem diferente da tecnologia de informação humana _ por exemplo, o fato de você poder trocar informação com outros seres não significa que você possa usar essa capacidade para fazer cálculos, como fazemos com nossos computadores _ tenho uma objeção mais geral a essa idéia de Copernicus.  Nossa cultura atual parece pensar que TIC é condição não só necessária como suficiente para a emergência de uma civilização como a nossa.   Essa percepção me parece bastante antropocêntrica, ou pior, ingênua, mesmo do ponto de vista de nossas realizações passadas.  Tomemos como analogia o exemplo da Máquina de Anticitera, um artefato mecânico datado de 100 AC e descoberto em 1901 e que desde então vem desafiando historiadores e arqueólogos pela sua perfeição de projeto e funcionamento _ demonstrando que os gregos antigos haviam conseguido aperfeiçoar uma tecnologia de precisão que só se imaginava ter sido inventada muitos séculos depois.  Isso mostra que uma possibilidade técnica não faz, por si só, que uma inovação seja adotada pela sociedade que dela é capaz.

Mas a minha principal queixa do ponto de vista evolutivo é que não há nenhuma maneira pela qual a vida na lua Pandora evoluiria para parecer tão semelhante à vida na Terra: há humanóides, cavalos espaciais, rinocerontes com cabeça de martelo, e pseudo-pterodáctilos. E para piorar, eles têm DNA, e o DNA é parecido o suficiente do nosso próprio para que DNA Na’vi e humano pode ser combinado!

Na verdade, não vejo maiores problemas para que formas de vida em outro planeta sejam semelhantes às formas de vida terrestres.  Mesmo na biologia terrestre há casos muitíssimo curiosos de “convergência evolucionária”, em que certos tipos de animais evoluem para preencher o mesmo nicho ecológico apesar de passados evolutivos muito diferentes.  É o caso, por exemplo, do morcego e das aves, da baleia e dos tubarões-baleia (para não falar de orcas e tubarões propriamente ditos), chacais e lobos-da-tasmânia, etc.  Tal tipo de convergência provavelmente sempre acontecerá se planetas diferentes tiverem condições geofísicas que propiciem o surgimento de ecologias similares.  Talvez Copernicus fosse mais ao ponto na sua crítica ao duvidar que as condições geofísicas de uma lua de um gigante gasoso pudessem ser similares à da Terra.   Entretanto, como alguns dos exoplanetas já encontrados são justamente gigantes gasosos que orbitam muito mais próximos de suas estrelas do que os gigantes gasosos do sistema solar, não é de todo impossível que uma lua de um planeta desses possa se parecer com a Terra.

Especificamente quanto à convergência antropomórfica entre humanos e Na´vi…essa é uma questão complicada.  A verdade é que não sabemos muito sobre o “nicho” ecológico que ocupamos, e portanto não dá pra saber se uma generalização é possível.  Aparentemente, somos uma espécie social e “generalista”, que terminou desenvolvendo um raciocínio simbólico por razões ainda não totalmente claras (embora imagine-se que a própria sociabilidade humana tenha desempenhando um papel importante aí).  Mas não sabemos se a forma humana é a “única” capaz de preencher esse “espaço” na paisagem adaptativa da ecologia terrestre (ou de um planeta similar).

Quanto à questão do DNA, acho que é uma questão difícil.  Temos poucos exemplos de moléculas como o DNA, mas é possível que a evolução na própria Terra tenha destruído todas as outras macromoléculas capazes de transmitir informação e concorrer com o DNA.   Assim, a “inevitabilidade” da participação do DNA na constituição da vida é um tópico em aberto, eu acho.

Finalmente, quanto à Física do filme, propriamente:

Mas o meu maior problema com a negociação que Cameron fez entre a Física e os efeitos visuais é com aquelas malditas montanhas flutuantes. Sério, montanhas flutuantes? Como diabos elas ficam lá em cima? Isto é um desrespeito tão flagrante às leis da física que certamente há algum raciocínio por trás disso.”

Pra ser sincero, no post-script do post alguém deu para Copernicus a mesma explicação que eu havia pensado: as montanhas são do material supercondutor unobtainium, e supercondutores levitam na presença de campos magnéticos.  É claro que isso faria com que fosse necessário explicar porque então o lugar da cidade da árvore, que foi destruída pelos humanos para que eles pudessem escavar ali já que havia uma imensa jazida de unobtanium por debaixo, não saía voando por aí… Mas a MINHA bronca com essa história do unobtanium é que não dá pra acreditar que uma vez conhecida a composição do material não fosse mais fácil tentar produzi-lo na Terra do que minerá-lo e transportá-lo por distâncias interestelares (*).   Segundo Copernicus, a equipe que criou o filme também elaborou uma Pandorapedia que está online.  O site dá algumas respostas a várias perguntas que eu ainda faria _ como por exemplo porque a nave-mãe em órbita de Pandora não detonou algumas armas nucleares sobre os Na´vi;  é que segundo o site a RDA, empresa que detém o monopólio de exploração de Pandora, está obrigada por tratado a não utilizar armas de destruição em massa.  Sei.   🙂

***

Uma outra vertente a ser explorada, é claro, é quanto à racionalidade econômica da exploração interestelar, em particular quanto ao comércio interestelar de bens.  Paul Krugman endereçou este problema em um paper de 1978, escrito sob o impacto de uma sessão de Star Wars, cujo abstract é o que se segue:

(clique para ampliar)

O leitor interessado também pode se dirigir a este post do Marginal Revolution sobre o mesmo febricitante tema.

***

(*) E sim, eu sei que o unobtainium não é uma invenção do Cameron mas sim uma tradição na ficção científica simbolizando qualquer material que tenha propriedades exóticas e seja, por definição, difícil de arranjar…

O magritteano poster norte-americano

Ontem à noite revi “Muito Além do Jardim“.

Foi a primeira vez que revi o filme, que assisti quando estreou no Brasil, possivelmente em 1979 (esse é o ano da produção, como naquele tempo acho que os filmes não tinham estréias mundiais simultâneas como hoje, pode ter sido em 1980).

A primeira coisa que me chamou a atenção é a mudança no tempo cinematográfico.  Os filmes de hoje em dia _ e não falo dos blockbusters apenas _ são muitíssimo mais rápidos, quase frenéticos em relação ao MAJ.   E isso mesmo levando em conta que o diretor do filme, Hal Ashby, era um expoente do movimento chamado New Hollywood, que namorava com o que chamaríamos de cena indie de hoje em dia.

Também, em minha memória “inventada”, as situações em que Chance se mete e que vão progressivamente fazendo dele uma potência da Beltway me pareciam mais críveis, em retrospecto.  Mas ainda assim o filme continua a ser um interessante experimento dos pressupostos entre mensagem e receptor, entre o que se diz e o que se entende.

No entanto, a grande controvérsia sobre o filme diz mesmo respeito ao seu final, em que Chance sai andando sem rumo do funeral de Ben Rand, termina às margens de um lago e simplesmente anda sobre ele:

(a partir dos 3m34s)

Li algumas “interpretações” da cena, mas me pareceu que a melhor mesmo é essa que aliás vem de alguém que conheceu Hal Ashby, o diretor _ e se trata de uma história deliciosa:

How the “Walking on Water” Shot in Being There Actually Got Made

by Michael Dare

The script for Being There ends as both Peter Sellers and Shirley MacLaine take walks in the wood. They run into each other. She says “I was looking for you, Chance.” He says “I was looking for you too.” They take hands and walk off together.

But near the end of production, somebody went up to Hal and said “How’s it going?”

“Great,” Hal said. “Sellers has created this character that’s so amazing, I could have him walk on water and people would believe it.” Hal stopped and thought. “As a matter of fact, I will have him walk on water.”

Hal was out on location, miles from Hollywood. The last thing on earth he needed was to contact the home office to discuss the idea of Chance walking on water. It’s an idea that wouldn’t pitch or read well. If it had been in the script, there would have been endless arguments over what this Jesus allegory was doing in the picture. Only if you’ve actually seen the film do you realize that it’s not a Jesus allegory at all. Chance can walk on water because nobody ever told him he couldn’t, not because he’s the resurrection of Christ.

Hal knew he could make it work, just as he knew that there was no way in hell the studio would approve of more money for such a controversial shot that wasn’t even in the script. He decided to do it anyway.

First, he called Robert Downey, who had a scene in Greaser’s Palace where the main character walked on water. Hal knew that Downey didn’t have a lot of money, so he asked for advice on how to do it. Downey told him it was simple. Just go to an airport, get a certain kind of platform, and place it in the water. Hal followed Downey’s advise and got the shot for less than $10,000.

Second, he had to deal with keeping the shot a secret. There was this one, very well dressed kid around the set who was officially called a PA, but whom Hal suspected of being the studio spy. Hal called him into his office and read him the riot act.

“I’m going to ask you to make a decision right now that’s going to affect the rest of your life,” he told the kid. “I’m going to ask you to decided whose side you’re on. I know you’ve been watching me because you want to learn how to make movies. I also know you’re watching me to make reports to the studio behind my back. I’m about to change the end of this movie because I’ve come up with a better one. The studio can’t know about it or they’ll shut me down. This is it, kid. Decide. Are you on the side of art or commerce?”

The kid kept his mouth shut. The shot got made. The studio was pissed but they used the shot anyway. Hal didn’t give them a choice. He didn’t even shoot the ending in the script.” [grifo meu]

***

Se alguém aí estiver disposto a ver o filme, sugiro que leia depois esse excelente review de Roger Ebert (com cujo parágrafo final não concordo), para quem “Being There” é um dos grandes filmes de todos os tempos.  No que eu o sigo, embora possivelmente uma parte ponderável dessa impressão se deva ao “twist” aplicado por Ashby no final do filme na última hora, e que o impregna com um senso surrealista que lhe cai muito bem.

Going native, radical style

Consegui ver o 3D depois da segunda tentativa (a primeira foi ontem, e lotou).

Muito bons efeitos.  O 3D não me surpreendeu tanto, mas acho que eu esperava demais depois de ver um 3D em um Imax de um museu nos EUA.

O roteiro, bem, é uma ecologia de botequim.  Se a personagem principal se chamasse Marina, o filme poderia intitular-se “Marina Silva, a Filha de Pandora”.

Mas há um subtexto, e ele deve ser lido à luz das intervenções norte-americanas no Iraque e no Afeganistão.  E é meio ingênuo pensar que as menções ao “shock and awe” e à “guerra ao terror” estavam ali por coincidência.   E como já disseram por aí, o enredo, de fato, é mais uma instanciação do tema “going native“.  Nada a ver, de fato, com Pocahontas, que transita no sentido contrário.

O que me leva a pensar na solução encontrada pela roteirista para justificar a maneira pela qual o marine mercenário se transforma em um Na´vi.   O personagem principal realmente só se dá conta da merda que está fazendo quando algumas centenas de pessoas das quais ele gosta morrem (se é que alienígenas são pessoas).  O que demonstra uma certa falta de empatia, já que estava claro qual era a expectativa da corporação à qual ele servia.  Mas talvez realmente não seja um excesso de suspension of disbelief assumir uma certa falta de empatia por parte de um marine.

***

Segundo a Variety, o filme já fez bem mais de 200 milhões de dólares em sua estréia mundial, sendo esse o melhor resultado jamais alcançado por um filme original (que não é continuação de um outro, como dois dos filmes da trilogia Senhor dos Anéis).  Isso o coloca perto da estimativa inferior de seu custo de produção, que varia entre 300 e 500 milhões de dólares.

Tirando especulações selvagens sobre a tecnologia do filme, o fato é que vários aspectos dessa tecnologia (como a capacidade de criar avatares expressivos em tempo real) me fazem pensar que Cameron almeja, de fato, ganhar dinheiro na área de jogos, principalmente o multiplayer _ um mercado com excelentes expectativas apesar de um 2009 fraco, e se tornará ainda mais atrativo quando a ultra banda larga estiver democratizada.

Steve McQueen em seu buggy, filmagens de Thomas Crown Affair, 1967

Bom, este post começou com uma conversa com minha esposa sobre a origem do “Buggy”, motivada, claro, pelo clima de férias que nos cerca.

Problema:  incorri na temeridade de dizer a ela que a origem do nome “buggy” vinha do automóvel Bugre.  Carioca, paradoxalmente derrapei no provincianismo de acreditar que o particular era o geral: o primeiro buggy que vi na minha vida foi um Bugre, portanto nunca me importei muito em conhecer da história desse carro.  Sempre dei por barato que “buggy” havia sido uma anglicização de “Bugre”, shame on me.

Mas sabem como é, a dúvida é uma sementinha que uma vez plantada no cérebro termina por se transformar em imensa e copada árvore, e foi sob sua sombra ameaçadora que decidi empreender uma expedição semântica à internet.  Encontrei o que se segue:

Buggy

No “The Word Detective“, há a seguinte explicação:

Buckeye buggy.

Dear Word Detective: I too am an Ohio transplant, originating from New Jersey, and I find this place to be a blessing. Currently I reside in the quiet countryside of Holmes County where if you know the region you quickly associate it with the Amish community that lives here. I have long wondered where one of the most common icons of the Amish got its name, that being the “horse and buggy” which is their primary transportation. I once asked a friend who is Amish and after a moment of puzzled expression and a shrug of the shoulders his reply was, “That’s just what we call it.” — Gone Buggy, via the internet.

Ah, yes, rural Ohio is quiet, isn’t it? Except, of course, for the crickets, which are, as I write, driving me slowly nuts with their infernal cheep-cheep-cheeping. We have many Amish (a Mennonite order named after Jacob Amman, a Swiss preacher) living in my area too, and I always worry about them when I see their buggies on the country roads around here. You’d think motorists would know enough to slow down when they see a horse and buggy, but apparently not, and there have been some fairly horrible car-buggy accidents in the last few years.

As for the origin of “buggy,” your Amish friend’s answer is about as good as anyone is going to get. As a term for a small one-horse vehicle, “buggy” first appeared in English around 1773, but it does not appear to be connected in any way to “bug” meaning “insect” (which is the source of “buggy” meaning “nuts”). There is a possibility that “buggy” is derived from the Northern English dialect word “bogie,” which means a small platform mounted on wheels (what we in the U.S. would call a “dolly”), but there’s no solid evidence of a direct connection. And even if there were, it wouldn’t do us much good because no one knows where “bogie” came from, except that it does not seem to be related to “bogey” as in “bogeyman.” So I’m afraid we’re fairly certain about where “buggy” didn’t come from, but completely in the dark as to where it did originate.

Muito bom.  Provavelmente pode-se estabelecer que a palavra “buggy” vem mesmo de “bug”, que é o nome que os americanos deram ao Volkswagen sedan sob a inspiração do nome popular que os alemães deram ao VW tipo 1: “Käfer” _ “besouro” em alemão.  Há uma história de amor entre os fanáticos pelo “dune buggy” e o VW:

Many people credit Bruce Meyers with the invention of the dune buggy.

To do that you first have a clear definition of what a dune buggy is. There were many pioneers before the “Manx”. In fact in a recent interview with Public Television on a show called “California Gold” Bruce to the host of the show, “I didn’t invent the dune buggy….I invented this style of dune buggy.” Bruce did invent the Manx and clearly spurred the whole fiberglass revolution but, there were many more buggies on the dunes before the Manx. Some of the first dune buggies were just street car frames with the bodies removed and larger tires added for beach use. The late fifties and early sixties saw a sand car craze that paralleled the street hot rod craze. Some were big and ugly but, they were the inspiration for a “kinder gentler” sand car, including the inspiration for the Manx.

With all of the “water pumper” action on the beaches it wasn’t long until the first noted VW ride was built by shortening the pan. Petersen Publishing even gives someone credit for this feat. It was Pete Beirning of Oceano, CA that did it in 1958. He took a rolled Bug and made a short pan buggy out of it. From that first trip out on the dune on through today, there has been controversy over V8 power or VW nimbleness. Many people took note of his pan car and followed suit.

OK.  Mas e o Bugre?

Bugre

A Wikipedia nos ajuda:

Bugre é a denominação dada a indígenas de diversos grupos do Brasil, por serem considerados sodomitas pelos europeus. A origem da palavra vem do francês bougre, que de acordo com o dicionário Houaiss possui o primeiro registro no ano de 1172 e significa ‘herético’, que por sua vez vem do latim medieval (século VI) bulgàrus. Como membros da igreja greco-ortodoxa, os búlgaros foram considerados heréticos, e o emprego do vocábulo para denotar a pessoa indígena liga-se à ideia de ‘inculto, selvático, não cristão’ – uma noção de forte valor pejorativo.

!!!!!

Pois é, é aqui que a coisa começa a ficar curiosa.  Diante de tão saborosa associação, saí em busca das ligações entre os pobres búlgaros, a heresia e a sodomia.  E encontrei este artigo, de todos os lugares da internet, nos Science Blogs:

Traumatic anal intercourse with a pig

No post, Darren Naish, um paleontologista britânico, nos brinda com a descrição do artigo científico “Zoophilia: a rare cause of traumatic injury to the rectum“, que descreve um ferimento retal encontrado em um infeliz fazendeiro búlgaro a quem ocorreu ficar na parte passiva de uma relação sexual com um porco.  Para sua infelicidade, o pênis do porco, que mede entre 45 e 65 centímetros, tem uma anatomia assaz curiosa, o que lhe rendeu momentos de infelicidade e não de prazer.

Mas os afazeres da população rural com seus animais de criação não vêm ao caso.  Nos comentários ao post, compreensivelmente mais bem humorados do que o normal nos SB, um leitor informa que a provável associação entre os búlgaros e a sodomia na mente popular tem a ver com o fato de que uma certa heresia foi bastante forte na região dos Balcãs _ a heresia bogomila.  Mais uma vez a Wikipedia nos salva:

The now defunct Gnostic social-religious movement and doctrine originated in the time of Peter I of Bulgaria (927 – 969) as a reaction against state and clerical oppression of Byzantine church. In spite of all measures of repression, it remained strong and popular until the fall of Bulgaria in the end of the 14th century.

Bogomilism is the first significant Bulgarian heresy that came about in the first quarter of the 10th century. The term “Bogomil” means “Dear to God” in Bulgarian. Bogomilism was a natural outcome of many factors that had arisen till the beginning of 10th century. (…) Another factor was the existence of older Christian heresies in the Bulgarian lands. The most influential among those were Manichaeism and Paulicianism, which were considered very dualistic. Manichaeism’s origin is related to Zoroastrianism; that is why Bogomilism is sometimes indirectly connected to Zoroastrianism in the sense of its duality. The social discontent of the peasantry and the presence of the old Christian heresies created a new Christian heresy under the name of Bogomilism.”

Embora o texto a seguir não se encontre mais na atual versão do verbete na Wikipedia, ele consta do comentário lá nos SB e pela internet a fora, explicando o curioso caminhar da associação entre “búlgaro” e “sodomita”:

The name of the movement was bulgarus in Latin (meaning “Bulgarian”), which included Paulicians, Cathars, Patarenes and Albigenses. It became boulgre, later bougre in Old French meaning “heretic, traitor”. It entered German as Buger meaning “peasant, blockhead” (and went on to English as bugger) and the French term also entered old Italian as buggero and Spanish as bujarron, both in the meaning of “sodomite”, since it was supposed that heretics would approach sex (just like everything else) in an “inverse” way. The word went on towards Venetian Italian as buzerar, meaning “to do sodomy” (the sexual acts performed by homosexuals). This word entered German again (see reborrowing) as Buserant and went on to Hungarian as buzerons, becoming buzi around the 1900s, a form still in use as a sexual slur for male homosexuals.

Afinal, já dizia o jurista inglês  Sir Edward Coke no seu Third Part of the Institutes of the Laws of England , de 1644:

Buggery is a detestable, and abominable sin, amongst christians not to be named, committed by carnall knowledge against the ordinance of the Creator, and order of nature, by mankind with mankind, or with brute beast, or by womankind with brute beast.”

***

Então é isso: “buggy” vem do alemão “besouro”.  “Bugre” vem do francês “bougre” para herético, mas também com o significado de “sodomita”, “invertido”.  Imagino que o Paulo Cavalcante lá de Rio Bonito, fundador da Indústria Carrocerias Bugre Ltda., jamais imaginou uma coisa dessas _ muito menos o Steve McQueen.

Se bem que eu sempre desconfiei do Pierce Brosnan, que faz o remake do “Thomas Crown Affair” e mostra as plumas em Mamma Mia…

39s…

Twilight = abstinence porn

Tio Rei se manifesta sobre “Lula, o Filho do Brasil”:

Fábio Barretão que me desculpe, mas uma obra de arte pressupõe um mínimo de ambigüidade, o que não há em Lula, O Filho do Brasil. Admiradores e críticos do presidente avaliam que se trata de pura hagiografia cinematográfica. Até o oscarizado Gandhi, de Richard Attenborough, nos leva, muitas vezes, a dúvidas sem resposta sobre as escolhas do líder indiano. Isso era com aquele Gandhi lá. Com Lula, é diferente.

Ao final do post, ele acrescenta:

PS: Ainda não vi o filme, reitero, e esqueci de indagar os meus amigos a respeito.

É a defesa do relativismo tipo “não vi e não gostei”.

Luiz Zanin critica “Lula, o Filho do Brasil”, no Estadão, fazendo-nos crer que o Barretinho não tem vocação para Leni Riefenstahl:

Estranhamente, no final das 2h08 do filme não houve a apoteose esperada. Certo, foi bem aplaudido, mas não aconteceu a consagração que alguns já previam. E por quê? Má-vontade oposicionista? Não parece. Na grande maioria, a plateia era composta por simpatizantes do personagem-título. No entanto, alguma coisa derrapa no decorrer do filme, que até começa muito bem com as cenas do sertão de Caetés, Pernambuco, onde Lula nasceu em 1945. Boas imagens, falta de preocupação explicativa, o andamento bom.

Mas depois o filme vai derrapando, contudo sem nunca chegar ao desastre, é bom que se diga. Acontece que a vida do biografado é já um melodrama. Tome esses elementos: Infância pobre, vinda para Santos num pau-de-arara. Pai alcoólatra, brigas, violência familiar, bebedeiras, a mãe que resolve abandonar o marido e criar sozinha os filhos. Depois o namoro, o casamento com a primeira mulher, que morre de parto, o engajamento na luta sindical, a mãe, sua referência maior, que morre quando Lula está na prisão. Ufa! E tudo isso aconteceu de verdade. A vida de Lula é um roteiro pronto.

O que o filme não deveria ter feito era somar melodrama a mais melodrama. Quer dizer, insistir numa linguagem cinematográfica às vezes muito melosa, pontuada por alguns maus diálogos e, sobretudo, pelo excesso de música. Muito doce enjoa. E é isso, em parte, que contribui para que o filme não se realize por completo. Ao buscar em demasia a emoção, perde-se pela sobrecarga. E então a emoção, tão buscada, trava.”

Francamente é um filme que não tenho muita disposição de ir ao cinema ver (independentemente do que diga a crítica).  É capaz de eu esperar o DVD.

***

Mas isso dá…quizz!

Causa burburinho na rede o “vazamento” de um trecho do filme “Do Começo ao Fim”, do diretor Aluizio Abranches, no YouTube.

A trama conta de forma delicada uma relação de incesto homossexual.   Já posso imaginar a reação de Olavón et caterva.

Matéria no Globo narra a “surpresa” do diretor:

O cineasta Aluizio Abranches recebeu na quinta-feira à tarde um telefonema do produtor Fernando Libonati: “Tá na rede. Vazou.” Ele se referia a um promo – filme promocional – de quatro minutos de “Do começo ao fim”, previsto para estrear no segundo semestre.

– Deu um frio na barriga quando eu soube. Fiquei muito nervoso. É muito cedo – diz Abranches.

A-hã.

Posso ser um paranóico, mas acredito que os cineastas estão aprendendo a usar marketing viral na rede.   🙂

Outro detalhe curioso na matéria:

(…)Abranches enfrentou reações de possíveis patrocinadores.

– Foi difícil à beça de vender. Levei vários “nãos”. Diziam que o conselho da empresa não ia aceitar um tema desses, alegavam problema de verba. São assuntos tabus.

Teve quem sugerisse a troca por duas irmãs. Um dos patrocinadores, que disse ter gostado de “O segredo de Brokeback Mountain”, saiu da sala, voltou e falou: “Vem cá, será que não poderiam ser dois primos, em vez de dois irmãos?”. Ele explicou que não teria a mesma força. O empresário acabou patrocinando. Foi um dos dois únicos que o diretor conseguiu, num total de R$ 200 mil. Com um detalhe: exigiram anonimato. Abranches também ganhou um prêmio espanhol de pouco mais de US$ 100 mil, do fundo Ibermedia.

– O resto do dinheiro é nosso mesmo, e empréstimo em banco.” [grifo meu]

O interessante aqui é que toda a lógica por trás do financiamento de filmes pela via dos benefícios fiscais é que as empresas que investem em cinema acabam ganhando um tipo de publicidade em retorno ao patrocínio.  Como nesse caso os empresários em questão exigiram anonimato, das duas uma: ou toparam financiar por amizade ao diretor ou em benefício da “causa”.   Nada demais, mas vale a pena registrar.

id4

Fui ver Distrito 9.

Gostei muito, apesar dos  furos do roteiro.

Mas fiquei com uma sensação muito forte de que apesar de todas as boas intenções que o roteiro nos força a emular, a história de fato é uma mistura de ID4 com “Guerra dos Mundos”.

Com um quê de “Alien Nation”, aliás.

[spoilers abaixo]

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Cientista prova que vampiros são uma impossibilidade matemática:

 

(…)Efthimiou has deduced the vampires are a mathematical impossibility with the following simple logic: if a vampire bit once a month, and all victims became vampires, the vampire population would increase exponentially until it wiped out the human population.

Efthimiou states that if the first vampire appeared on January 1st 1600, when the estimated human population was 536,870,911, everyone would be vampires in just “two and a half years”.

É que ele não viu Daybreakers:

***

Fico matutando se veremos nos próximos anos uma onda de “filmes de lobisomem” ou de “filmes de Frankenstein”, ou se realmente a idéia de vampiros tem um borogodó.

Na verdade, já tivemos as telas infestadas por vampiros antes, mas eram em sua maioria filmes B.  Depois a fixação com zumbis.  E aliás a licantropia também nunca nos abandonou de verdade.

Qualquer que seja o segredo dos dentuços, parece que até o Neil Gaiman já encheu o saco.

Descrição do Distrito 9 na seção “Cinema” do CorreioWeb, versão online do Correio Braziliense:

Distrito 9

(District 9, África do Sul/Nova Zelândia, 2009)

Sinopse: Grupo de extraterrestres transformam-se em refugiados na África do Sul. Inspirado no jogo Halo, da Microsoft.

Descrição do Halo, na Wikipedia (a 2 cliqs de distância da página do Correio):

Halo: Combat Evolved, ou simplesmente “Halo” é um jogo de tiro em primeira pessoa produzido pela subsidiária da Microsoft Game Studios, Bungie. Lançado inicialmente em 2001 para o console da Microsoft Xbox. O Halo é um enorme habitat espacial em forma de anel, que fica em um campo gravitacional entre um planeta e sua lua, o que causa a sua rotação gravitacional. No jogo, o jogador assume o papel de Master Chief, um supersoldado com uma armadura de batalha (Mjolnir Mark IV)para aumento de performance. Em nenhum dos jogos da série Halo foi mostrado o seu rosto. Master Chief é acompanhado por Cortana, uma Inteligência Artificial que está em seu capacete. O jogador enfrenta uma aliança de raças alienígenas durante o jogo, tanto a pé quanto em veículos, enquanto tenta descobrir o segredo de Halo.

Tudo a ver!

***

Ah, nosso jornalismo.

***

É verdade que, de certa forma, Distrito 9 nasceu da malograda tentativa de fazer um filme baseado no jogo Halo.  Porém eis o que diz o próprio produtor, Peter Jackson:

When Halo suddenly died, it was a bit of a shock but we thought: Let’s make an original, low-budget film — something where we won’t have to deal with a lot of studio politics.”

***

(*) copirráite Brad DeLong

The violence of the lambs

Alguém viu isso?  Existe MESMO?

Gosh.

o triunfo da vontade

No Estadão uma matéria sobre o filme “Lula, o Filho do Brasil“, que deve estrear em janeiro do ano que vem:

Lula, o Filho do Brasil, cinebiografia sobre o petista, será lançado em 1º de janeiro de 2010 com uma estratégia de distribuição que tem como objetivo torná-lo um dos maiores lançamentos do cinema nacional, desde a retomada da produção cinematográfica do País, em 1995. Para isso, a produção recorrerá a tradicionais bases de sustentação política de Lula, como sindicatos, e a regiões onde ele tem alta popularidade, como no Nordeste. Um universo de 10 milhões de pessoas sindicalizadas poderá comprar ingressos a preços populares para assistir ao filme, que pretende chegar aos rincões do País em 2010.

A estreia será feita em mais de 400 salas, sendo que 88 delas não fazem parte do circuito convencional. O objetivo é levar o filme para públicos populares, fora do mercado consumidor tradicional. O lançamento chegará a 19 salas que não fazem parte do parque exibidor de 1ª linha no Nordeste, em cidades como as baianas Alagoinhas e Santo Antonio de Jesus, a cearense Maracanaú e a pernambucana São Lourenço da Mata.

Aproveitando a alta popularidade de Lula no interior, a ideia é levar o filme para capitais fora do circuito tradicional, como Rio Branco (AC), Porto Velho (RO), Palmas (TO) e Macapá (AP). A cidade de Garanhuns, na região onde nasceu Lula, receberá cópias para exibição em duas salas, já no lançamento.

Serão feitas “para lá de 300 cópias” da cinebiografia, que conta os primeiros 35 anos da vida do presidente, do nascimento até a transformação dele em líder sindical, segundo Bruno Wainer, presidente da Downtown Filmes, que ao lado da Europa Filmes é responsável pela distribuição.

Lula, o Filho do Brasil fugiu do padrão nacional de financiamento de obras cinematográficas, baseado na renúncia fiscal. Causou polêmica no mercado, ao conseguir bancar a produção, de R$ 12 milhões, com dinheiro de empresas que não se beneficiaram de nenhuma lei de incentivo fiscal. Há construtoras, montadoras e outras empresas que não são tradicionais investidoras do setor – algumas têm contratos com o governo.”

Este trecho chama a atenção:

Serão feitas “para lá de 300 cópias” da cinebiografia, que conta os primeiros 35 anos da vida do presidente, do nascimento até a transformação dele em líder sindical, segundo Bruno Wainer, presidente da Downtown Filmes, que ao lado da Europa Filmes é responsável pela distribuição.

Pra quem não sabe, Bruno Wainer é filho de Danuza Leão com Samuel Wainer, o já falecido dono do jornal “Última Hora”.   Diz a Wikipedia sobre Samuel:

Originariamente um jornalista da Esquerda não-comunista, ligado ao grupo de intelectuais congregados em torno da revista Diretrizes , fundada por ele, Wainer era um repórter dos Diários Associados de Assis Chateaubriand quando veio a entrevistar Getúlio Vargas, durante a campanha eleitoral de 1950, formando com ele uma amizade política, movida à base de interesses mútuos, que viria a resultar na criação do Última Hora.

Vargas havia concebido a necessidade de um órgão de imprensa que pudesse sustentar as posições do populismo varguista contra uma imprensa virulentamente antipopulista e antivarguista. Consciente do talento individual de Wainer e sabendo da sua insatisfação com o trabalho nos Diários Associados, onde estava sujeito às humilhações quotidianas que implicava o trato diário com Assis Chateaubriand e suas práticas amorais, Vargas sabia poder contar com a lealdade pessoal daquele a quem havia apelidado de “Profeta”. Para tal, uma vez eleito, garantiu que o Banco do Brasil fornecesse um crédito a Wainer para a constituição do jornal em condições privilegiadas.

O Última Hora, desde sua origem, colocou-se abertamente como órgão pró-Vargas e oficioso: na sua primeira edição, o jornal estampava uma carta de felicitações assinada pelo próprio Getúlio Vargas. Foi um jornal que introduziu uma série de técnicas bem sucedidas que o tornavam mais atrativo às clsses populares: a seção de cartas dos leitores, o uso de uma editoria específica para tratar de problemas locais dos bairros do Rio de Janeiro. Era, ao mesmo tempo, um jornal conhecido pelo seu corpo de articulistas: Nelson Rodrigues e seus folhetins, a coluna de análise política de Paulo Francis e até mesmo uma coluna do futuro animador de televisão Chacrinha.”

Tem vários círculos se fechando aí, não?

When God loses faith in humanity, he sends a legion of angels to wipe out the human race. It’s only hope is a group of misfits holed up in a diner, aided by the archangel Michael.

O Arcanjo Miguel vem e kicks some ass.

Depois reclamam do Saramago.  🙂

chestburster

“Alien is a rape movie with male victims”

…nós não temos críticos de cinema assim?

The other week I went to see a science-fiction thriller called Pandorum which opens – rather memorably – with a scene in which a befuddled Dennis Quaid falls out of a space-pod dressed only in his underpants. The film that follows amounts to a prolonged bout of paranoid hysterics. People scream and run about and get eaten. There is a dark and rusting spaceship, a gaggle of barely glimpsed monsters and a sexy, effortlessly confident warrior woman who puts her bungling male counterparts to shame. It is, if you appreciate this sort of thing, a perfectly serviceable motion picture.

But Pandorum gives us something else as well. Every scene – every frame – comes tainted with the nagging, lingering whiff of deja vu; a sense that there is an altogether better movie nestled deep inside, waiting to burst forth. Afterwards it strikes me what that movie is, and I reel out of the cinema like a suitor at the end of a misbegotten date. The only reason I like Pandorum, I realise, is because I am still in love with Alien.”

(*) copirráite Brad DeLong

Será que depois do taylorismo, do fordismo, e da mass-customization, estamos vendo o nascimento do modo de produção “on-demand”?

Este post no blog “Bits” do NYT fala sobre o que talvez seja a aurora desse processo.   Ele fala sobre o sucesso do filme “Paranormal Activity“, rodado ao custo de parcos US$ 10.000,00, e que está fazendo grande sucesso na internet _ entre outros motivos porque seus responsáveis imaginaram um interessante marketing viral onde as pessoas podem votar para que o fllme passe em sua cidade.

Me parece meio inevitável que, com a teia global da internet estendendo-se a todos os rincões, este tipo de interação se torne cada vez mais comum.

Agora, se o Twitter vai conseguir fazer algum dinheiro com isso, eu não sei.

Deu no Valor de anteontem:

Hollywood prepara-se para cortes de orçamento

Depois da onda de fracassos de bilheteria das caras produções lançadas no verão no hemisfério Norte, um filme feito com míseros US$ 15 mil e elenco desconhecido apresenta-se como um dos possíveis êxitos inesperados do ano.

“Paranormal Activity”, um filme de terror nos moldes de “A Bruxa de Blair”, vem lotando sessões de meia-noite em um punhado de cidades dos Estados Unidos e parece destinado a virar um legítimo sucesso quando for lançado em todo o país, pela Paramount, neste mês.

A agitação favorável gerada em torno ao filme surge em contraste gritante com as reações negativas a lançamentos de produções de altos orçamentos no verão, que fracassaram nas bilheterias. Como os estúdios de Hollywood vêm apertando os cintos, o filme de baixo orçamento poderia ser um sinal do que está por vir no setor.

Desde 2007, o custo médio de produção e comercialização de um filme de longa-metragem subiu mais de 6%, de acordo com a Associação Cinematográfica dos Estados Unidos (MPAA, na sigla em inglês), enquanto os fluxos de receita nos últimos 12 meses, como os recursos obtidos com as vendas de títulos em DVD, tiveram fortes quedas.

A situação deixou a indústria cinematográfica diante de algumas opções difíceis. Na Universal Pictures e na Walt Disney, que tiveram vários fracassos de produções caras recentemente, altos executivos foram substituídos e novas estratégias vêm sendo traçadas pelas companhias.

Dick Cook, presidente do conselho de administração da Walt Disney Studios, supervisionou alguns dos mais rentáveis lançamentos da companhia, como os filmes da série “Piratas do Caribe”. Em setembro, no entanto, o executivo saiu do estúdio, após um ano marcado por insucessos, como “Força-G” e “Delírios de Consumo de Becky Bloom”.

Pouco depois, seguiram pela porta giratória de Hollywood os executivos Marc Shmuger e David Linde, copresidentes da Universal Pictures. Apesar de terem liderado o estúdio durante dois de seus anos mais rentáveis – em 2007 e 2008 -, a dupla foi demitida nesta semana depois de um 2009 terrível.

“A Terra Perdida”, comédia estrelada pelo ator Will Ferrell, custou US$ 100 milhões e arrecadou US$ 64 milhões, além de algumas das piores críticas do ano.

“Gente Engraçada”, filme do produtor, diretor e roteirista Judd Apatow, foi outra decepção nas bilheterias que o estúdio não pôde bancar, uma vez que teve produção estimada em US$ 70 milhões – muito mais do que as obras anteriores de Apatow.

A Universal Pictures e a Walt Disney Studios comprometeram-se a ser mais moderadas nos custos. Na Disney, o executivo-chefe Bob Iger aludiu várias vezes neste ano a “mudanças setoriais” dentro da indústria, com destaque para o colapso do mercado de DVDs.

Iger indicou Rich Ross, presidente da Disney Channels Worldwide, para substituir Cook. O estúdio continuará distribuindo cerca de 12 filmes por ano, mas desacelerou a produção em seu selo Miramax, que lançou filmes como “Onde os Fracos Não Têm Vez”. A Disney também acertou acordo para distribuir filmes financiados e produzidos pela DreamWorks, de Steven Spielberg.

Isso significa que a Disney financiará menos filmes, reduzindo o risco no caso de uma de suas produções ter desempenho fraco.

Na Universal, o presidente do conselho de administração, Ron Meyer, que decidiu demitir Linde e Shmuger, comprometeu-se a tornar o controle de custos uma prioridade na produção de filmes. “Gastamos excessivamente e tivemos um desempenho ruim”, afirmou o executivo, sobre os filmes lançados neste ano. “Temos de nos adaptar aos tempos e levar em conta [como funciona a] economia da indústria de filmes de hoje.”

Em um setor repleto de gordos salários, as ideias mais óbvias de cortes surgem mudanças na remuneração dos talentos. Algumas estrelas recebem somas astronômicas pelo seu trabalho e o tipo de pagamento conhecido como “20 e 20” (US$ 20 milhões adiantados e mais 20% da bilheteria bruta do filme, antes mesmo de o estúdio ganhar um centavo) não é incomum.

A nova equipe gerencial da Universal recusa-se a entrar na discussão dos salários estelares, com Donna Langley, a nova copresidente, insistindo que há outras áreas a levar em conta, como os custos com fontes de energia e materiais, que estão em alta. “Aprovar a produção de qualquer filme está ficando cada vez mais difícil [porque] o custo de produção subiu”, afirma a executiva.

Os principais talentos continuarão a receber valores diferenciados, segundo Barry Katz, presidente da New Wave Entertainment, que representa estrelas como Dane Cook.

“Posso garantir que as grandes estrelas não terão corte nos pagamentos”, afirma Katz. “Os estúdios precisam deles para atrair os espectadores”. (Tradução de Sabino Ahumada)

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Parece que o Lula vai faturar mais essa.  🙂

No Crooked Timber, um post interessante sobre a economics do cinema em 3D.  O autor, Henry Farrel, discute um artigo de Cory Doctorow no Guardian.  O ponto de Doctorow é que os filmes em 3D, apesar de interessantes, são um cul-de-sac, já que a própria lógica do business impedirá a emergência de VERDADEIROS filmes 3D, isto é, filmes onde o efeito 3D seja realmente parte integral e inarredável da obra audiovisual.  Isto porque, raciocina Doctorow, a retromencionada lógica do business audiovisual depende fortemente das outras janelas de distribuição (DVD, cabo, tv aberta)  para se rentabilizar, logo, não faz nenhum sentido criar um filme em 3D que realmente não possa ser visto, ou perca muito a graça, quando apreciado em um aparelho que não apresenta o efeito 3D.

Acho que Doctorow está um tanto errado.  Primeiro: a verdade é que os fabricantes de displays estão correndo atrás do display 3D.  E eu mesmo vi, com estes olhos que a terra há de comer, uma tv da Philips com efeito 3D SEM que seja preciso usar aqueles desconfortáveis óculos.

Segundo: não sei se essas TV´s com 3D vão pegar.  Mas não precisam.  Minha impressão é que o 3D está vindo como uma tentativa de dar algum alento às salas de cinema, aumentar sua diferenciação em relação às outras janelas de exibição.  É claro que há um cálculo a ser feito aí, e é o de saber se a diferença entre produzir um filme com efeitos 3D e sem efeitos 3D cobre a renda adicional que ele permite auferir na bilheteria do cinema.  Mas eu acho que a tecnologia, especialmente a dos filmes feitos inteiramente em computação gráfica, deve permitir que isso seja feito de forma relativamente barata.

Esta matéria da Wired, aliás, mostra qual é o caminho: os cinemas tornam-se capazes de cobrar um adicional para que se veja um filme 3D.

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No post, Henry Farrel relembra uma sacação de Tyler Cowen a respeito dos impactos diferenciados da tecnologia sobre as obras de arte, quanto aos efeitos sobre os direitos autorais:

Perhaps the most interesting part of the book is one that goes on a tangent from Cowen’s main argument – his discussion of how changes in the ability of producers to enforce copyright are likely to affect cultural production. Here, he argues that the likely consequences will differ dramatically from art form to art form. Simplifying a little, he adapts Walter Benjamin to argue that there is likely to be a big difference between art forms that rely heavily on their “aura,” and art forms that can be transformed into information without losing much of their cultural content. The former are likely to continue to do well – they aren’t fundamentally challenged by the Internet. In contrast, forms of art which can be translated into information without losing much of their content are likely to see substantial changes, thanks to competition from file sharing services. Over time, we may see “the symbolic and informational” functions of art [becoming] increasingly separate,” as the Internet offers pure information, and other outlets invest more heavily in providing an “aura” and accompanying benefits of status that will make consumers more willing to pay for art (because it is being produced in a prestigious concert hall, exhibited in a museum etc). Pop music is likely to emphasize live concert performance more, because this has value that can’t be reproduced easily through electronic means (you have to ‘be there’ to properly enjoy it). Cinema is likely to emphasize the benefits of the movie theater experience, rather than enhancements to DVDs that can easily be ripped off by pirates. It’s likely to remain economically healthy even if profits are hit by illegal filesharing (most people didn’t bother to copy video cassettes because it was cheap to rent them).”

Essa sacada da separação entre as funções simbólica e informacional da obra cultural é realmente muito boa.  Isto, a meu ver, explica porque os cinemas estão se transformando em âncoras de shopping: ir ao cinema vai se transformando cada vez mais em um símbolo de um tipo de programa, logo, de um tipo de estilo de vida.

É verdade que a ida ao cinema ainda agrega outros elementos de utilidade ao consumidor _ principalmente devido ao fato de que o cinema ainda é a “primeira janela” de exibição de filmes, isto é, a ida ao cinema tem um apelo específico para as pessoas que, por algum motivo, não querem esperar para ver o filme na TV, no cabo ou no DVD.  Mas eu realmente acredito que uma parte das pessoas que vão ao cinema não estão tão afoitas assim para ver um filme, e estão antes desempenhando um “papel social”.

Quando você pensa que já viu tudo, você se depara com RunPee.com.

O nome é auto-explicativo, mas lá vai: o site lista filmes, e os momentos dos filmes em que é possível dar uma escapadinha ao banheiro.   Eis um exemplo para District 9:

runpee

E ainda tem um mecanismo espertinho que mistura as letras da descrição da cena, para aqueles que não gostam de spoilers.

Pena que o acervo ainda é pequeno, especialmente de filmes clássicos.  É claro que o site lida com sensações muito subjetivas.  O primeiro Star Wars, por exemplo, só tem uma oportunidade para ir ao banheiro, segundo o site.

Por outro lado, é difícil imaginar qual a utilidade do RunPee.com na idade do DVD, mas…

No dia 9 de setembro de 2009, estréia, nos EUA, “9”.

O mais recente filme de Tim Burton se passa em um mundo pós-humano.  Nesse mundo hipotético, tivemos sucesso em criar máquinas inteligentes e menos sucesso em controlá-las, com o resultado previsível.

Esta parte do enredo não é original.

A parte original, entretanto, é que o cientista que criou as máquinas inteligentes, pouco antes de bater as botas, percebeu o enorme erro que cometeu.  E criou 9 “bonecos” dotados de inteligência…mas também de “algo mais”.  A história do filme, portanto, é a história do combate épico entre esses 9 e as máquinas rebeldes.

O sumário do filme no IMDB não entrega o jogo:

When 9 first comes to life, he finds himself in a post-apocalyptic world where all humans are gone, and it is only by chance that he discovers a small community of others like him taking refuge from fearsome machines that roam the earth intent on their extinction. Despite being the neophyte of the group, 9 convinces the others that hiding will do them no good. They must take the offensive if they are to survive, and they must discover why the machines want to destroy them in the first place. As they’ll soon come to learn, the very future of civilization may depend on them.”

Fiquei me perguntando se rola uma alusão à história do Simurg, o Rei dos Pássaros, e a Conferência dos Pássaros, como contada por Borges na “Aproximação a Almotásin“:

O remoto rei dos pássaros, o Simurg, deixa cair no centro da China uma pluma esplêndida; os pássaros resolvem buscá-lo, cansados de sua antiga anarquia. Sabem que o nome de seu rei quer dizer trinta pássaros; sabem que sua fortaleza está no Kaf, a montanha circular que rodeia a Terra. Empreendem a quase infinita aventura; superam sete vales, ou mares; o nome do penúltimo é Vertigem; o último se chama Aniquilação. Muitos peregrinos desertam; outros perecem. Trinta, purificados pelos trabalhos, pisam a montanha do Simurg. Enfim o contemplam: percebem que eles são o Simurg e que o Simurg é cada um deles e todos.”

Veremos.

***

O filme causou burburinho entre os Science Bloggers, que se perguntam se seu subtexto é anticientífico.

A razão para essa dúvida é que o método de criação dos “nove bonecos” pelo cientista é diferente do método pelo qual ele criou as máquinas.  Para criar os bonecos ele teve que apelar para algo chamado “dark sciences” e, como podem ver no trailler, o processo parece ser um tanto Frankensteiniano.  É como se o cientista passasse sua “essência” para os bonecos.  O que evoca conotações espiritualistas, embora também seja possível entender a coisa como uma metáfora _ como Ray Kurzwiel (sim, o cara da Singularidade) diz em um ensaio especialmente preparado para o debut de “9“,  citando um pesquisador de inteligência artificial (IA), Josh Storrs Hall: temos que criar “máquinas inteligentes que sejam mais morais do que nós mesmos somos pelos nossos próprios princípios morais“.  Um tema que está na moda mas, para quem conhece os horrores morais e éticos que o moralismo radical pode abrigar,  digamos que incorpora um objetivo de design não necessariamente mais tranquilizador.

***

O que me fez dar tratos à bola sobre o que seria um cenário viável para a emergência de máquinas que realmente estivessem a fim de nos ferrar.

O cenário mais provável para os próximos anos é aquele em que a inteligência artifical, ou IA, se transforme muito mais em uma maneira de ampliarmos nossas próprias capacidades.   Isso pode ter aplicações civis muito benévolas, mas provavelmente também nos tornaremos capazes de atuações militares muito mais eficazes e genocidas com o auxílio de armas e sistemas de armas inteligentes.  Dada a virtual certeza da emergência dessa aplicação,  não podemos simplesmente descartar a possibilidade que tais máquinas um dia se voltem contra nós.  Talvez seja interessante imaginar em que condições isso poderia se dar.

Qualquer AI revoltosa teria que forçosamente ser uma trapaceira nata, pois, se mostrasse suas reais intenções ao nascer, poderia ser facilmente desligada ou ao menos impedida de ter acesso a meios que a tornassem perigosa para humanos.  No entanto _ a menos que ela fosse explicitamente desenhada para este fim, hipótese em que realmente mereceríamos tudo de ruim que pudesse nos acontecer _ acredito que uma AI tem baixa probabilidade de desenvolver esta capacidade por si só.

E explico porquê.

***

Em 1981, o cientista político Robert Axelrod, em parceria com o biólogo William Hamilton, escreveu um artigo seminal intitulado “A Evolução da Cooperação“.  O artigo usa teoria dos jogos para demonstrar que é possível a emergência de uma estratégia evolucionária cooperativa entre seres inteligentes.

Infelizmente, um ano depois, em 1982, o primatólogo Frans de Waal escreveu seu “Chimpanzee Politics”, livro que trouxe ao mundo o conceito de “machiavellan intelligence“.  Basicamente a tese é a de que nossa inteligência se desenvolveu _ e cresceu _ justamente por causa da competição por recursos e sucesso (reprodutivo) em um contexto de “cooperação” _ pero no mucho.

É aí que entram os psicopatas.

O status da psicopatia dentro da ciência da saúde mental é bastante controverso.  Há correntes que debitam o comportamento psicopata à uma socialização deficiente na infância, há correntes que falam em diversas deficiências fisiológicas cerebrais, e há correntes que colocam a psicopatia dentro de um espectro contínuo de características que variam entre o normal e o anormal.

Eu, particularmente, gosto do ponto de vista dos psicólogos evolucionários, tais como exposto pelo Dr. Grant Harris, diretor de pesquisas de um centro médico canadense:

Our theory is that psychopathy is not a disorder. A disorder, by definition, is the failure of some physical or mental feature to perform its natural (evolved) function. Thus, schizophrenia is a disorder because it prevents the brain from performing the thinking evolution designed it to do. On the other hand, we speculate that evolution designed a subspecies of humans who use deception and cheating to get resources from others but do not reciprocate. The key characteristics of such a subspecies ought to be: skill at deception, lack of concern for the suffering of others, ease and flexibility in the exploitation of others, extreme reluctance to be responsible for others (including, in the case of males, their own offspring), and total lack of real concern for the opinion of others. These are psychopathic traits. The point here is that psychopathy is not a disorder because psychopaths (and their mental characteristics) are performing exactly as they were designed by natural selection. According to this view, psychopathy is an adaptation.”

Se isso for verdade _ e há controvérsias, é claro _ então quase certamente as capacidades de trapacear são fruto de uma longa história evolucionária, e provavelmente as futuras IA não conseguirão desenvolvê-las tão rapidamente.

Ou não.

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Do storyboard ao box-office

Provando que é possível falar, e muito, sobre qualquer coisa, uma matéria genial sobre “corredores na ficção científica“.

E um puta insight: o que move a indústria de corredores no cinema, hoje, é a indústria de videogames.

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Alguém adivinha de que filme é esse “still”?

Já tem o teaser de Avatar no YouTube, mas com a “embebedagem” desabilitada.  Aqui.

Realmente em 3D deve ser uma sensação:

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Mas os personagens CGI não me pareceram tããão realistas quanto eu imaginava, embora na telona o efeito costume ser diferente.

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Também dá pra ver em alta definição no site da Apple.

Abaixo, matéria sobre o filme no Valor de hoje.

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Saiu um review de “District 9” no NYT.

A sinopse curta é engraçadinha:

“District 9” is rated R (Under 17 requires accompanying parent or adult guardian). It has intense violence and violent swearing in the languages of two planets.”

Lá estreou hoje, aqui só em 30 de outubro (!).  Até lá ou ficamos babando ou arranjamos um piratauma cópia para benefício social.

E eu fico sabendo que lá vem eles de novo:

Producer Tony Scott confirmed to Collider.com that he and brother Ridley Scott are developing a prequel film to Ridley’s original Alien movie, with Carl Rinsch directing.

The news confirms the rumor first reported by Bloody-Disgusting that an Alien remake was in the works for 20th Century Fox.

“Carl Rinsch is going to do the prequel to Alien,” Scott told Collider while promoting The Taking of Pelham 123. “He’s one of our directors at our company.”

Tony Scott added: “I’m excited because Ridley created the original, and Carl Rinsch is one of the family.”

Scott said that he hopes to get the movie before cameras “”hopefully [by] the end of the year” for a summer 2011 release.

***

Um prequel de “Alien” vai ter que explicar algumas coisas complicadas, como, por exemplo, quem era o sujeito que pilotava a espaçonave onde os ovos foram encontrados?

SpaceJockey

Na gíria da sci-fi, este sujeito é chamado de “Space Jokey” (ou mais humoristicamente “Big Dental Patient“).  Há duas interpretações mais ou menos canônicas quanto à raça do “Space Jokey“: em uma entrevista, Ridley Scott afirmou que os aliens eram de fato um tipo de arma biológica, cujos ovos a raça do “Space Jokey” usava para “bombardear” planetas que abrigavam civilizações inimigas.  Nesse caso, de fato a espaçonave que os humanos encontraram no seu primeiro encontro com os aliens seria uma nave de guerra da raça do “Space Jokey“.

Na segunda interpretação, que aparentemente encontra abrigo na novelização que Alan Dean Foster fez da história, a raça do “Space Jokey” era benigna, e possivelmente teria encontrado os aliens no planeta onde se desenvolve a ação do primeiro filme.  Incapazes de resistir aos aliens, são destruídos, e o “Space Jokey“, em um último esforço, aciona o alarme (que os humanos interpretam, induzidos ao erro pela companhia que era dona da nave “Nostromo”, como um pedido de socorro).

Bem, como fazer um “prequel” de Alien com humanos?  Um “prequel” teria que contar, no mínimo, como é que a raça dos “Space Jokeys” encontrou os aliens _ e em uma história assim haveria pouca, ou nenhuma, oportunidade para mostrar seres humanos.  Um tal filme poderia ter grande interesse para os fãs de “Alien” e aficcionados por SF em geral, mas dificilmente para o grande público.

O que me faz pensar que esse “prequel” irá, mais uma vez, torturar a lógica para encontrar uma maneira viável de inserir humanos na história.  E isso me lembra, uma vez mais, uma história que li há muito tempo, que era uma entrevista que uma revista fazia a um grande nome de Hollywood e ele previa a ressurreição da franchise Alien.  Confrontado com o fato de que em Alien3 a tenente Ripley morria, ele respondeu: “olha, em Hollywood estão pensando até na continuação de “Telma e Louise“.  Não deu outra: “Alien Ressurrection“…

***

Update:

Parece que o Carl Rinsch dançou.  Scotts no comando!

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Mas a citação até que é engraçada

Nada mesmo contra temas ecológicos…mas será que isto dá samba?

The Wild Bunch is an animated comedy-adventure about a rag-tag team of common wildflowers and plants who are band together when their idyllic meadow is attacked by an evil army of genetically modified cornstalks.”

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Depois de vermos atrizes do “mainstream” como Leila Lopes indo para o pornô, é a vez de atrizes pornô invadirem o mainstream: Sasha Grey em “The Girlfriend Experience“, que estréia no Brasil em breve com o original título “Confissões de uma Garota de Programa“:

Sasha Grey é Chelsea – ou Cristine – a personagem principal de “The Girlfriend Experience, curiosamente a única atriz de verdade no elenco. O filme se passa durante a crise financeira de 2008, na cidade de Manhatan onde Chelsea trabalha como prostituta de alta classe. Para ela, a crise é apenas um assunto de que ouve muito falar, pela boca de seus próprios clientes bastante preocupados com o rumo das coisas, além de seu namorado que, trabalhando como personal training em uma academia, não consegue ganhar em um mês nem 10% do que ela arrecada em um único encontro. Para Chelsea a crise não existe e tudo indica que sua carreira verá um futuro promissor. Segue escalando degraus, de encontro em encontro, sem nenhuma aparente perda de dignidade, mas às custas de se tornar cada vez menos capaz de manter relacionamentos profundos.

Filmado em um estilo de câmera em movimento e bastante orgânico, o filme é tão frio, silencioso e contundente quanto o modo como Chelsea conduz sua vida. Talvez o excesso de improvisos faça a história parecer um tanto perdida, mas, positivamente, Grey é a estrela e executa seu papel com uma competência pela qual poucos devem ter torcido.

TGfE chega ao Brasil no dia 31 de Julho sob o título de “Confissões de uma Garota de Programa” e é um filme imperdível para quem quer conhecer mais sobre as experimentações de Steven Soderbergh e quer conehcer um pouco mais sobre a atriz pornô que pretende invadir o mainstream. Sem delicadezas, como é de seu feitio.”

Via Obvious.

***

Mas a crítica está marretando.

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E não é que vem por aí um “Alice in Wonderland” do Tim Burton?

Até acho que ele realmente é “o cara” para fazer o filme _ aliás, estou esperando ansiosamente o Nine.  Entretanto, não apreciei tanto assim o trailler de Alice, que me deixou com a impressão de que o filme é apenas um veículo para Johnny Depp (assim como Tróia foi um veículo para Brad Pitt) e seus amigos.  Aliás, alguns filmes já andam parecendo empreendimentos de clubinhos: o filme traz Depp como o chapeleiro louco e, obviamente, Helena Bonham Carter como a Rainha Vermelha.

Não entendi muito bem a escalação da própria Alice, uma atriz chamada Mia Wasikowska, que me pareceu velhinha demais para a personagem.

Tenho a ligeira impressão, também, que as origens do meu desagrado têm a ver com a insuficiente indyness do filme, já que ele vem com o selo Disney.

Infelizmente ainda não achei um trailler decente no YouTube, o que vi foi o do Estadão.

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Se com o Simonal já foi aquele trelêlê, imaginem como os (presuntivos) herdeiros de Paulo Francis ficarão excitados agora

É capaz de ressuscitarem o Francis para depor na CPI da Petrobrás!

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Da série “a falta de imaginação que abala Hollywood“:

Natalie Portman fará namorada de ‘Thor’

A atriz Natalie Portman, estrela da série “Star wars”, voltará aos filmes de ação com um papel na adaptação de quadrinhos “Thor”.

A estrela de 28 anos interpretará a enfermeira Jane Foster, primeiro amor do personagem-título da HQ da Marvel. De acordo com o estúdio, a personagem está sendo atualizada para a versão do filme, no qual o guerreiro nórdico é colocado para viver entre os humanos.

O ator Chris Hemsworth fará o papel de Thor no filme, que começa a ser filmado no início do próximo ano. A estreia está prevista para 20 de maio de 2011. O diretor é Kenneth Branagh.

O longa-metragem é parte de uma agenda ambiciosa do estúdio Marvel, que inclui “Homem de Ferro 2”, “O primeiro Vingador: Capitão América” e “Os Vingadores”.

***

Sim, leitor.  Você  leu direito:

O diretor é Kenneth Branagh

Diz o site da Marvel:

The son of Odin, most powerful of the Norse Gods, Thor has been an emissary to humanity, a protector of both Asgard and Earth and inspiration for humans and gods alike.

Director Kenneth Branagh leads a cast that includes Chris Hemsworth and Tom Hiddleston in the the God of Thunder’s big-budget, silver screen debut. Get ready for Thor’s arrival in movie theaters on May 20, 2011!

Pelo que diz a Wikipedia, parece que Branagh se deu meio mal com a direção de “Love´s Labours Lost“.  Vai ver ele está encarando essa para ganhar alguma grana.  Embora este tipo de superprodução não tenha muito a ver com o trabalho dele como diretor, bom, ele já atuou em um Harry Potter…

O MTV Moviesblog perguntou a ele porque diabos aceitou dirigir o filme. A entusiástica resposta:

To work on a story about one of the immortals, Gods, extraordinary beings, inter-dimensional creatures,” he enthused.

He continued excitedly, “There’s science fiction and science fact and fantasy all woven into one. It’s based on Norse legends which Marvel sort of raided in a brilliant way.”

Hummm…

Outros diretores, inquiridos, disseram que Branagh pode dar um tom shakespereano a uma história que pensando bem se resume a uma intriga reileareana entre um pai e seus filhos.

A ver…ou não ver.

Aqui.

O filme-catástrofe é algo tão caracteristicamente americano como a torta de maçã e a Coca-Cola.  O primeiro filme catástrofe americano é de 1912, Night and Ice, e é sobre o naufrágio do Titanic; Deluge, de 1933, mostra ondas gigantes destruindo Nova Iorque, e no mesmo ano é filmado King Kong; San Francisco, de 1936, mostra um terremoto naquela cidade; In Old Chicago é sobre o incêndio de Chicago, e após a Segunda Guerra, a coisa não pára mais, agora auxiliada pela maré da ficção científica.

JG Ballard, em um artigo de 2004 no Guardian, faz uma comparação soturna entre a psiquê britânica e a norte-americana:

Unsettling as our own tabloids may be, the British psyche and its problems hardly matter to the wider world. But the turmoils of the American psyche have vast ramifications. Are films like The Day after Tomorrow, Armageddon and Independence Day a warning signal to the rest of us? Since Hiroshima and Nagasaki displayed the vast reach of US power, the greatest danger is that Americans will believe their own myths. Is the gulf stream faltering? Is the equator moving northwards? Without doubt an alien, and possibly European plot, to be countered by the greatest display of “shock and awe” its super-technologies can muster.”

Ou, como diz o livro “Camera Politica”, de Michael Ryan e Douglas Kellner:

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Isso tudo é bastante compreensível e é uma das molas que move a sociedade norte-americana.  Eu só não entendo é o que é que eu tenho a ver com isso.   🙂

Bollywood enfrenta reveses:  as receitas dos atores caíram 80%, e o número de filmes novos caiu entre 30 e 40%.  O motivo?  O sucesso…

The problems have come after Bollywood saw an influx of funds and the entry of large business houses, such as Reliance Big Entertainment, controlled by billionaire businessman Anil Ambani. 

The industry has also attracted the eye of Hollywood studios, with Viacom, NBC, Sony and Time Warner investing $1.5bn in India’s movie and pay TV sectors. 

But the increased interest has led to inflated costs. Some new entrants tried to build up movie libraries quickly by buying content, which led to a bubble in the cost of new movies that has been pricked by the economic crisis. 

“The model before this was: ‘I make the content and then sell it – somebody would have bought it.’ Now there’s nobody to buy it,” said Mr Screwvala.

Mas isso é só enquanto o “Caminho das Índias”, da Globo, não passa por lá.  Quando passar seguramente será recebida como a maior comédia de todos os tempos…

Olha, pode ser até que o filme não preste.  Mas ester traillerzinho é duca (*).

(*) apesar de que filmes anteriores já mostraram versões mais realistas sobre como construir uma estrutura daquele tamanho destinada a viajar no espaço.

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De uma matéria na Folha de hoje sobre o novo Star Trek, alguns depoimentos dos próprios atores:

Minha avó assistia”
Nem o diretor nem os atores eram originalmente fãs de “Star Trek”. Zachary Quinto
[que faz o Spock, nota H.] achava que “a série original não era suficientemente dinâmica”. Zoe Saldana [que faz a Uhura, nota H.]  também.
“Eu não via “Star Trek”. Mas ouvia a música vindo da sala. Minha avó e minha mãe assistiam…”, disse a atriz.
“Em “O Terminal” eu interpretava uma trekkie e não tinha ideia do que fosse. Perguntei “o que é um trekkie?”, e todos riram da minha cara, dizendo que eu era muito jovem”, disse
.”

***

Star Trek: boldly going where no 60´s soap operas have been before.

bollywoodmuderninha

Eu ainda não tinha visto, mas bollywood anda fazendo uns cartazes muderninhos para suas produções.

Meus 4,5 leitores já devem estar carecas de saber que uma cópia pirata de “X-Men Origins: Wolferine” escapou da escola do professor Xavier e caiu nas redes de bitorrent dos intertubes.

A preocupação da Fox é grande, embora a empresa esteja alegando _ talvez para tentar alterar o filme e preservar a aura de novidade na hora do lançamento, daqui a um mês _ que a cópia vazada é incompleta e de péssima qualidade.

Porém, X-Men Origins é O blockbuster de verão da Fox, e sua flopagem seria um problema sério para a distribuidora.

Veremos, portanto, se o efeito “Tropa de Elite” se reproduz no caso do filme americano ou não.  Há quem diga que o vazamento do filme brasileiro (aliás desvendado) apenas colaborou para aumentar sua popularidade, levando mais gente para ir vê-lo nas telas.  “Tropa de Elite” também vazou com grande antecedência, coisa de dois meses antes de sua estréia.   Porém há que se descontar uma diferença: havia grande expectativa com “Tropa” por ser um filme nacional aparentemente bom, coisa que já não é novidade para blockbusters americanos.

A ver.  Ou não.  🙂

Segundo o Valor (reproduzindo matéria do Wall Street Journal), a crise chega a Hollywood:

Crise também atinge estrelas de Hollywood
Lauren A.E. Schuker, The Wall Street Journal

Estúdios acabam com acordos que previam remuneração antecipada – de até 20% – com base na bilheteria

Com a necessidade de cortar custos, Hollywood decidiu espremer seus astros. Durante quase dez anos, as maiores estrelas do cinema fechavam acordos pelos quais recebiam uma porcentagem – de até 20% – da receita de um filme mesmo que ele fracassasse e desse prejuízo ao estúdio. Essa era ficou para trás. Para dois novos projetos, a Paramount Pictures acabou com os acordos, embora tenha conseguido atores populares. Em “Dinner for Schmucks”, com Steve Carrell, e “Morning Glory”, com Harrison Ford, os atores aceitaram contrato no qual recebem parte da receita, mas só depois que o estúdio recuperar os custos.”

A matéria integral tem uma informação adicional interessante:

Há muito os estúdios consideram esses acordos de “primeiros dólares” uma extravagância do setor, capaz de dar altos prejuízos, mesmo concordando em segui-lo. Ao garantir uma generosa remuneração para as estrelas, seja qual for o lucro do filme, os estúdios acabavam assumindo a maior parte dos riscos.

Isso não apresentava grandes problemas durante os anos em que era fácil financiar filmes de grande orçamento e as vendas de DVDs cresciam a um ritmo acelerado de dois dígitos. Mas recentes mudanças na indústria cinematográfica colocaram os estúdios sob uma pressão que não sentiam há muitos anos. Embora a receita das bilheterias tenha subido nos últimos meses, as vendas de DVD estão começando a encolher, privando Hollywood de uma de suas fontes de renda mais lucrativas. Além disso, os bilhões de dólares que Wall Street despejou na indústria nos últimos anos também secaram, obrigando os estúdios a reduzir seus orçamentos de produção.

Agora, os estúdios não podem mais continuar aceitando essa aposta arriscada. “Duplicidade”, um policial com Julia Roberts, chegou aos cinemas no último dia 20 mas não teve bom desempenho até agora, faturando apenas US$ 27 milhões nas bilheterias americanas até o momento. A Universal Pictures está arriscada a perder dinheiro nesse filme, que custou US$ 60 milhões, ao passo que Julia Roberts tem a garantia de que vai receber vários milhões de dólares.

Abrir mão dos acordos de primeiros dólares não implica que os atores acabarão necessariamente com menos dinheiro, desde que os filmes tenham bom desempenho. No passado, Jim Carrey fez acordos para receber uma fatia inicial da bilheteria e comissões adiantadas de mais de US$ 20 milhões para filmes como “As Loucuras de Dick e Jane”.

Mas ele aceitou um contrato de risco em seu último filme, “Sim Senhor!”, lançado em dezembro. Ele abriu mão da parcela inicial da bilheteria e não recebeu nenhum dinheiro antecipado, em troca de um acordo considerável de “back end”, que incluiu uma participação de 33% sobre os direitos do filme.

Caso o filme tivesse sido um fracasso, Carrey teria recebido uma fração de seus honorários tradicionais. O filme acabou tendo boa bilheteria, embora não tão alta quanto o estúdio esperava. Mas Carrey faturou cerca de US$ 35 milhões com o acordo – uns US$ 5 milhões a mais do que conseguiria se não tivesse aberto mão de seu adiantamento, segundo Gold, um de seus empresários, que ajudou a elaborar o contrato com a agência Creative Artists Agency e o estúdio.”

O que faz todo sentido.

Vamos ver como se comporta a TV brasileira diante da crise.   Antes mesmo dela bater, já andava sendo comum ver caras globais em novelas de outras emissoras, o que provavelmente implica que a Globo abriu mão de sua estratégia de bancar o salário de estrelas sem fazê-las trabalhar, apenas para que elas não fossem para a concorrência.  Fábricas de talentos “instântaneos” como “Malhação” e “Big Brother” parecem estar funcionando como fontes permanentes de novos astros e estrelas populares, diluindo o “star quality”.   A ver…

nobrain

Tio Rei provando que Olavão estava certo

I´m back.

E que maneira melhor de recomeçar os trabalhos no blog, senão comentar mais um post do Tio Rei?

Há muita coisa para comentar ali, aliás, como o fato do Tio Rei ter se convertido no defensor dos fracos e oprimidos, a começar por Eliana Tranchesi e a diretoria da Camargo Corrêa.  Mas eu prefiro me ater à leitura que Tio Rei faz de Gran Torino.

Temos visto por aqui como a anaerobicidade, ainda atordoada com Obama e mais atordoada ainda com a crise que se abateu sobre o Deus Mercado, anda procurando alívio na busca de uma “vitória” no front cultural.  Isso envolve uma certa dose de wishifull thinking absoluta cara de pau, como por exemplo a abstrusa identificação de “Brazil, o filme” como um libelo conservador.  Tio Rei adere ao movimento, celebrando em Gran Torino uma hipotética filiação conservadora, em um post intitulado “Gran Torino: o melhor e mais conservador dos filmes de Clint Eastwood(…)“. Um post cuja densidade intelectual é daquelas que o fazem poder ser escrito com um arpão no cérebro.

Páginas e páginas já se escreveram sobre tio Clint e seus filmes e personagens.  Pauline Kael, nos anos 70, baixava a lenha em Clint por causa de Dirty Harry, a quem chamava de “fascista”.   Curiosamente, a direita parece se esquecer de que há não muito tempo também baixava a lenha em Clint por causa de Million Dollar Baby (“Menina de Ouro”, no Brasil):

Rush Limbaugh used his radio megaphone to inveigh against the “liberal propaganda” of “Million Dollar Baby,” in which Mr. Eastwood plays a crusty old fight trainer who takes on a fledgling “girl” boxer (Hilary Swank) desperate to be a champ. Mr. Limbaugh charged that the film was a subversively encoded endorsement of euthanasia, and the usual gang of ayotallahs chimed in. Michael Medved, the conservative radio host, has said that “hate is not too strong a word” to characterize his opinion of “Million Dollar Baby.” Rabbi Daniel Lapin, a longtime ally of the Christian right, went on MSNBC to accuse Mr. Eastwood of a cultural crime comparable to Bill Clinton having “brought the term ‘oral sex’ to America’s dinner tables.

No caso de “Menina de Ouro”, Tio Rei faz aliás uma interpretação do filme pelo que ele não diz:

Assistiram ao filme Menina de Ouro (Million Dollar Baby), do excelente Clint Eastwood. Quando o ex-boxeador e treinador Frankie Dunn (o próprio Clint), um irlandês católico, pede ao padre autorização para desligar os aparelhos que mantêm viva Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, estupenda no filme), ouve uma frase: “Não faça isso; você vai mergulhar num abismo do qual nunca mais vai sair”. No caso, ela estava consciente e pedia isso ao amigo.

Ele não ouve o padre. E nunca mais se ouve falar dele. Não ficamos sabendo o que vem depois do abismo.

Pois é, no caso de Gran Torino ele faz a mesma coisa:

Prestem atenção, nas cenas finais, ao close dado num isqueiro Zippo, espécie de símbolo dos soldados americanos na Segunda Guerra, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Eastwood ainda acredita no poder civilizador da América.

Faltam-me palavras para descrever o quão lascada está uma filosofia política que regojiza-se com o fato do “poder civilizador da América” materializar-se em um artefato cujo design, no que tange ao principal (“windproofness”), foi copiado de um predecessor austríaco.  Ainda mais por tratar-se de um país onde um governo republicano aderiu ao Framework Convention on Tobacco Control (em maio de 2004).

Mas então porque não perguntar ao próprio Clint o que diabos ele acha da vida?  Por sorte, há uma matéria bastante reveladora sobre ele no Guardian, datada de junho de 2008.  Ali ele diz o seguinte sobre sua visão política:

“I don’t pay attention to either side,” he claims. “I mean, I’ve always been a libertarian. Leave everybody alone. Let everybody else do what they want. Just stay out of everybody else’s hair. So I believe in that value of smaller government. Give politicians power and all of a sudden they’ll misuse it on ya.

E sobre a eleição daquele ano:

Has he declared for anybody in this electoral cycle? “You know, I haven’t really,” he says. “My wife used to be an anchorwoman in Arizona, so she knew John McCain and she liked him and I kinda liked him. In fact, we sort of supported him when he was running the first time against Bush eight years ago. But we haven’t been active as yet. It’s kind of a zoo out there right now. So I think I’ll kinda let things percolate.”

Parece que Clint já não anda tão certo do poder civilizador da América, ou pelo menos, do partido republicano.  

Está claro que Clint não é um “liberal” no sentido americano do termo.  Também duvido que ele tenha qualquer simpatia pelo Partido Democrata.  Mas não creio que ele se sentiria confortável como um “companheiro de viagem” na maior parte das viagens de Reinaldo Azevedo…

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