She´s back!

Frears às voltas com cortesãs

Por Carlos Helí de Almeida, para o Valor, de Berlim

Stephen Frears costuma dizer que cada um de seus filmes envolve um grande desafio aceito e superado. O de “Chéri”, drama de época ambientado no universo das cortesãs parisienses do início do século passado, que chega ao circuito brasileiro neste fim de semana, foi trazer para a superfície os verdadeiros sentimentos de personagens que vivem das aparências. “É a história de um grupo de pessoas que levam uma existência frívola, mas são atormentadas por tragédias monumentais debaixo daquele mundo de luxo, beleza e salamaleques. O segredo era trabalhar essas sutilezas”, explicou o diretor de 68 anos, um dos mais premiados e respeitados cineastas britânicos em atividade, em entrevista ao Valor.

Adaptação do romance homônimo da escritora francesa Colette (1873-1954), lançado nos anos 20, “Chéri” representava outro desafio a ser superado, este menos consciente, para o autor de “A Rainha” (2006): o novo filme retoma a parceria de Frears com Christopher Hampton, autor do roteiro de “Ligações Perigosas”, um dos mais estrondosos sucessos do diretor, ganhador de três Oscars (roteiro, direção de arte e figurinos). “Não há regras para esse tipo de coisa. Somos amigos e dividimos o mesmo agente. De repente, ele me apareceu com o roteiro de ‘Chéri’, um projeto que tinha entrado em colapso, e me pediu ajuda. Gostei do que li e achei que era algo em que valia a pena me envolver. Simples assim”, relatou o diretor com a concisão que lhe é característica.

É com a mesma franqueza que Frears revela que antes disso, nunca tinha ouvido falar de Colette ou sobre o tipo de literatura da escritora. “E nem precisaria conhecê-la. O roteiro do Christopher me foi suficiente; a história de ‘Chéri’ chegou filtrada pela sensibilidade dele. Depois, cheguei a ler o livro dela e até a gostar.”

Ao seu lado, Hampton demonstrou mais entusiasmo pelo trabalho da escritora francesa, cujos primeiros romances sobre os prazeres e as dores do amor foram publicados em nome do marido. “Colette teve um início de carreira bastante difícil. Ela chegou a trabalhar como dançarina de cabarés para sobreviver. Foi somente a partir da publicação de ‘Chéri’ que ela conheceu o sucesso. O livro chegou a ser transposto para o teatro, tendo a própria Colette no papel de protagonista”, contou o roteirista e eventual cineasta.

“Chéri” descreve a relação de uma cortesã de meia-idade com o jovem filho de uma ex-rival nos negócios do sexo. Assim como nos melhores trabalhos do diretor, o filme fala sobre outsiders subversivos confrontados com o desejo de estabelecer a própria família. Aqui, o tema ganha temperos adicionais envolvendo sexo, amor e velhice, elementos característicos das obras de Colette. Michelle Pfeiffer está à frente do elenco como a exuberante Lea de Lonval, famosa cortesã que inicia um romance com o pálido e efeminado Chéri (Rupert Friend), uma relação encorajada pela mãe deste, Madame Peloux (Kathy Bates), sua melhor amiga e ex-rival nos negócios do sexo.

Assim como Hampton, Michelle também está de volta ao mundo dos espartilhos de “Ligações Perigosas”. “Michelle é tão americana quanto um hambúrguer, mas eu sabia que ela poderia interpretar uma europeia. Talvez seja sua beleza estonteante”, justificou o diretor.

Frears recusa veementemente comparações entre os dois filmes de época. “Embora ambos se passem na França, ‘Ligações’ e ‘Chéri’ falam de períodos e, portanto, de sociedades completamente diferentes”, disse Frears, de forma categórica. “Há que consideramos também que o estilo de Colette é completamente distinto do de Choderlos de Laclos [autor do romance que originou o filme ‘Ligações Perigosas’]. O que pode haver nos dois e, com certeza, com menos sutileza no livro de Colette, é um fino senso de ironia, uma qualidade que adoro. Na verdade, acho que meu maior interesse no livro dela reside principalmente no modo como usa o humor para encobrir tantas coisas terríveis que acontecem com os personagens. Foi difícil achar esse tom entre o trágico e o cômico, mas acredito que consegui”, concluiu, sem modéstia.

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