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“Acho a ética supervalorizada. Ela é importante, mas ela devia, se me perguntam, andar sempre um passinho atrás da etiqueta, respeitosa, acanhada, moreninha, carregando o equipamento de aquarela da etiqueta enquanto as duas passeiam pelo campo, apressando o passo porque parece que vai chover.”

O Alexandre Soares Silva, que é um anaeróbico diferenciado, está em palpos de aranha desde ontem.

Foi fazer um daqueles seus tradicionais posts “leves”, onde costuma disfarçar proposições ultrajantes com camadas e camadas de witticism, mas topou com um comentarista chato, que opôs à idéia central de seu post _ a de que a etiqueta é mais importante que a ética _ ninguém mais, ninguém menos que o próprio Chesterton:

Mas por outro lado, o Chesterton tem uma certa razão quando diz iso aqui, né?

The tone now commonly taken toward the practice of lying in bed is hypocritical and unhealthy. Of all the marks of modernity that seem to mean a kind of decadence, there is none more menacing and dangerous that the exaltation of very small and secondary matters of conduct at the expense of very great and primary ones, at the expense of eternal ties and tragic human morality. If there is one thing worse that the modern weakening of major morals, it is the modern strengthening of minor morals. Thus it is considered more withering to accuse a man of bad taste than of bad ethics. Cleanliness is not next to godliness nowadays, for cleanliness is made essential and godliness is regarded as an offence. A playwright can attack the institution of marriage so long as he does not misrepresent the manners of society, and I have met Ibsenite pessimist who thought it wrong to take beer but right to take prussic acid. Especially this is so in matters of hygiene; notably such matters as lying in bed. Instead of being regarded, as it ought to be, as a matter of personal convenience and adjustment, it has come to be regarded by many as if it were a part of essential morals to get up early in the morning. It is upon the whole part of practical wisdom; but there is nothing good about it or bad about its opposite.”

E agora?  Romperá ASS (sic) com o guru de 10 entre 10 anaeróbicos da cepa católica, ou engolirá suas próprias palavras?

Como sabem, é dever de todo blogueiro esclarecido fazer de vez em quando uma ronda pelo lado negro da blogoseira.  “Protect teh borders“, é o meu lema.

Foi no cumprimento desse dever patriótico que descobri o seguinte:

Olavo de Carvalho, assumindo-se, realística mas imodestamente como “representante ou mesmo personificação integral e única da “mais rançosa extrema direita nacional”“, vitupera contra os críticos de Bruno Tolentino, poetastro que recentemente levou a breca:

Nota enviada ao site Breviário a respeito de umas opiniões de Alexai Bueno

Olavo de Carvalho

Como representante ou mesmo personificação integral e única da “mais rançosa extrema direita nacional”, quero deixar aqui duas observações sobre o trecho citado.

1) Desde logo, um sujeito capaz de escrever algo como “periódico coloquialismo” deveria abster-se de opinar sobre musicalidade na poesia ou mesmo na prosa. Não foi à toa que o Bruno Tolentino apelidou de Dislexei Bueno o cidadão que agora se imortaliza como inventor do estilo cocô-loquial.

2) Conheci bem o Bruno e sei que, quando havia idiotas presentes, ele gostava de deslumbrá-los com as lendas mais mirabolantes a respeito de si próprio, narradas num tom da maior seriedade. Uns acreditavam; outros, mais bobos ainda, mas imaginando-se espertos, acreditavam que ele acreditasse. Quando saíam, eu e ele ríamos a valer de uns e outros.

Richmond, 10 de julho de 2009

***

Repare com que gosto ele subscreve a nota: “Richmond“.  Ele deve se sentir, sei lá, como um general confederado enviando insultos a Abraham Lincoln, aquele  “prepotente burocrata“.

***

Mas o que interessa é o seguinte: o post lá no Breviário, no blog Beharren, reproduz trechos de um livro do tal Alexei Bueno, na parte que versa sobre Bruno Tolentino.  Ao que parece, Alexei não cultiva lá uma grande opinião sobre o finado poeta:

Após um rumoroso processo pela publicação de um livro inteiramente plagiado, em 1957, Infinito Sul – cujo título era de Sílvio Castro e os poemas de Celina Ferreira, Walmir Ayala, Afonso Félix de Souza e outros – e a publicação de Anulação e outros reparos, em 1963, o poeta carioca Bruno Tolentino (1940-2007) se afastou por três décadas do Brasil, retornando em 1993. A sua volta marcou a entrada na cena literária nacional do maior mitômano nela aparecido pelo menos desde a chegada de Antônio Botto, o poeta português, muito amigo de Fernando Pessoa, que aqui desembarcou nos anos de 1950, casado, apesar dele mesmo se intitular “o primeiro paneleiro oficial de Portugal”, e distribuindo elogios bombásticos sobre a sua obra, assinados pelos maiores autores universais da época, mas todos escritos por ele mesmo. Em pouquíssimo tempo Tolentino declarou em público que fora casado com a filha de Bertrand Russell (que deveria ter idade para ser sua avó), com a neta de Rilke, com a neta de René Char, além de ter sido astrólogo em Los Angeles por doze anos, ter vivido uma década em Alexandria, ter trabalhado como genealogista na Inglaterra, ter sido secretário pessoal de Auden, ter dado aulas por onze anos na Universidade de Oxford, e finalmente, isso um pouco depois, ter sido encarcerado por tráfico de drogas na Ilha do Diabo, para nem falar da sua origem na alta aristocracia, na sua mansão familiar e suas preceptoras inglesas, tendo nascido, na verdade, na mais banal classe média tijucana, filho de militar, e tendo vivido a adolescência num pequeno apartamento do mesmo bairro e em Niterói. Só na terra onde foi escrito “O homem que sabia javanês” tal conjunto de afirmações seria deglutido naturalmente como o foi, inclusive pela grande imprensa. A mitomania em si não desqualifica qualquer artista, mesmo um homem de gênio como o cineasta Mário Peixoto tinha fortes traços mitômanos, e isso tudo serve apenas como um índice da impossibilidade de se conhecer a biografia de um indivíduo que, somados os eventos pública e notoriamente por ele narrados, deveria ter perto de trezentos anos de idade. Após manter uma ruidosa polêmica com os concretistas, justamente num dos melhores aspectos deles, a tradução de poesia, reestreou com As horas de Katharina, em 1994. Com Os sapos de ontem, de 1995, atacando novamente os concretistas paulistas, se revelou um satírico interessante. Os deuses de hoje, do mesmo ano, compunha-se de poemas políticos, justificados por uma falsíssima luta sua contra a ditadura militar – mais um falso exilado – e não alcançou maior repercussão. Seguiram-se A balada do cárcere, em 1996, O mundo como Idéia, de 2002, e A imitação do amanhecer, de 2006, escrito em pretensos alexandrinos que nunca o foram. Toda a poesia de Bruno Tolentino é vazada numa musicalidade característica, dominada por uma espécie de vício do enjambement que chega a criar poemas quase inteiros sem que uma oração termine no final de um verso. Essa espécie de “realejo de enjambements”, monocórdio ao extremo, perpassa por quase tudo o que escreveu, lançando mão de uma técnica bastante defeituosa: versos de pé-quebrado, especialmente pelo uso e abuso de ectlipses, elisões romanas e inúmeras rimas consoantes que não o são. Vez por outra, em meio dessa grafomania versificatória tediosa e obsessiva, espécie de música de feira, surge um grande momento lírico, que não salva o essencial vazio de fundo que domina o conjunto, sem se falar da total inadequação entre um periódico coloquialismo e o tom geralmente elevado do verso. A sua poesia, na verdade, e qualquer leitor médio o percebe, é conduzida pelas rimas e pelo ritmo, e não o contrário, como qualquer poesia digna desse nome. Verdadeiro personagem de romance, com um talento verbal e histriônico espantoso, mas de repertório curto, um dos fatos mais interessantes da sua imponderável biografia é ter voltado para o Brasil dizendo-se exilado da ditadura militar e trazendo mesmo um livro sobre o assunto, após o fracasso do qual terminou seus dias – há quem diga que não morreu, quem garanta que ele está vivo – venerado pela mais rançosa extrema direita nacional.”

***

Pitoresco ao extremo.  Mas o que realmente me chamou a atenção foi o seguinte:

“(…) além de ter sido astrólogo em Los Angeles por doze anos (…)”

Parece que é uma constante, não?

***

De resto, a defesa que faz Olavo é estranha:

“(…)sei que, quando havia idiotas presentes, ele gostava de deslumbrá-los com as lendas mais mirabolantes a respeito de si próprio, narradas num tom da maior seriedade. Uns acreditavam; outros, mais bobos ainda, mas imaginando-se espertos, acreditavam que ele acreditasse. Quando saíam, eu e ele ríamos a valer de uns e outros.”

Escapa-me como ele deixou de perceber o denominador comum, o idiota presente a todas estas ocasiões que ele teve a fortuna de testemunhar…

Bom, eu chego em casa e encontro um comentário do troll “Paulo Silveira”:

“Cara, como vocês são ridículos.”

Veremos que a inversão do ônus da prova se dará em poucos momentos.

“A quantidade de baboseira que vocês ficam escrevendo sobre Reinaldo Azevedo é coisa típica de petralha.”

Eu não disse?

“Assuma: você, ou vocês, são uma cambadinha de vagabundinhos, que ficam mamando em alguma ONG financiada por algum político petralha ?”

Vejam que se trata de um trollzinho terno, que usa e abusa dos diminutivos.  Um trollzinho delicado com fixação na fase oral.  Hummm…

“Vai, fala a verdade?”

Troll, o que este ponto de interrogação faz nessa frase?

“E vocês não tem nomes, telefones, endereços?”

Temos.  Só não os distribuímos, como é usual na blogoseira, inclusive anaeróbica.

“No mínimo, cambada de otários, dormem e acordam fazendo uma oração pro São Che-guevara, pagam pau pro Fidel Castro, e outras tantas babozeiras de esquerdistas do miolo mole.”

Não deixa de ser curioso que esta frase do troll tenha sido a única jamais pronunciada neste blog onde surge a palavra “guevara” (afora representações pictóricas). Já Fidel Castro

“Hahaha.

Vai dormindo neste balanço, otários, que esta governalha, petralha, corrupta, vagabunda, está chegando ao fim.”

Acho que você vai ter uma grande surpresa.

“Nem a cumpanheira Dilma Roussef vai salvar o partidão, que está mais na lama que as botas do Fidel.”

Acho que você vai se surpreender mesmo…

“Hahaha”

Ri melhor que ri por último… 🙂

No Pravda:

Consulta sobre Lei Rouanet recebe mais de mil sugestões

Após 45 dias, terminou nesta quarta-feira (6) a consulta pública para sugerir mudanças na proposta de projeto de lei que institui o Programa de Fomento e Incentivo à Cultura (Profic), que atualiza a Lei n° 8.313, conhecida como Lei Rouanet.

Até o fechamento desta edição, foram cerca de 1,5 mil sugestões, incluindo email e comentários do blog que as pessoas também usaram para participar. As idéias serão sistematizadas e a proposta, alterada. O texto ainda irá ao Congresso Nacional.

“Pela primeira vez, o governo federal debate, com todos os setores artísticos, empresariais, partidários e governamentais, qual deve ser o modelo de fomento à cultura do país”, afirmou o ministro da Cultura, Juca Ferreira.

Literatura e Teatro – Entre as principais contribuições estão o pedido de financiamento direto à produção literária, e não só à cadeia editorial e à universalização da leitura, que está representada na carta da União Brasileira dos Escritores (UBE) e no movimento Literatura Urgente. Também se destaca o pedido de fundo setorial exclusivo para o teatro ou outras formas de fomento à produção teatral.

Ainda estão entre as contribuições a discussão sobre as faixas de renúncia, desde os pedidos para acabar com os 100% de renúncia até os que defendem a manutenção das faixas atuais. Outra discussão foi sobre uso na educação, com mensagens favoráveis e contrárias à cessão de uma obra financiada com dinheiro público para uso educacional.

Entre as mudanças que devem ocorrer no texto, com base em sugestões do período de consulta estão o retorno do artigo que proibia “análise subjetiva”, a revisão da redação do artigo 49, que trata de uso educacional, mas mantendo o mecanismo e a exclusão da referência à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) de 2008, que determina que o mecanismo de renúncia seja revisto em cinco anos.” [grifos meus]

Vai ser uma beleza.  🙂

Soares Silva, mostrando que fleuma é algo bom para os outros,  esqueceu que trocou de portal, botou o nariz vermelho de wunderbocó e resolveu tomar as dores dos Apostos _ com bem menos nonchalance do que o Igor, que foi um dos diretamente envolvidos e escreveu por aqui com grande classe: 

O que eu acho engraçado em posts como este, e nos comentários, é que a falta de familiaridade das pessoas de esquerda com não-esquerdistas os leva a ficarem surpresos, ou pior ainda, acharem “simpático”, que não-esquerdistas se filmem conversando num bar. Eles parecem achar que isso foi algo que os não-esquerdistas fizeram deliberadamente para se mostrarem mais iguais a todo mundo, como alienígenas fariam se tentassem parecer mais humanos. Também a idéia de que todo mundo conversando em bar está, de alguma forma, imitando a Turma do Pasquim, que aparentemente criou a idéia platônica da conversa em volta de uma mesa circa 1966, na Rua Maria Quitéria, depois de um insight alcoólico do Jaguar. Não vejo malevolência nesse tipo de surpresa; é mais uma caipirice, uma falta de experiência social mesmo.”

***

Alexandre,  acho estranho você, logo você, querer roubar assim a bandeira da conversa de botequim dos “seus inimigos”, quando há tempos atrás você escreveu isto:

Eu odeio gente-como-a-gente

Às vezes sinto o impulso de confessar algo vergonhoso, como por exemplo – e é verdade – que gosto de filmes com Julia Roberts e Sandra Bullock – não, que amo esses filmes – e que gostei de As Panteras II – como não gostar de Cameron Diaz dançando e tropeçando? Sério que não sei como -, mas daí sei que corro o risco de parecer gente como a gente, ou pior ainda, de parecer que estou querendo parecer com gente como a gente – como essas pessoas que sempre repetem que estão acima de discussões políticas porque estão mais interessados nos seios da mulher da padaria, ou qualquer outra coisa vulgar assim que essa gente adora. E tenho nojo de gente como a gente. Por favor tentem dar um soquinho na minha barriga – ouviram um som estranho? É que há um rei dentro dela.

E esse rei me pede que não confesse que adoro “O Casamento de Meu Melhor Amigo”, e filmes assim. Okeydokey, não direi, my liege. Volto a pôr o monóculo e leio pessoas falando mal de mim em blogs. Gosto disso, porque é preciso ter inimigos. A sociedade é uma escada na qual se sobe apoiado nas costas sebosas dos seus inimigos.

Mas às vezes confesso que queria inimigos melhorzinhos. Meus inimigos seguem todos a estética do gente-como-a-gente: você só é perdoado enquanto não parar de falar de caracu com ovo, botecos, butecos, cerveja, uísque. Essa aristofobia se caracteriza por uma frase que raras vezes é dita, mas que está sempre atrás de cada parágrafo dos gente-como-a-gente: “Você acha que é melhor do que eu?”

E, bem, sim – acho. Melhor que eles? Any day, anytime, old duderino. Todo mundo pode ser melhor do que qualquer um, se simplesmente abandonar a estética do gente-como-a-gente, vou-de-chinelo-no-boteco, e-aí-esse-Palmeiras-hein. Jogue fora o bermudão, vá a bares ao invés de botecos. Vim ao mundo ensinar a importância de ser metido a besta. Erga o queixo, old top.

Por inimigos melhorzinhos. Polidos na discordância, e que não tenham medo de nomes de autores. Que não tenham medo do mágico mundo fora do boteco, buteco, ou sei lá para onde vocês se arrastam para beber má cerveja. Que não estejam sempre e suspeitamente gritando que odeiam o racismo e que têm sentimentos belos. Que entrem na sua sala e mostrem a cortesia normal de visitantes; que não ponham os pés na mesinha de centro de mamãe; que não arrotem e digam que você é metido a besta porque não arrotou em uníssono. Céus, por inimigos melhorzinhos, sim, sim.

Ora, Alexandre, é raro ver um conjunto tão ilustre de blogueiros tentando ativamente ser assim, gente como a gente, inclusive falando sobre coisas como Gretchen, aos 46 segundos; “sexta sexy” (1:14); “bom plantel” (2:08); “alexandre frota” (4:47); teste da praia (7:21); mulheres que “se pegam” (8:37) _ entre outras vulgaridades.  Tá certo que isso não é bem arrotar, vá lá.  Mas chega perto.

Talvez um dia você consiga me convencer de que seria fácil, fácil juntar C.S. Lewis e G.K. Chesterton em um mesa de bar (sem cerveja! shocking) para falar de Gretchen e Alexandre Frota.  Mas eu acho difícil, e ficaria, verdadeiramente, chocado, assim como fiquei chocado com a coisa assim “gente como a gente” desse vídeo dos Apostos.  

Não posso deixar de pensar nisso mesmo, que o vídeo foi feito para chocar. Sim, sim, prefiro a minha versão;  acho que todos aqueles jovenzinhos (desculpa aí, Antonio Fernando Borges!) falando de um conservadorismo que gosta de mulheres que se pegam , foi só pra isso. A entrevista do Pedro Sette no Apostos. Só pra isso. Só pra fazer a boca desse cara aqui se abrir de espanto.

***

UPDATE:

Lá nos comentários do post, Alexandre diz o seguinte:

Isso demonstra uma tal falta de conhecimento pessoal de gente de direita/conservadores/católicos/libertários que é, bom, engraçado. Todas as vezes que me encontrei com conservadores/católicos etc foi em bares. Ou, OK, 80% das vezes pelo menos. Até gente da Opus Dei – eles bebem e falam de mulher. Well dã.” [grifo meu]

AHAHAHAHAHAHAHAHAH

Shocking!

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Preconceituosa mas nem tanto

Via Idelber, via Rafael Galvão, descubro este texto da Cora Ronái onde desponta este parágrafo:

Por ser um país desenvolvido cercado de vizinhos em diferentes estágios de “civilização”, Israel paga, guardadas as devidas proporções, o preço que a classe média paga, no Brasil, em relação à criminalidade nas comunidades carentes: para uma certa visão míope, é sempre a culpada, porque, em tese, nessa forma enviesada de análise, os bandidos são sempre inocentes – são apenas pobres reagindo à desigualdade social (o que, claro está, é uma baita ofensa à imensa maioria dos pobres, que sofrem na miséria sem nunca pensar em delinqüir). Enquanto isso, os verdadeiros culpados pelas desigualdades, lá como cá, não são mencionados nem en passant – e, ainda que o fossem, continuariam onde sempre estiveram, ou seja, nem aí.

Francamente, é a primeira vez que vejo uma anta que admira capivaras.

maovisivel

Uma reunião do COPOM (lírica)

O trombadinha lá da Mão Visível ainda não escreveu nenhum post este ano pedindo aumento dos juros.

Não é incrível?

(se bem que ele já apareceu na Globo fazendo exatamente isto, mas a Míriam Leitão fez que não viu a mão boba)

Já há algum tempo eu estava me devendo uma olhada na tal da Dicta&Contradicta, que anda sendo celebrada por aí _ e nesse por aí, leia-se os redutos anaeróbicos da blogoseira _ como a grande novidade da internet. O que é estranho, pois até mesmo a versão online da dita cuja cheira a igreja velha.

Pois entre entrevistas com João Pereira Coutinho e elocubrações desmioladas sobre o papel do Advento, os sujeitos me saem com esta:

2009 pode ser o ano da crise, do advento de Obama, do pouco dinheiro no meu bolso, mas você sabe que há esperança quando Thomas Pynchon volta com um romance noir de “meras” quatrocentas páginas.

Porque, afinal, em um mundo de ateus, só um paranóico acredita em Deus.

***

Se esses caras acreditam realmente que vivem em um “mundo de ateus“, tremo ao pensar o que seria o ideal de sociedade equilibrada que eles gostariam de ver instalada nesse nosso vale de lágrimas.  Cruz credo…

Como vocês já devem estar sabendo, o pau andou comendo entre Pedro Dória e ninguém menos que o Vilósofo da Virgínia, Olavo de Carvalho.

Eu gosto muito do Pedro Dória, mesmo quando ele diz coisas como “a trama se  adensa” em lugar de “the plot thickens”.  E acho que não preciso repetir minha opinião, er, perene, sobre Olavo de Carvalho.    Por isso sequer vou esboçar um post a respeito desta briga.

Mas um cara chamado Paulo (sempre os Paulos…) comentou lá em um dos posts do Dória, querendo provar a grande importância de Olavo na cultura brasileira. E fê-lo citando os nomes de pessoas ou grupos que de uma forma ou outra teriam recebido a bemfazeja influência de Olavo.  São eles, segundo o tal Paulo:

1 O pessoal da Dicta & Contradicta, já colocado.
2 Em boa parte aqueles ligados ao ordemlivre.org
3 O próprio caso do Mídia Sem Máscara, coordenado por Paulo Diniz Zamboni.
4 Oindivíduo. Especialmente Pedro Sette Câmara.
5 Praticamente todas as pessoas dedicadas a educação liberal que existem no Brasil hoje, podemos citar a dupla Aristoi.com e EspaçoHumanitas.
6 O trabalho que se desenvolve em torno do seu filho, Luiz Gonzaga de Carvalho Neto. (Provavelmente não há no Brasil ninguém que saiba metade do que ele sabe de religiões comparadas e história das religiões.)
7 Inegável influência entre o movimento pereanislista inteiro (apesar de pequeno) que há no país hoje.
8 O pessoal do VigilânciaDemocrática de Campinas, que tem feito ótimo trabalho.
9 O grupo AcarajéConservador da Bahia.
10 Em Recife, o CaféColombo, fora intelectuais que se reuniam constantemente em torno de sua obra.
11 O Veritatis Splendor.
12 De Olho na Mídia, por exemplo, é influenciado.
13 Movimento Viva Brasil. E sim, a derrota no referendo do desarmamento não foi só por conta de Chico Santa Rita, não. Os movimentos que já viam de antes foram fundamentais para formar massa crítica, e Olavo totalmente ligado a eles.
14 Pessoal do Grupo Inconfidência de Minas.
15 EscolaSemPartido, muito influenciado também.
16 Movimento Pró-Vida, várias pessoas ligadas.
17 O ativista Júlio Severo e cia.
18 Movimento Fora Lula e Grande Vaia (especialmente os líderes).

Ele elencou essa lista como prova do alcance e da influência do pensamento do Olavo.  Eu, difererentemente,  acho que quer se leia a lista de baixo pra cima, quer se leia de cima pra baixo, ela é totalmente irrelevante no contexto da cultura brasileira e portanto uma contraprova, mas estou aberto a ouvir quem queira nos demonstrar o contrário.

O Paulo do FYI, que está convencido de que eu sofro de um irrefreável complexo de inferioridade, parece decidido a demonstrar sua tese linkando para cá uma vez por semana:

Não leio muito o Reinaldo Azevedo (principalmente porque depois de 11 anos fora os detalhes da política brasileira são insuportáveis), mas esse texto dele está muito bom:

De oprimidos e opressores

I wonder what his biggest fan will have to say about this.

***

Interessante que o Paulo, que no próprio post admite estar fora do Brasil há 11 anos e não se interessar pela política brasileira, prefere tomar partido em um discurso de Reinaldo Azevedo sem demonstrar conhecer absolutamente nada sobre a política fundiária brasileira. Nem da do seu novo país de adoção, ao que parece. Prova. Prova.

Mas se quer mesmo saber o que eu acho, eu digo em uma palavra: “asneiras”. Satisfeito?

No Ação Humana, um trecho de um post de Guilherme Roesler:

O auge do burocratismo, do estatismo e da planificação nos mais diversos setores da sociedade foi o século XX, e não por coincidência, o século cujas liberdades e garantias individuais foram mais restringidas, quando não descaradamente violadas pelos Estados soberanos, divinos e inatacáveis.

Vamos ajudar o rapaz e colocar aí exemplos de outros séculos com liberdades e garantias individuais mais florescentes do que o maldito Século XX, vamo.  Que tal…que tal…que tal, assim, qualquer ano entre  0 e 1899?

***

Mas bacana mesmo é a ameaça no final:

Esse trecho faz parte de minha monografia de conclusão de curso, intitulada Desestatização da Moeda: Aspectos Jurídicos e Econômicos (438 p.).

Lá no blog da Ordem Unida Livre, o Diogo Costa tem um post comentando o artigo de Gustavo Ioshpe na Veja sobre preservação ambiental. Não causa surpresa que ele diga o seguinte:

(…) não (…) existe um jogo de soma zero entre economia e ecologia. Ioschpe dá a entender que, se regulamentações ambientais prejudicam o desenvolvimento econômico, logo, defender o desenvolvimento econômico significa sacrificar o meio-ambiente: “Enquanto uma massa de brasileiros vive em condições sub-humanas, sinto-me moralmente impedido de defender a preservação do mico-leão dourado”. Esse dilema só faz sentido se pensarmos exclusivamente nos gastos públicos. Quando as pessoas possuem propriedade dos recursos naturais, em vez da mera licença para a captura ou exploração, há incentivos para a preservação desses mesmos recursos. Um incentivo de força similar ao que há para a destruição irresponsável que vemos na ausência de propriedade privada, quando um animal não capturado ou uma árvore não derrubada é um recurso perdido (às vezes para a competição). Ao fugirmos da mentalidade estatista binária de licença e proibição, percebemos que, porque a fauna e flora são valorizadas pela sociedade, a instituição que promove o crescimento econômico é a mesma que pode garantir uma utilização responsável do meio-ambiente: a propriedade privada. Não há dilema. É a preservação eficiente.

Eu realmente não canso de me admirar de o quanto certas pessoas conseguem desenvolver raciocínios aparentemente lógicos demonstrando soluções que já foram tão completamente desmentidas pela realidade.  Mas eu gostei do comentário do Fernando Sampaio lá no post:

Vide a política alemã de preservação dos recursos hídricos, (adotada voluntariamente pela Bayer no Brasil) de eliminar diversas proibições de despejo de resíduos químicos para estabelecer penas (sic) uma: a empresa deve depejar (sic) os resíduos à montante do rio. Portanto, a qualidade da água a ser usada no processo produtivo (e os custos para trata-la) vão  depender fundamentalmente da disposição da empresa em empregar métodos menos agressivos.

Eu não conhecia a política alemã, mas não posso deixar de notar que aparentemente ela é determinada pelo Estado (tanto é que ele diz que ela é adotada voluntariamente pela Bayer no Brasil).  Não sei se o comentarista percebe, mas o comentário dele é justamente a contraprova da tese do post: primeiro, porque afinal a política é estatal; segundo, porque seu objetivo é justamente a de fazer com que o poluidor internalize os custos dos seus atos _ o que não é sempre possivel e é justamente a raiz do problema das externalidades negativas.

No blog do Ordem Livre, Lucas Mafaldo esbraveja contra “o controle dos currículos escolares pelo governo”, e arrola 3 grandes problemas desse sistema.  Comento cada ponto, em preto:

Em primeiro lugar, dar ao governo a autoridade para escolher o currículo de todo o país implica em uma uniformização enorme de todo o ensino. Isto implica no fim da competição entre currículos: uma escola fica proibida de tentar elaborar um currículo inovador para adquirir uma vantagem sobre a concorrência.”

Er…não sei se isso é um mero argumento à la “straw man” ou pura ignorância.  Bem, qualquer estudioso de educação sabe que a Lei de Diretrizes e Bases promulgada em 1996 acabou com a própria organização do ensino em termos de “currículos mínimos”, colocando em seu lugar as “diretrizes curriculares”, visando, justamente, dar maior flexibilidade aos estabelecimentos de ensino.  Embora a LDB estabeleça alguns conteúdos obrigatórios, há hoje grande liberdade na conformação dos currículos, e as escolas privadas podem se diferenciar o quanto quiserem.  É preciso lembrar, também, que a existência de diretrizes não visa “uniformizar todo o ensino” mas apenas assegurar um padrão mínimo para que o ensino não se fragmente totalmente, principalmente em um país como o nosso, de dimensões continentais.

“Em segundo lugar, isso significa que toda futura mudança curricular precisará passar pelo processo político. Ao invés de o professor ir progressivamente afinando seus métodos, ele precisará formar um comitê político e tentar pressionar o congresso para aprovar cada nova reforma.”

Essa afirmação, absurdamente errada, provavelmente decorre da aceitação pacífica da anterior, que é a fonte de todos os erros absurdos do post.

“Em terceiro lugar, nunca teremos certeza de que os interesses dos políticos sempre coincidirão com os nossos. Na medida em que a educação dos nossos filhos passa a ser decidida pelo governo, isso significa que estamos efetivamente abrimos mão de nossa autoridade sobre eles. O atual governo talvez concorde com nossos ideais. O próximo talvez trabalhe diretamente contra eles.

Embora eu tenha mostrado que a coisa não é bem assim (e aí estão as escolas confessionais, montessorianas, etc, que não me deixam mentir), me ocorre que o Mafaldo pode estar incomodado com a mera padronização básica do ensino.  Nesse caso, gostaria que ele pensasse melhor sobre como funcionaria essa pretensa competição que ele pretende instalar, liberando totalmente o ensino de qualquer compromisso com currículos mínimos.  Imagine-se, leitor, como um paciente de um hospital que possui médicos provenientes de diferentes Universidades, todas elas com currículos “originais”, “competindo” por alunos…agora imagine um desses alunos descobrindo, repentinamente, que fez a escolha errada de Universidade por notar que o currículo de medicina adotado em sua alma mater não contempla determinada manobra que poderia salvar o paciente (você).  É claro que algumas pessoas ficariam até felizes por poderem, com seu sacrifício, colaborar para uma melhoria na concorrência entre escolas.  Mas nem todas.

Nariz Gelado tem um post instando ao DEM que, diante da provável impossibilidade do partido consumar a aliança com o PSDB para a eleição do prefeito de São Paulo em torno do nome de Gilberto Kassab, não vá consumir seu “capital político” aliando-se a partidos de mais baixa extração:

Porque, se é verdade que o DEM se renovou neste último ano, o PSDB só fez piorar.(…)

Para o recém-reformado DEM, no entanto, a coisa é diferente. Se, por um lado, apresentar uma candidatura própria pode colaborar para a boa imagem do partido, por outro, unir-se a gente de imagem duvidosa para ganhar esta eleição pode ser fatal. Basta uma aliança errada, um passo em falso, para que o partido perca todo o bom trabalho realizado neste último ano. Os programas de rádio e televisão, o esforço para lançar a imagem de um partido realmente oposicionista, coeso e firme no combate à corrupção – e à derrama promovida pelo governo Lula – pode simplesmente se perder.

Interessante esse discurso.  Aparentemente, o partido de herdeiros políticos como o filho de César Maia, o filho de Jorge Bornhausen e o neto de Antonio Carlos Magalhães, por algum motivo milagroso, deixou de ser o PFL fisiológico que sempre foi, como se pode ver nesta notícia de dez anos atrás:

FH vai criar mais dois ministérios

Cátia Seabra e Cristiane Jungblut
BRASÍLIA
Disposto a anunciar seu Ministério até quarta-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso já tem duas escolhas confirmadas: Euclides Scalco para a Secretaria de Governo e Élcio Álvares (PFL-ES) para a Defesa. Mas, ainda com dificuldades para acomodar a base, o presidente pretende criar dois novos ministérios. O de Desenvolvimento Urbano – dedicado a habitação e saneamento – que seria destinado ao PFL, e o de Turismo e Esportes, que ficaria como o PSDB. O primeiro compensaria o PFL pela decisão de entregar aos tucanos o superministério do Desenvolvimento, para o qual Fernando Henrique insiste na escolha de Luiz Carlos ou de José Roberto Mendonça de Barros. (…)

O Desenvolvimento Urbano seria montado sob medida para Rafael Grecca (PFL), indicado pelo governador do Paraná, Jaime Lerner, para o Ministério. O nome de Grecca foi apresentado sábado pelo presidente do PFL, Jorge Bornhausen (SC), que reivindica uma vaga para o PFL do Sul. (…)

Para a Defesa, a escolha de Élcio é tida como demonstração de gratidão por seu trabalho como líder do Governo no Senado. Mas a escolha recebeu o aval de caciques do PFL, como o senador Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Apesar de Élcio ter perdido a eleição para senador no Espírito Santo para o tucano Paulo Hartung, Fernando Henrique disse a amigos que abriria uma exceção à regra de não nomear derrotados para o primeiro escalão. (…) No PFL, estão acertadas a permanência de Waldeck Ornelas na Previdência e a ida de José Jorge (PE) para Ciência e Tecnologia, além de Sarney Filho para o Meio Ambiente. O nome de Grecca, porém, sofre resistência no PFL baiano. Foi por isso que o presidente acabou fazendo o que não queria: ampliou o número de novos ministérios.”

E, para quem acha que esse comportamento está perdido no longínquo passado pefelista, é bom botar as barbas e os narizes de molho:

PFL quer cargos no governo e diz estar pronto para o diálogo com Maggi

Data: 04/10/2006

Local: Cuiabá – MT

Com o respaldo de ter feito um senador e cinco deputados estaduais, o PFL vai exigir uma maior participação no segundo governo de Blairo Maggi (PPS).  É o que ficou definido na reunião da manhã desta quinta-feira, no diretório estadual do partido, que confirmou também apoio a Geraldo Alckmin (PSDB) à presidência da República no segundo turno das eleições marcadas para o dia 29.

Na reunião que contou com o caciques do partido e os deputados eleitos que tomam posse em primeiro de janeiro, um assunto foi bastante abordado: a força que o partido terá a partir de agora nas negociações com o governador Blairo Maggi para a composição de seu segundo mandato.

O presidente estadual do partido, Oscar Ribeiro, não escondeu que o PFL vai exigir uma participação especial, de acordo com o rendimento que teve nas urnas e com a importância que teve em ajudar a coligação Mato Grosso Unido e Justo em fazer a maioria na Assembléia Legislativa.  “Não há dúvidas de que iremos mostrar a nossa força e exigir uma participação maior no governo.  Fomos importantes dentro do projeto do governador.  Portanto, merecemos respeito”, disse.  Oscar Ribeiro esclareceu ainda que está aguardando apenas o chamamento do governador Blairo Maggi para iniciar as conversações sobre a formação do secretariado para o segundo mandado.  Mas ressaltou que querem ser respeitados nesta negociação.

Gente como Nariz Gelado parece apostar na célebre memória curta do brasileiro.  Felizmente, a internet alarga um pouco o buffer…

popgay2008.jpg

A comparação é desabonadora… 

A Nariz Gelado espantou-se com uma reportagem mostrando que Lurian, a filha de Lula, foi convidada para ser jurada do concurso Pop Gay, em Florianópolis, e aceitou:

Que coisa mais esquisita. Eu pensei ter lido que a divulgação das depesas do cartão corporativo colocava em risco a segurança de Lurian. Pelo visto, ela não pensa assim.

Pelo visto a Nariz Gelado acha que  o Iraque deve ser um lugar mais seguro do que um concurso de travestis catarinas.  Vá saber.

Comercial da Canon com Maria Sharapova, 2007

***

Just to make a point.

Comercial da Wendy’s , anos 80

Primeiro, deixa eu botar aqui uma listinha:

* Bloch, Alexia. “Victims of Trafficking Or Entrepreneurial Women? Narratives of Post-Soviet Entertainers in Turkey .” Canadian Woman Studies 22.3-4 (2003): 152-7
* Buckley, Mary. “Trafficking in People: Evil Trade.” The World Today 60.8-9 (2004): 30-2
* Corrin, Chris. “Traffic in Women in War and Peace: Mapping Experiences in Southeast Europe .” Journal of Contemporary European Studies 12.2 (2004) 177-92
* Dekic, Slobodanka. “‘Sex, Slavery and Politics’: Representations of Trafficked Women in the Serbian Media.” Canadian Woman Studies: 192
* Enck, Jennifer L. ” The United Nations Convention Against Transnational Organized Crime: Is it all that it is Cracked Up to be? Problems Posed by the Russian Mafia in the Trafficking of Humans.” Syracuse Journal of International Law and Commerce 30.2 (2003): 369-94
* Finckenauer, James O. “Russian Transnational Organized Crime and Human Trafficking.” Global Human Smuggling: Comparative Perspectives. Ed. David Kyle and Rey Koslowski.Baltimore, MD: Johns Hopkins U Press, 2001. 166-186
* Glonti, Georgi. “Trafficking in Human Beings in Georgia and the CIS.” Demokratizatsiya: The Journal of Post-Soviet Democratization 9.3 (2001) 382-98
* Goodey, Jo. “Migration, Crime and Victimhood.” Punishment & Society 5.4 (2003): 415-31
* Goodey, Jo. “Sex Trafficking in Women from Central and East European Countries: Promoting a ‘Victim-Centred’ and ‘Woman-Centred’ Approach to Criminal Justice Intervention.” Feminist Review 76 (2004): 26-45
* Granville, Johanna. “From Russia without Love: The ‘Fourth Wave’ of Global Human Trafficking.” Demokratizatsiia 12.Winter (2004): 147-9
* Granville, Johanna. “Migrant Trafficking and Human Smuggling in Europe : A Review of the Evidence with Case Studies from Hungary , Poland , and Ukraine .” Demokratizatsiya: The Journal of Post-Soviet Democratization 12.1 (2004): 147-55
* Grabbe, Heather. “The Sharp Edges of Europe : Extending Schengen Eastwards.” International Affairs 76.3 (2000): 519-36
* Haynes, Dina Francesca. “Used, Abused, Arrested and Deported: Extending Immigration Benefits to Protect the Victims of Trafficking and to Secure the Prosecution of Traffickers.” Human Rights Quarterly 26.2 (2004):221-72
* Hughes, Donna M. “The ‘Natasha’ Trade: The Transnational Shadow Market of Trafficking in Women.” Journal of International Affairs 53.2 (2000): 625-51
* Hughes, Donna M. “The Role of ‘Marriage Agencies’ in the Sexual Exploitation and Trafficking of Women from the Former Soviet Union .” International Review of Victimology 11.1 (2004): 49-71
* Korolkov, Igor. “Brothels-in-Law ?: Prospects for Leagalising Prostitution in Russia Discussed.” Moscow News, Aug. 14, 2002,sec. 2: 2
* Lindstrom, Nicole. “Regional Sex Trafficking in the Balkans: Transnational Networks in an Enlarged Europe .” Problems of Post-Communism 51.3 (2004): 45-52
* Long, Lynellyn D. “Trafficking in Women and Children as a Security Challenge in Southeast Europe .” Journal of Southeast European and Black Sea Studies 2.2 (2002): 53-68
* Mameli, Peter A. “Stopping the Illegal Trafficking of Human Beings: How Transnational Police Work can Stem the Flow of Forced Prostitution.” Crime, Law and Social Change 38.1 (2002): 67-80
* Merkulova, Natal’ya Borisovna. “Child Labor.” Sotsiologicheskie Issledovaniya 24.5 (1997): 76-84
* Mosneaga, Valeriu, and Tatiana Echim. “Counteraction Towards the Trafficking of “Human Beings”: The Experience of the Republic of Moldova .” Migracijske i etnicke teme 19.2-3 (2003): 223-38
* Orlova, Alexandra V. “From Social Dislocation to Human Trafficking: The Russian Case.” Problems of Post-Communism 51.6 (2004): 14-22
* Pope, Victoria. “Trafficking in Women (Russian Sex Slaves).” U.S. News & World Report Apr. 7, 1997: 38-4. (Gale Expanded Academic ASAP)
* Pratt, Andrew Nichols. “Human Trafficking: The Nadir of an Unholy Trinity.” European Security 13.1-2 (2004): 55-71
* Shelley Louise,I. “The Changing Position of Women: Trafficking, Crime, and Corruption.” The Legacy of State Socialism and the Future of Transformation, Lane, David [Ed], Lanham, MD: Rowman & Littlefield, 2002, pp 207-222, 2002
* Shelley, Louise. “The Trade in People in and from the Former Soviet Union.” Crime, Law and Social Change 40.2-3 (2003): 231-49
* Specter, Michael. “Traffickers’ New Cargo: Naive Slavic Women (Organized Crime Trafficking in Russian and Ukrainian Women Forced into Sexual Bondage).” The New York Times Jan. 11, 1998:49
* Stoecker, Sally. “The Rise in Human Trafficking and the Role of Organized Crime.” Demokratizatsiya: The Journal of Post-Soviet Democratization 8.1 (2000): 129-44
* Stone, A. “How the Sex Trade Becomes a Slave Trade: The Trafficking of Women to Israel .” Middle East Report 29.2 (1999): 36-8
* Truong, Thanh-Dam. “Gender, Exploitative Migration, and the Sex Industry: A European Perspective.” Gender, Technology and Development 7.1 (2003)
* Vandenberg, Martina. “‘Invisible’ Women show in Russia ‘s Demographics.” Surviving Together: A Quarterly on Grassroots Cooperation in Eurasia 15.4 (1997): 46-7
* Vocks, Judith, and Jan Nijboer. “The Promised Land: A Study of Trafficking in Women from Central and Eastern Europe to the Netherlands .” European Journal on Criminal Policy and Research 8.3 (2000): 379-88
* von Struensee, Vanessa. “Sex Trafficking: A Plea for Action.” European Law Journal 6.4 (2000): 379-407
* Wilson, Tamar Diana. “Trafficking and Prostitution: The Growing Exploitation of Migrant Women from Central and Eastern Europe .” International Migration Review 31.2(118) (1997): 490-1

O leitor mais arguto terá percebido que um tema em comum embala todas as referências acima: elas falam sobre o tráfico de mulheres da Europa Central, principalmente da Rússia e das ex-repúblicas soviéticas, as “natashas“, que vão ser prostitutas na Europa Ocidental, no Japão, em Israel e no Oriente Médio, principalmente.

Tudo isso é para demonstrar que não é por falta de aviso ou bibliografia que um sujeito escreve algo assim:

As belas frivolidades das sociedades abertas

Em artigo no Washington Post, Anne Applebaum fala sobre um fascinante aparecimento das beldades do leste europeu a partir de meados dos anos noventa. Com a queda do bloco soviético, a Europa e o mundo descobriram mulheres lindas, até então escondidas pela feiúra totalitária ao seu redor. Não que a democratização tenha retroativamente transformado a estrutura genética das jovens eslavas; mas sim, como diz Applebaum:

Na União Soviética não havia mercado para a beleza feminina. As revistas de moda não exibiam mulheres bonitas, porque não havia revistas de moda. Nenhuma série de televisão dependia de mulheres bonitas para aumentar sua audiência, porque não se media a audiência…

Havia estrelas de cinema, é claro, mas algumas das mais famosas – penso em Lyubov Orlova, considerada a atriz favorita de Stalin – eram vigorosas e joviais, mas não chegavam a ser sensuais e deslumbrantes.

O dirigismo econômico socialista não incentiva a beleza feminina, nem oferece os meios para que essa beleza se manifeste. Nos anos setenta, uma linda jovem bielorrussa não podia se vestir em grande estilo para encantar os salões de Londres. Teria que se contentar em usar roupas de poliéster vagabundo nas esquinas de Minsk.

Os oponentes da sociedade aberta provavelmente dirão que isso mostra como o livre mercado promove valores supérfluos. Mas é óbvio que não estamos falando de um valor exclusivo das sociedades capitalistas. A beleza feminina era valorizada também na União Soviética. A diferença nos países comunistas é que as atividades que recompensam a beleza costumam ser consideradas menos dignas do que aparecer na capa da Vogue.

Outros dirão que esse assunto é uma frivolidade. Anne Applebaum diz que esse assunto é uma frivolidade. Já eu preferia vê-la defender despurodamente a possibilidade de as mulheres escolherem sua aparência e o rumo de suas vidas. Como explicava Ortega y Gasset em Meditações sobre a técnica, a humanidade também se distingue do resto dos animais porque, para nós, o supérfluo se faz necessário. Como as dietas de emagrecimento comprovam, muitas pessoas sacrificam a alimentação pela estética e preferem sentir fome a se sentirem feias.

Mas, mesmo para quem não vê um bem no embelezamento feminino, Applebaum termina dizendo que sua explicação também serve para entendermos outras transformações sociais cujos benefícios são menos disputáveis:

O mesmo mecanismo que trouxe [a loira siberiana] para seu jantar um dia poderá trazer o médico ucraniano que cura o seu câncer ou o corretor polonês que o enriquece.”

Trata-se de um post de Diogo G. R. Costa, um dos fundadores do site Ordem Livre junto com Pedro Sette Câmara. Para quem não sabe o que é o Ordem Livre:

OrdemLivre.org é uma organização não-governamental sem qualquer vínculo partidário. Fundada sobre os princípios de liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado, OrdemLivre.org promove uma ordem econômica eficiente e uma filosofia política moral e inspiradora por meio de publicações e eventos.

OrdemLivre.org faz parte do Centro de Promoções de Direitos Humanos do Cato Institute. Como organização independente, o Cato Institute não aceita financiamento estatal. Todo o nosso suporte vem de contribuições voluntárias e da venda de publicações.

É claro que eu sei que para alguns parecerá chocante e injusto que eu esteja equacionando os excelsos valores da liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado ao tráfico de mulheres e à prostituição (forçada pela violência física ou econômica). Confesso, porém, que me parece bem mais chocante ler um texto tão blindado pela ideologia que seu autor sequer consegue vislumbrar quais são os mecanismos responsáveis pela “Europa e o mundo descobrir(em) mulheres lindas” da Europa Oriental.

Até porque a própria Anne Applebaum deixa mais ou menos claro o que ela quer dizer sobre a “loura siberiana em seu jantar”, já que o texto dela no Washington Post começa assim:

There was a particular historical moment, round about 1995 or so, when anyone entering a well-appointed drawing room, dining room or restaurant in London was sure to encounter a beautiful Russian woman. Though the word “beautiful” doesn’t really capture the phenomenon: The women I’m remembering were extraordinarily, unbelievably stunning.

These women were half-Kazakh or half-Tatar with Mongolian ancestors and perfect skin, dressed in the most tasteful, most expensive clothes, shod in soft leather boots and perfectly coiffed. They were usually accompanied by older men, sometimes much older, to whom they were perhaps married, more likely not. They spoke in low, alluringly accented voices and towered over the lesser mortals in the room. I distinctly remember gazing upon one such creature while in the company of a friend, an old Russia hand who’d spent much of the previous decade in the Soviet Union. He stared, shook his head and whispered: “But where were they all before?“”

O que não deixa de ser civilizado por parte da Anne.  Eu me lembro que nos anos 90 costumava frequentar alguns restaurantes no trecho que vai de Copacabana ao Leme, e frequentemente testemunhava o dissabor das madames brasileiras comentando sobre “como é que esse homão tem coragem de sair com essa negrinha” ao verem turistas sexuais que eram arianos legítimos adentrarem no recinto com prostitutas que pegaram no calçadão …as russas pelo menos têm essa vantagem.

***

A queda do Muro representou a chegada de muitas liberdades para os povos da Cortina de Ferro.  Infelizmente, embora a idéia da “Sociedade Aberta” tão prezada pelo Diogo ainda não tenha conseguido se impor naquelas bandas, a liberdade de abrir as pernas, por exemplo, está ao alcance de qualquer russa ou beldade centro-oriental suficientemente disposta.  A indústria do sexo instalou-se firmemente, graças à mão de obra barata e de boa qualidade.

A Hungria, por exemplo, começou a experimentar com pornografia no início dos anos 90 e é hoje um dos paraísos da indústria pornográfica (pelo menos é o que se pode deduzir dessa frase em um artigo na Forbes: “the hungarians are the brazilians of Europe“…).  Mas o vídeo não é de fato a maior indústria sexual da região.  Em 2000, um relatório estimava que pelo menos 500.000 mulheres ucranianas haviam sido traficadas para o Ocidente entre 1991 e 1998.

Diz a Europol, acerca do tráfico de mulheres na Europa:

The main source countries for women trafficked for sex are Moldova, the Ukraine, the Russian Federation and Albania. Before entry to the EU, Bulgaria and Romania were also major source countries. It is as yet unclear whether EU membership has resulted in a decrease in the number of Bulgarian and Romanian victims. History shows this is unlikely. When Lithuania joined the EU in 2004, the number of girls taken out of Lithuania and transported to the rest of Europe to work in the sex industry increased markedly.The destination country for a trafficked woman is determined by market forces. If there is a demand for paid sex services in a country, women will be sent there. Currently the top destination countries are Belgium, Germany, Greece, Italy and the Netherlands.

Um artigo do Le Monde Diplo de 2001 sumariza bem o processo:

The collapse of the Soviet empire and the break-up of Yugoslavia have exacerbated a problem caused by poverty. Though there are occasional volunteers, most women are abducted, abused or seduced; they hope to earn enough to return home and support their families. Three-quarters have never worked as prostitutes before.

The trade in Europe relies on a distribution network of source countries (Russia, Ukraine and Romania), transit countries (Albania and the former Yugoslavian republics) and target countries (Italy, Germany and France). Trafficking has grown enormously and the business is booming. According to Gerard Stoudmann of the Organisation for Security and Cooperation in Europe, prostitution is “a far less dangerous business than drugs trafficking since there is no international legal framework to combat it”.

Another key recruiting centre is Moscow, which supplies German, Polish and Asian markets (1). According to Eleonora Loutchnikova, a spokesman for Moscow’s city hall, some 330 Russian companies do prostitution-related business, sending 50,000 women abroad every year. In Poland foreign prostitutes are concentrated on the main roads to Germany, as they are in the Czech Republic where Ukrainian and Russian women work. According to Animus, a Bulgarian women’s association, 10,000 women have fallen into the hands of pimps in Bulgaria. They sometimes face extreme conditions: two young women froze to death in January 2000 attempting to cross the border into Greece, where they were to work as bar hostesses.

De fato, as histórias das meninas são sempre variações sobre temas bem conhecidos da realidade brasileira:

Irina, aged 18, responded to an advertisement in a Kyiv, Ukraine newspaper for a training course in Berlin in 1996. With a fake passport, she traveled to Berlin, Germany where she was told that the school had closed. She was sent on to Brussels, Belgium for a job. When she arrived she was told she needed to repay a debt of US$10,000 and would have to earn the money in prostitution. Her passport was confiscated, and she was threatened, beaten and raped. When she didn’t earn enough money she was sold to a Belgium pimp who operated in Rue d’Aarschot in the Brussel’s red light district. When she managed to escape through the assistance of police, she was arrested because she had no legal documentation. A medical exam verified the abuse she had suffered, such as cigarette burns all over her body.

Lena, aged 21, was recruited by a woman who said her daughter was working in Greece and making a lot of money. When Lena arrived in Greece, her passport had been taken away and she was put into a small room in a brothel guarded by two dogs. She was sold in prostitution each night from nine in the evening until six in the morning. When she escaped and returned to Mykolayiv she had US$55.00.

Tatyana, aged 20, is from a small town in Lugansk oblast in Eastern Ukraine. She could not find a job there because the economy is very poor and the factories are closed. A friend of her mother told her that rich families in the United Arab Emirates were hiring housemaids and she could earn US$4000 a month there. However, when she arrived in the United Arab Emirates, her passport was taken away and she was sold to a brothel for US$7,000 and forced into prostitution to repay the purchase and travel costs to the owner. When she managed to escape and went to the police for help, she was arrested and sentenced to three years in prison for working in a brothel.

***

A verdade é que para cada Sharapova existem dezenas, talvez centenas de mulheres e meninas escravizadas, pela força ou pela penúria,  na indústria do sexo.  Esse é um lado possivelmente menos glamuroso do fenômeno detectado por Applebaum e Diogo, mas que se origina exatamente dos mesmos motivos por eles identificados.  Que nenhum dos dois pareça perceber isso _ ou quem sabe, se importe _ é um tanto chocante, mas nada inesperado.

O Paulo do FYI resolveu parodiar um post meu:

As delícias* da educação estatal

Um em cada 5 jovens não completou o ensino fundamental

“Segundo trabalho feito pela Secretaria Geral da Presidência da República com base na Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), do IBGE, dos 34 milhões jovens urbanos do país, 7,4 milhões tiveram de um a sete anos de estudo –período insuficiente para concluir o ciclo– e 813,2 mil são analfabetos.”

* O “delícias” vem daqui”

***

Pois é. Agora imaginem se os 813,2 mil analfabetos resolvessem educar seus filhos em casa.

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Matéria interessante no Valor sobre o Phenom, novo avião da Embraer que já tem 700 pedidos em carteira.

Transcrevo a matéria na íntegra sob o fold, mas quero ressaltar este trecho:

Graças a sua enorme área – cerca de 17 milhões de metros quadrados, sendo que apenas 90 mil são de área construída – a unidade de Gavião Peixoto tem espaço de sobra para crescer e é considerada “candidata natural” para abrigar os novos projetos da Embraer, entre eles o cargueiro militar C-390 e dois novos jatos executivos, cujas dimensões estão entre os modelos Phenom 300 e o Legacy. (…) São José, o mais antigo complexo industrial da companhia, não tem mais espaço para crescer. Botucatu foi projetada para a produção de estruturas e abriga a fabricação dos aviões para uso agrícola.

A unidade de Gavião Peixoto já exigiu investimentos de cerca de US$ 150 milhões, incluindo o valor do terreno, que até 2001 era uma plantação de laranjas da Cutrale.

É no mínimo irônico que no momento em que tanto se fala do perigo da “doença holandesa” para o Brasil _ a ameaça de perda de competitividade em manufaturados e consequente desindustrialização do país diante do avanço das commodities na pauta de exportação _ o maior símbolo da emergência manufatureira do País, a Embraer, esteja apostando em uma fábrica cujo terreno foi uma plantação de laranjas.

Só achei esse nome, “Phenom”, meio besta.  Acho que o novo avião devia se chamar Tupy (sim, vamos lá ajudar o garoto).    🙂

Leia o resto deste post »

Seguindo a recomendação do pessoal do Torre de Marfim, segundo a qual o que devemos fazer quando queremos distorcer a realidade é botar os números no pau-de-arara até que eles confessem, vou comentar este post da Nariz Gelado:

Enquanto isso, no país da saúde em estado de quase perfeição…

Faleceu, no início da tarde de ontem, o segundo brasileiro com suspeita de febre amarela.
A última manifestação da doença em área urbana foi no século passado: em 1942.
Conclui-se, pois, que o governo Lula está de parabéns por ter quebrado mais um recorde. Desde Getúlio Vargas a saúde dos brasileiros não era tratada com tamanho desleixo.

Vamos ver a evolução do número de óbitos por febre amarela nos últimos anos, segundo dados do Ministério da Saúde:

obitosporfebreamarela.jpg
Como se vê, de fato a maior concentração de óbitos por febre amarela se dá nos anos do governo FHC, com uma pequena “entrega” de óbitos ainda em 2003.
É, eu sei que ela está falando em infestação em área urbana. O problema é que isso também não é uma novidade. A forma urbana da febre amarela é transmitida pelo mosquito Aedes Egypti. Eis a história desse mosquito no Brasil, segundo Pedro Luiz Tauil, da Faculdade de Medicina da UnB:
Em 1955, o Brasil conseguiu eliminar do seu território o mosquito Aedes aegypti, outros 17 países das Américas também obtiveram o mesmo êxito, certificado pela Organização Pan-americana da Saúde. Porém, o Brasil e todos estes países sofreram reinfestações. No Brasil, a imensa maioria delas foi detectada precocemente e eliminada. Em 1967, houve uma re-infestação importante em Belém, Pará, e São Luiz, Maranhão, que foi eliminada em 1973. Em 1976, porém, a partir do porto de Salvador, Bahia, houve uma reinfestação que, infelizmente, não só não foi eliminada, como se propagou para todo o País. Em 1977 atingiu o Rio de Janeiro, em 1979, o Rio Grande do Norte e em 1981, Foz do Iguaçu, Paraná. A partir daí, todas as Unidades da Federação foram atingidas (Nobre et al, 1991). Atualmente, dados do Ministério da Saúde, revelam que cerca de 4.000 municípios já registraram a presença do mosquito em seus territórios. Todos os países americanos, com exceção do Canadá e Chile, encontram-se também infestados por este mosquito.
No Brasil, com o desaparecimento da modalidade urbana da doença e a manutenção de epizootias e casos humanos silvestres, estudos anteriores a década de 70, tornaram possível definir três áreas epidemiologicamente distintas, com risco de transmissão da doença, que foram sendo modificadas a partir de 1997: endêmica ou enzoótica (região Norte e Centro Oeste e estado do Maranhão); epizoótica ou de transição: abrange uma faixa que vai da região centro-sul do Piauí, oeste da Bahia, noroeste de Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, e área indene, que corresponde a área onde não há circulação comprovada do vírus amarílico e abrange os estados da região nordeste, sudeste e sul. Em função da última epidemia ocorrida em Minas Gerais no ano de 2003, foi definida uma área indene de risco potencial para circulação viral, contígua à área de transição, que apresenta ecossistemas semelhantes, considerando critérios históricos, hidrográficos e de vegetação e que compreende os municípios do sul de Minas Gerais e da Bahia e a região centro-norte do Espírito Santo.”
Graco Carvalho Abubakr, que faleceu estes dias aqui em Brasília, havia ido passar o reveillon em Pirenópolis, cidade de Goiás, que é um estado que faz parte da área endêmica. Teoricamente, todo mundo que se dirige à região endêmica deveria se vacinar _ o que não ocorre. Eu mesmo moro aqui em BSB há mais de dez anos e nunca me vacinei. Mas o mesmo ocorre com pessoas mais capacitadas e célebres _ o médico Drauzio Varella apanhou febre amarela em uma viagem à Amazônia em 2004.
E mais: a correta estratégia de combate à febre amarela é objeto de controvérsia, segundo o texto de Tauil, “Controvérsia Atual sobre a Vacinação contra a Febre Amarela no Brasil“. Ele resume a controvérsia da seguinte forma:

“1. Deve-se vacinar gradualmente toda a população brasileira, inclusive incluindo a vacina de febre amarela no calendário de vacinação de crianças a partir dos 9 meses de idade, e correr o risco de raríssimos eventos adversos graves, idiossincrásicos, em indivíduos com baixíssimo risco de adquirir a doença, pois vivem em áreas sem transmissão da febre amarela, mas onde a presença do Aedes aegypti é uma ameaça constante para a re-urbanização da doença?
2. Ou deve-se vacinar apenas a população residente em áreas com transmissão de febre amarela silvestre ou que para lá se dirigem, correndo-se o risco de operacionalmente não se ter possibilidade de vacinar todos esses visitantes oportunamente e tendo-se em vista que não se conhece exatamente a área de transmissão, pois esta tem se ampliado nos últimos anos? Nesse caso, a vigilância epidemiológica seria capaz de detectar surtos incipientes de transmissão urbana, caso ocorressem, e, mesmo utilizando-se efetivamente da vacinação de bloqueio, o país estaria preparado para os prejuízos humanos, sociais e econômicos, no caso de uma epidemia, mesmo que localizada, de febre amarela urbana no Brasil?”

Como se vê, a controvérsia surge do fato de que embora raros, há casos de morte pela própria vacinação, como no exemplo dos

(…) óbitos de quatro pessoas associados à vacina: um em 1999, em Goiânia, GO, um em Americana, SP, em março de 2000 (Vasconcelos et al, 2001), um em Jacutiba, mg, em março de 2001 e outro em Três Passos, RS, em setembro de 2001(Informação pessoal CENEPI, MS). Na literatura são relatados casos de óbito associados à vacina nos Estados Unidos e na Austrália.(Marinneau et al, 2001) Assim, a vacinação indiscriminada da população de área infestada pelo Aedes aegypti e/ou pelo Aedes albopictus
deve ser reconsiderada e somente adotada quando o risco de transmissão urbana for elevado ou quando as pessoas se dirigirem para áreas endêmicas da forma silvestre. Aprimorando-se a vigilância epidemiológica, poder-se-ia admitir a ocorrência de um surto da doença e instituir rapidamente a vacinação de bloqueio, evitando-se a sua propagação.

E, por outro lado, também há bons argumentos favoráveis à vacinação em larga escala:

Por outro lado, a imunoproteção aos viajantes para área de transmissão de febre amarela silvestre está progressivamente mais difícil de ser alcançada por problemas operacionais. Como vacinar oportunamente (10 dias antes da viajem) pessoas que se deslocam rapidamente de áreas indenes para áreas com transmissão, pois estas estão cada vez mais próximas daquelas? Além disso, como saber quais são as áreas realmente indenes de febre amarela silvestre, uma vez que a área transmissão esporádica tem se ampliado rapidamente?

Este último parágrafo do Tauil toca em assuntos importantes. O avanço da fronteira agrícola para dentro das florestas e o povoamento de áreas recém-conquistadas aos ermos do interior brasileiro sem dúvida aumentam muito a probabilidade de infestação. As mudanças climáticas também podem contribuir para isso, pois, como vimos em post anterior neste blog, até mesmo a Itália está se vendo às voltas com doenças tropicais.

A estratégia perseguida pelo Ministério da Saúde, aparentemente, vem sendo a de estender a cobertura da vacinação a 100% dos municípios, com estratégias diferenciadas segundo as características do local (área endêmica, área indene, etc):

As ações de prevenção e controle da febre amarela tem como meta atingir a cobertura vacinal de 100% em todos os municípios, com estratégias diferenciadas de vacinação: nas salas de vacinas, vacinação casa a casa na zona rural, nas escolas, em campanhas e ação conjunta com PACS e PSF. Outras estratégias incluem: monitoramento rápido da cobertura local; avaliação sistemática dos eventos adversos; estimulo ao porte de cartão; atividades de sensibilização para adesão da vacinação do adulto; vacinação de grupos de maior vulnerabilidade e específicos, tais como bóia fria, assentamentos, acampamentos de sem terra, caminhoneiros e áreas indígenas; articulação e parcerias de ações conjuntas com outras instituições governamentais e não governamentais.”

***

Em suma: Nariz Gelado precipita-se. Primeiro porque as mortes havidas até agora não parecem caracterizar realmente um surto de febre amarela urbana. Segundo, porque é meio complicado culpar um governo que produziu menos óbitos do que o que lhe antecedeu. Terceiro, finalmente, porque como vimos há um trade-off entre as estratégias de combate à febre amarela, e qualquer uma delas produzirá um certo número de vítimas.

Talvez algum dos meus 3,5 leitores esteja acompanhando a evolução do blogroll aí do lado. Caso não estejam, um aviso: minha lista de links é possivelmente a melhor coisa deste blog. Enjoy.

***

Uma das seções mais recentes é intitulada “Fire at Will”. Consiste essencialmente de links para blogs e sites anaeróbicos. Como se sabe, “fire at will” é a ordem dada a um pelotão de soldados para que atirem à vontade. Claro que falo em sentido figurado _ a idéia é não economizar em munição lógica e racional.

***

Sendo eu o idealizador da coisa, penso que devo dar a primeira salva. Ela vai para este post de Pedro Sette Câmara no blog do recém-inaugurado site Ordem Livre, que aparentemente se pretende um avatar do Cato Institute em terras auriverdes. Reproduzo-o em sua integridade, esperando não ser por isso vítima de um processo de direitos autorais movido pelo “Ordem Livre”:

Quem paga pelas concessões de celular?

Você paga, e eu também.

Essa semana toda lemos notícias sobre como a Anatel arrecadou 5.3 bilhões de reais com o leilão de concessões de telefonia 3G no Brasil.

Entendamos bem: concessões. Uma espécie de pedágio das freqüências.

Isso significa que antes de qualquer investimento em tecnologia e infra-estrutura, o acesso à telefonia 3G já custou ao consumidor brasileiro 5.3 bilhões de reais. Ou, fazendo uma conta aproximada, considerando a existência de 100 milhões de linhas de celular no Brasil, se cada uma dessas linhas fosse transformada em uma linha 3G, o consumidor gastaria R$53 antes mesmo de escolher plano e aparelho. Se você conseguir estimar quantas pessoas provavelmente passarão para 3G, terá um número mais aproximado. Porque, naturalmente, as empresas hão de repassar esse custo aos seus futuros clientes. Antes mesmo de você adquirir um celular e uma linha, o governo brasileiro já levou sua parte. Depois, quando você adquirir um aparelho, será taxado novamente, e também a cada vez que fizer uma ligação.

Mas os abusos dos planejadores não terminam aí. A empresa que adquirir uma fatia mais rentável do mercado também terá de prestar serviços – sempre com preços regulados – a áreas menos rentáveis. E o governo ainda vai dizer que foi seu mérito “levar a telefonia a tais e quais áreas”, como se algum burocrata tivesse colocado uma roupinha de explorador e fincado uma antena de celular no meio da Floresta Amazônica, após enfrentar índios e antropólogos hostis àquele progresso intolerável. Na verdade, o consumidor das áreas mais rentáveis terá sido forçado a subsidiar uma área com demanda muito menor, e, quando ficar alegre por não pagar mais algum imposto, será chamado de sonegador por algum ministro.

Permitam-me analisar em detalhes o post. A começar por esta frase:

Entendamos bem: concessões. Uma espécie de pedágio das freqüências.”

Sette Câmara parece horrorizar-se, aí, com a idéia de o Estado promover concessões de radiofrequências. Infelizmente, ele não dá sinal de preocupar-se muito com a razão pela qual isto é assim, nem com possíveis alternativas a esse esquema.

Bem, o problema é que o espectro de radiofrequências é um recurso limitado. O espectro eletromagnético varia, indo desde frequências muitíssimo curtas (como os raios-X) até as muito longas. Do ponto de vista da exploração do espectro eletromagnético para fins de telecomunicações sem fio, existe uma “janela” no espectro eletromagnético, uma faixa disponível para aplicações wireless. A telefonia celular, por exemplo, exige uma série de requisitos que implica que apenas algumas faixas de frequência são úteis para a prestação do serviço.

Os parâmetros físicos da onda eletromagnética utilizada determinarão a utilidade de uma determinada faixa de frequências para uma operadora. Por exemplo, determinadas frequências requerem menor potência para atingir uma determinada distância, barateando portanto o custo de operação das ERB’s (estações rádio base). O intervalo da faixa determina o número de canais (e portanto, de terminais) que cada célula pode operar simultaneamente, o que reflete no número de células necessárias para cobrir uma determinada área (incluindo superposições). E por aí vai.

Decorre daí que determinadas frequências são mais valorizadas que outras e, por conseguinte, atraem a atenção das operadoras. Se não houvesse uma regulamentação governamental atribuindo determinadas faixas de frequência para determinados operadores segundo algum tipo de critério, o que veríamos seria vários operadores oferecendo serviços na mesma faixa _ destruindo assim a utilidade do serviço.

Não por acaso, foi exatamente este tipo de situação que criou o sistema de alocação de frequências que conhecemos hoje. Uma das primeiras utilizações do rádio foi nas comunicações marítimas, especialmente nos grandes transatlânticos que cruzavam o Atlântico Norte. Porém, após alguns acidentes catastróficos _ em especial, o do Titanic _ as autoridades norte-americanas se convenceram da necessidade de se organizar o uso do espectro eletromagnético, visto que a possibilidade de interferência nas comunicações tinha que ser evitada a qualquer custo. Razão pela qual foi criada a FCC, Federal Communications Comission, em 1934, com poderes para fazer a alocação de frequencias entre certos usos e sua concessão de uso para determinados usuários.

Sem essa alocação ordenada, e sem o enforcement das concessões feitas, teríamos uma situação potencialmente caótica, com todo e qualquer serviço podendo ser invadido a qualquer momento por transmissões de outro prestador, gerando interferência generalizada, com potencial catastrófico.

Mas Pedro Sette continua:

Isso significa que antes de qualquer investimento em tecnologia e infra-estrutura, o acesso à telefonia 3G já custou ao consumidor brasileiro 5.3 bilhões de reais. Ou, fazendo uma conta aproximada, considerando a existência de 100 milhões de linhas de celular no Brasil, se cada uma dessas linhas fosse transformada em uma linha 3G, o consumidor gastaria R$53 antes mesmo de escolher plano e aparelho. “

O fato é que uma vez estabelecido este princípio de que alguma forma de concessão controlada pelo Estado tem que ser feita, é claro que existem várias diferentes maneiras de se fazer este controle _ em particular, de estabelecer qual usuário levará qual concessão. Tradicionalmente, existem 4 diferentes maneiras de se fazer a concessão:

a) leva quem pede primeiro;

b) loteria (ou sorteio);

c) “concurso de beleza”

d) leilões.

As 3 primeiras são dependentes de processos administrativos, com maior ou menor discricionariedade da administração sobre como conduzi-los, ao passo que o último método é mais identificado como um mecanismo “de mercado” para efetuar a concessão.

Cada um dos 4 métodos tem seus prós e contras, mas o fato é que há um consenso entre os economistas de que o leilão é a forma mais eficiente de se escolher o concessionário, pois é o modo mais provável de fazer com que o escolhido seja aquele que vá fazer um melhor uso da frequência concedida. Como diz o Ministery of Economic Development da Nova Zelândia, país que não é conhecido por sua timidez em utilizar mecanismos de mercado na condução dos negócios públicos:

15. Market based allocation methods include resource pricing6 and auctions. Both methods place a cost on the use of a resource to encourage efficient utilisation.

16. With the creation of a market for a resource the question of value arises. Valuation methods are available to provide some guidance particularly where resource pricing is going to be used; however, the use of auctions means this is not always necessary as auctions do not require the government to have knowledge about value. Businesses themselves are seen to be in the best position to value the resource. However, when a market is thin, the government may use a valuation method to set a reserve price to ensure a fair return to the Crown. Similarly a valuation method could be used to determine if a more costly and complex allocation method is worth perusing.

17. When spectrum rights are defined well, with proper auction design and implementation, auctions allocate resources to the parties with the highest valuations; therefore it is assumed that the resource will be put to its most valuable use. From a societal viewpoint this will result in allocative efficiency where the highest bidders’ values reflect society’s value for the resource.” (grifo meu)

Em particular, o leilão das frequências 3G feito pela Anatel beneficiou-se de lições ministradas pelos leilões havidos na Comunidade Européia. Lá, os leilões foram cuidadosamente planejados para extrair a máxima renda para o governo. Aqui, não foi bem assim, por uma série de questões muito técnicas que eu posso elaborar melhor nos comentários, se for necessário. Importa saber que na Europa os leilões foram tão bem sucedidos em extrair renda das operadoras que terminaram por atingir efeitos socialmente indesejáveis, já que as operadoras ficaram sem recursos para investir na construção das redes, atrasando consideravelmente o cronograma de introdução da tecnologia.

No Brasil, o leilão foi planejado de forma a “facilitar” a vida para os participantes do leilão. E, embora o ágio do leilão tenha sido surpreendentemente alto, o fato é que os valores iniciais eram bastante baixos, e o resultado final ficou bem abaixo dos resultados europeus, mesmo controlando para o tamanho dos mercados.

Finalmente, Pedro Sette ataca um aspecto específico do leilão:

Mas os abusos dos planejadores não terminam aí. A empresa que adquirir uma fatia mais rentável do mercado também terá de prestar serviços – sempre com preços regulados – a áreas menos rentáveis. E o governo ainda vai dizer que foi seu mérito “levar a telefonia a tais e quais áreas”, como se algum burocrata tivesse colocado uma roupinha de explorador e fincado uma antena de celular no meio da Floresta Amazônica, após enfrentar índios e antropólogos hostis àquele progresso intolerável. Na verdade, o consumidor das áreas mais rentáveis terá sido forçado a subsidiar uma área com demanda muito menor, e, quando ficar alegre por não pagar mais algum imposto, será chamado de sonegador por algum ministro.

Pedro Sette não provavelmente não sabe, mas este truque tem nome: universalização. A idéia aí é promover a universalização do serviço de telecomunicações 3G.  O fato é que no mundo inteiro utiliza-se o subsídio cruzado para viabilizar que o serviço de telecomunicações chegue a áreas de baixa densidade demográfica. Na verdade, se você pensar bem, seria quase impossível fazer a coisa de outro modo: imagine se a companhia telefônica cobrasse cada ligação de acordo com o custo real daquela ligação! A universalização do serviço telefônico poderia ser conseguida de várias formas _ por exemplo, pela cobrança de um imposto geral sobre a população, a ser pago seja por quem tem, seja por quem não tem telefone. A idéia de cobrar o subsídio daqueles que têm ao menos uma probabilidade de um dia precisar ligar para aquele número subsidiado ao invés de cobrar mesmo de quem não tem telefone me parece uma idéia justa.

***

Como vimos, Pedro Sette, tradutor e exímio conhecedor de poesias, comete alguns grandes equívocos ao falar em regulação de telecomunicações. Evidente que como cidadão ele tem todo direito de pensar e falar o que quiser. Infelizmente, a página que define a por assim dizer “missão” do site Ordem Livre é um pouco mais ambiciosa:

OrdemLivre.org é uma organização não-governamental sem qualquer vínculo partidário. Fundada sobre os princípios de liberdade individual, mercado livre, paz e governo limitado, OrdemLivre.org promove uma ordem econômica eficiente e uma filosofia política moral e inspiradora por meio de publicações e eventos.” (grifo meu)

O trecho em negrito deveria ser substituído pela frase “pensa promover uma ordem econômica eficiente“. E o voluntarismo de leigos deveria ser substituído por um pouco de expertise real.

Enquanto isso não acontece…fire at will!

maio 2017
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