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Fiel ao seu paradigma da ação comunicativa como catalisador do potencial emancipatório da razão das candongas, Jurgen Habermas, que vai fazer oitentinha agora em junho, já tem Twitter.

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Será que James Cameron é o Oliver Stone do século XXI?  Ou, pior, o Gillo Pontecorvo de nossa época?

Talvez. “Avatar” é um filme curioso, pois continua sendo um enorme sucesso de público (os números mostram que ele já ultrapassou  “Titanic” como a maior bilheteria de todos os tempos – embora um certo desconto deva ser feito pelo fato de que os ingressos nos cinemas 3D é são um pouco mais caros), ao mesmo tempo em que atrai críticas à direita e à esquerda do espectro ideológico.

Em entrevista recente, Cameron teve que fazer algo que julgo inédito para um profissional de Hollywood durante um governo Democrata: defender-se das acusações de que seu filme é anti-americano.  E penso que ele o fez com galhardia:

Speaking at a private industry screening of the film, the director with his star Zoe Saldana said that “Avatar” — with its depiction of mineral exploitation on a distant planet and a cadre of trigger-happy mercenaries charged with instituting a scorched earth policy — is very much a political film.

But he rejected comments by critics that the film is un-American even if it is an allegory for American military forays.

I’ve heard people say this film is un-American, while part of being an American is having the freedom to have dissenting ideas,” Cameron said, prompting loud applause from a capacity crowd at the ArcLight Hollywood.

This movie reflects that we are living through war,” Cameron added. “There are boots on the ground, troops who I personally believe were sent there under false pretenses, so I hope this will be part of opening our eyes.” [grifo meu]

Então.  Até o Evo Morales concorda.  🙂

As críticas à esquerda, pelo menos as que eu vi, me parecem menos interessantes.  Em sua maioria, acusam o filme de racismo, pelo fato de os Na´vi precisarem, ao cabo e ao rabo, de um humano “convertido” para liderar sua luta contra a ocupação terráquea.  Outros criticam a lentidão com que o protagonista assume seu dilema moral.  Tudo isso procede, mas eu prefiro lidar com fatos, e os fatos são, em ordem decrescente de importância:

a) Jake Sully é um marine, alguém de quem se espera qualquer coisa menos preocupar-se com os dilemas morais da guerra, e talvez a maior crítica que se possa fazer ao filme é que a despeito disso ele termina por preocupar-se com esse tipo de coisa _ embora devamos levar em conta que em certo momento do filme fica claro que os Na´vi o adotaram para “curá-lo de sua insanidade”;

b) o fato é que, para traçarmos um paralelo histórico, poucas vezes na História um povo ou civilização tecnologicamente inferiorizado foi capaz de resistir à agressão de forças tecnologicamente superiores _ e nesse caso talvez o problema do filme tenha sido o de que os terrestres tenham sido, afinal, derrotados (ainda que pela “Gaia” do planeta e não pelos Na´vi ou mesmo Jake Sully, embora ele é quem tenha tido a idéia _ que vergonhosamente não ocorreu aos Na´vi _ de apelar pra ela);

c) pessoal, estamos falando de um filme de Hollywood, que tem que passar por uma enorme quantidade de filtros (principalmente financeiros) antes de se transformar em um projeto real; Cameron simplesmente não teria conseguido pôr a mão no orçamento que teve, se tivesse se dedicado a criar um filme que trabalhasse meticulosamente todos os problemas sociológicos, filosóficos e morais da situação _ principalmente porque, independentemente dos pendores ideológicos dos CEO´s em Hollywood, um filme assim não atrai grandes públicos e não dá retorno.

Já a crítica à direita varia entre a previsível e a francamente imbecil.  No geral, ela se reduz a recriminar a “ingenuidade” do filme em retratar a tentativa de genocídio de uma civilização por outra tecnologicamente superior, em uma curiosa exibição de má consciência em que a única “suspension of disbelief” admitida é a da ficção do “direito natural”.

Mas há casos patológicos.

Tomemos, por exemplo, Jonah Goldberg, o cara que ficou famoso por escrever um livro (“Liberal Fascism”, traduzido no Brasil como “Fascismo de Esquerda“) que confunde autoritarismo e tendência ideológica e propõe a tese de que o fascismo é um movimento de esquerda, usando argumentos que, quanto à sua estrutura lógica,  já deviam ter sido colocados em seu devido lugar ao tempo de Aristóteles.

Goldberg cometeu um artigo no Los Angeles Times que tem, ao menos, o mérito de possivelmente acabar com toda e qualquer pretensão do rapaz à seriedade.  Porque nesse artigo a grande recriminação que Goldberg faz ao filme é que, raios, como é possível que os Na´vi não tenham Jesus em seu coração???

The film has been subjected to a sustained assault from many on the right, most notably by Ross Douthat in the New York Times, as an “apologia for pantheism.” Douthat’s criticisms hit the mark, but the most relevant point was raised by John Podhoretz in the Weekly Standard. Cameron wrote “Avatar,” says Podhoretz, “not to be controversial, but quite the opposite: He was making something he thought would be most pleasing to the greatest number of people.”

What would have been controversial is if — somehow — Cameron had made a movie in which the good guys accepted Jesus Christ into their hearts.

Of course, that sounds outlandish and absurd, but that’s the point, isn’t it? We live in an age in which it’s the norm to speak glowingly of spirituality but derisively of traditional religion. If the Na’Vi were Roman Catholics, there would be boycotts and protests. Make the oversized Smurfs Rousseauian noble savages and everyone nods along, save for a few cranky right-wingers.

Levando em consideração que os primeiros navegadores europeus só precisavam ir ali na África para encontrar gente que jamais tinha ouvido falar de Cristo ou por falar nisso em um Deus único, seria deveras engraçado esperar que um tal espanto se realizasse em Alpha Centauri, por mais que ensinemos às crianças que Papai do Céu está, oras, no Céu.

[na verdade, Goldberg quer mesmo é dizer que uma das razões do sucesso do filme é sua aura “religiosa” em termos de uma conexão transcendental com a Natureza, e que isso só é possível porque nós temos um “instinto de fé” _ uma assertiva fácil de se jogar nas páginas de um jornal para leigos, mas que, a vero, é objeto de uma complexa discussão evolucionária]

***

Em um curioso “twist” nesse tema do embate entre esquerda e direita acerca de “Avatar” lá no Exterior, no Brasil o filme acabou se tornando foco de algo parecido, só que no papel de bode expiatório, como se pode ver na entrevista dada pelo Barretão no Globo Online:

Mas o que o senhor acha que aconteceu para o público do filme ficar abaixo do esperado?
BARRETO
: Houve vários erros. O primeiro foi realmente termos aceitado exibir o filme na abertura do Festival de Brasília. Brasília é a capital política do país, e, naquela altura, já surgiam os primeiros comentários de que o filme teria uma influência nas eleições. Estávamos entrando na arena dos leões. Além disso, a data era muito longe do lançamento. O filme teve uma exposição a partir de Brasília que só se justificaria se lançássemos uma semana depois. Com o “Tropa de elite”, por exemplo, assim que surgiu o fato da pirataria, deflagrando uma mídia grande, eles anteciparam o lançamento. Nós poderíamos ter tido um pouco mais de audácia e fazer o mesmo. Se fizéssemos, também teríamos evitado a onda do “Avatar”, que foi subestimado, não só por nós, mas por todo mundo. A gente achou que o “Lula” seria a grande novidade. Aí comprovou-se que “Avatar” não era apenas um grande evento, mas também um muito bom filme.” (grifo meu)

Tio Rei, é claro, pinta e borda em cima:

Barretão sabe que não tem essa de lançamento errado, Avatar etc. Foram dois os erros principais:

a) O primeiro foi mesmo de expectativa. O filme mais caro da história do cinema brasileiro ambicionou ser o de maior bilheteria;

b) se a expectativa era essa, já expliquei em outro texto que a personagem teria de ser outra.”

Bom.

Qualquer um que lide com indústria de cinema a sério sabe que existem algumas variáveis chave no negócio, uma vez estando o filme pronto:  o número de cópias produzidas (com reflexo, evidentemente, no número de salas onde o filme será lançado) e a competição em termos de que outros filmes serão lançados conjuntamente ao seu.

A distribuidora do LFB é a Downtown Filmes, fundada por Bruno Wainer em 2006.  Bruno Wainer, filho de Danuza Leão com Samuel Wainer, não é exatamente um leigo nesse mercado _ na verdade ele é um grande nome da indústria nacional, e conhece as regras do jogo.  Bem, Avatar foi lançado em 18 de dezembro, LFB em primeiro de janeiro _ dois fins de semana depois.  Eu não acredito que Wainer tenha realmente achado que ‘Avatar” era, assim, um azarão; e mesmo tendo evitado o lançamento ombro a ombro,  também não creio que Wainer pudesse acreditar que dois finais de semana _ sendo que um, o fim de semana do Natal _ fossem suficientes para “esvaziar” a pressão da demanda por “Avatar”.  Resta especularmos sobre o porque de resolverem lançar o filme assim mesmo.

Portanto, acho leviano, da parte do Tio Rei, dizer “que não tem essa de lançamento errado, Avatar etc“.  Tem essa sim, é claro.  E tanto o Barretão sabe disso que na mesma entrevista diz que o negócio foi “um erro de avaliação coletiva” de produtores, distribuidores e exibidores.

Por outro lado, é verdade, e nisso concordo com Reinaldo, que nego tinha altas expectativas quanto ao filme _ não tivessem, não o teriam feito estrear em mais de 400 salas, um número superior ao campeão nacional de bilheteria atual, “Se Eu Fosse Você 2”, com 300 salas.  Em poucas palavras, apostaram alto, acreditando que o alto grau de aprovação da figura de Lula como presidente se traduziria em um maná de ingressos de cinema.  Ledo engano _ o brasileiro não tem muita vocação para este tipo de coisa.  Acho que nem Getúlio Vargas na década de 30 teria sido sucesso de público.  Talvez Pedro I…  🙂

Nova garota propaganda da Natura!

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