O NPTO faz uma bela resenha do novo livro do Ruy Fausto, “Outro Dia”.  No meio do post, ele faz algumas reflexões sobre a necessidade de uma política de alianças em nosso presidencialismo de coalizão:

Era preciso construir uma maioria política dentro do congresso, e, se você achar que não era necessário comprar PL, PP e PTB, fica para você a responsabilidade de montar outra maioria sem eles. Eu já fiz isso na minha cabeça 100 vezes, e não consegui bolar nada que não passasse por a) fechar com o PMDB, sem pagar mensalão, mas dando cargos, o que, suspeito no fundo do meu ser, gera mais negociata (mas é menos rastreável até o partido no poder do que transferências monetárias, motivo pelo qual a técnica foi a preferida dos governos anteriores); ou b) aliar-se ao PSDB, o que, mesmo se acharmos que seria desejável (e não acho que o Fausto o ache), seria dificílimo.

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É possível que manter distância com relação à corrupção seja mais importante do que levar dezenas de milhões de pessoas acima da linha da miséria; mas isso não é óbvio. Merecia uma discussão.

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No fundo, o Fausto parece aplicar os raciocínios que a esquerda deveria ter feito para não aceitar o totalitarismo – a afirmação de valores diante da estratégia, por exemplo – para dizer que ela não pode aceitar a corrupção. Mas aqui há um problema de medida.

A corrupção parlamentar é um escândalo, mas é uma doença da democracia; não é possível que se dê o mesmo peso a ela e ao genocídio totalitário. As conquistas sociais cubanas não justificam a repressão à dissidência em Cuba, mas não é a mesma coisa dizer que a redução da desigualdade no Brasil dentro do regime democrático não vale nada porque PP, PL e PTB foram comprados.

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Pessoalmente, acho que teria sido possível fazer uma articulação melhor se aproximando do PSDB, o que implicaria em aceitar o Paloccismo como mais do que uma concessão tática. Fausto é inteligente o suficiente para confessar sua hesitação em discutir economia, que tem uma dimensão técnica razoável, mas, no geral, não vai ao ponto de admitir que a política econômica moderada de Lula foi um de seus sucessos. Não teria sido melhor se, ao invés do PT ter aceitado a moderação econômica para evitar a crise de 2002, os intelectuais petistas tivessem promovido esse debate de maneira mais esclarecedora na década anterior? As alianças talvez pudessem ter sido melhores.”

Concordo com o Celso: tem uma análise custo/benefício aí.  Eis o motivo pelo qual acho claramente hipócritas os defensores de FHC que escamoteiam rapidamente a compra da reeleição da discussão de “valores”.

Claro que existem aqueles que se apressam em dizer que “um erro não justifica o outro” e que acham, ou dizem achar, que a questão dos valores deve ser colocada acima de qualquer outra discussão.  Acho essa posição irrealista e acredito que muito poucas dessas pessoas a colocam em prática 100% das vezes em sua vida pessoal.  Se existem mesmo, deviam trabalhar em Hollywood.

Daí que resolvi fazer o seguinte: peguei a composição do Congresso recém saído das urnas em 2002 e coloquei no Excel pra gente ver como ficariam as possíveis coalizões alternativas entre PSDB, PT, PMDB e PFL [por simplicidade e falta total de tempo não levo em conta as migrações partidárias que ocorreram logo após, é verdade].

(clique para ampliar)

O primeiro quadro mostra o cenário em que o PT aliar-se-ia com o PSDB; o segundo quadro mostra o que realmente ocorreu, ou seja, o PT aliando-se com o PMDB.

Vemos que nenhum dos dois casos fornece uma “supermaioria”, isto é, uma maioria capaz de aprovar legislação de seu interesse irrespectivamente da opinião dos demais partidos.

É difícil prever como se comportariam os demais partidos na hipótese de “total pureza virtuosa”, isto é, no mundo hipotético onde PT e PSDB se uniriam por mero espírito público e governariam sem nenhuma concessão de nenhuma espécie aos interesses paroquiais dos demais partidos.  O que sei é que eles teriam vida dura na Câmara e vida duríssima no Senado, diante de uma mera combinação PMDB/PFL.  Talvez alguns partidos menores pudessem topar uma aliança puramente “programática” com PT/PSDB, mas acredito que a tendência seria de um enfrentamento dos alijados nos demais partidos.   Afinal, um problema de nossa democracia é que ela deixa contas a pagar para os eleitos, o que certamente faz parte do conjunto de incentivos que os impele a exigir cargos e prebendas na máquina pública.

Assim, na ponta do lápis, parece que o PT terminou fazendo a aliança mais natural, que não o exporia a constantes gridlocks no Congresso.

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Valeu a pena?   Isso é uma outra discussão, muito importante por sinal.  Peças como a tal recente pesquisa do Claudio Salm querem nos fazer acreditar que talvez não, já que o PT no poder não teria significado um salto qualitativo nos principais indicadores sociais brasileiros.   Entretanto, o fato do estudo original do Claudio Salm ainda não ter sido amplamente divulgado (foram divulgados apenas alguns resultados, mas não se conhece a metodologia empregada) impede uma melhor apreciação do seu teor.

No entanto, aponto o detalhe de que nesse experimento hipotético que estamos fazendo,  o caso-base não é a hipótese “continuidade do governo PSDB/DEM seria a mesma coisa“, principalmente do ponto de vista das vestais da pureza que acreditam que “um erro não justifica o outro”. O caso -base, no duro, seria “falta de governabilidade por incapacidade de montar uma coalização dominante“, o que seguramente teria sido muito mais problemático para o país.