Tio Rei está produtivo hoje, e fez um post denunciando a maior negociata já feita no Brasil.  Surpresa: essa negociata não envolve Daniel Dantas (ao que se saiba), e sim Nicolas Sarkozy, aquele que já foi, er, “o cara” para Tio Rei _ muuito antes de Lula ser “o cara” para alguém.

Denúncia #1:

A Índia abriu uma concorrência internacional para a compra — ATENÇÃO!!! — de 126 caças. Valor que se dispõe a pagar a Força Aérea Indiana: US$ 10 bilhões. Seis modelos participaram da primeira rodada de seleção: os americanos F 18 e F 16, o Eurofighter Typhoon, o russo MiG 35, o sueco Gripen NG e o Rafale. Só um caça foi descartado no começo da disputa: o Rafale. Justificativa: não cumpria os requisitos mínimos de desempenho técnico exigidos pela Força Aérea Indiana.” [grifo meu]

Denúncia #2:

E o escândalo, além do fato de que Lula anunciou o vitorioso quando a avaliação estava em curso??? Vamos lá. A Dassault, que fabrica os Rafales, se ofereceu para vender 126 caças à Índia por US$ 10 bilhões. Preço médio de cada avião: US$ 79.365.079,36. O Brasil está disposto a pagar R$ 10 bilhões por 36 aviões — ou US$ 5.681.818.181. Dividindo-se esse valor em dólar pelo número de aparelhos, chega-se ao custo unitário: US$ 157.828.282,82. Cada Rafale para o Brasil custa quase o que o dobro do que custaria para a Índia. Atenção: ESTAMOS FALANDO DO MESMO MODELO DE AVIÃO E DE CONCORRÊNCIAS FEITAS AO MESMO TEMPO.

Fiz uma pesquisinha básica, na Wikipedia mesmo, e cheguei nisso:

India denies elimination of Dassault Aviation Rafale

New Delhi, India – All competitors still in competition

(WAPA) – The last week news relating to the elimination of Dassault Aviation Rafale fighter from the 10 billion tender for 126 new MMRCA (Medium Multi-Role Combat Aircraft) fighters for the Indian Government, provoked surprise particularly by Dassault that said “To have no confirmation from the Indian MoD. We are extremely surprised since there was no technical lacuna in our bid” (see AVIONEWS).

A New Delhi ministry of defense spokesman stated it, affirming that the French proposal “Has fallen short on several counts listed in the GSQRs (General Staff Qualitative Requirements) drawn up by IAF (Indian Air Force). It did not pass muster in the technical evaluation of the bids submitted by the six contenders”.

The Indian Air Force denied today reports that the Dassault Rafale has been eliminated from the Country’s medium multi-role combat aircraft competition.

“We have not ruled anyone out yet in the MMRCA competition”, says an IAF spokesman, who confirmed that the service is responsible for evaluating the contenders. “All of the tests have not been completed. The technical evaluations are only just over and we are scheduled to begin the flight tests next month. Everyone is still in the competition”.

OK, algum bom samaritano já foi avisar Tio Rei e ele fez outro post assim:

Ainda os caças e o que importa

Mandam-me o linK de um site, Flightglobal, que nega que os Rafale estejam fora da concorrência aberta pela Índia para a compra de 126 caças. Ok. Pode até ser. Mas a minha questão no post é outra: quero saber por que os caças sairiam, para o Brasil, por quase o dobro do preço. Essa é a questão fundamental, ainda que o Rafale seja um avião superior – o que, confesso, não tenho como avaliar. Não sei nem ligar um carro. Imaginem o que entendo de avião. Mas fazer conta, ah, isso eu sei.”

Bacana.  Maravilhas do mundo wiki: o cara diz merda, alguém vai lá e corrige.  Ainda bem, já que a notícia mais recente (outubro do ano passado) é esta:

Asked about field evaluation trials of the medium multi-role combat aircraft, (Air Chief Marshal) Naik said: “We have finished the trials of F-16, F/A-18, Rafale and the MiG-35. All (aircraft) are going neck and neck”.

Mas o que importa nesse segundo post é isso aqui:

(…)ainda que o Rafale seja um avião superior – o que, confesso, não tenho como avaliar. Não sei nem ligar um carro. Imaginem o que entendo de avião. Mas fazer conta, ah, isso eu sei.

É pena, mas “fazer conta”, nesse caso, não elimina a necessidade de entender de avião.

A Wikipedia diz o seguinte sobre os custos unitários do Rafale:

The total programme cost, as of 2008, is around €39.6 billion, which translates to a unit programme cost of approximately €138.5 million. The unit flyaway price as of 2008 is €64 million for C version (Air Force), and €70 million for the Navy version.

Veja que o “unit programme cost” do Rafale é de 138 milhões de euros ou 197 milhões de dólares.  Isso é bem mais que qualquer dos custos apontados pelo Tio Rei.  Já o “unit flyaway price” é de 64 milhões de euros, o equivalente a 91 milhões de dólares.

Qual diabos é a diferença entre “unit programme cost” e “unit flyaway price“?  O Departamento de Defesa dos EUA trabalha com a seguinte definição:

Standard unit flyaway cost elements include the costs of procuring airframes; engines; avionics; armaments; engineering change orders; nonrecurring costs including productiontooling, software, and other costs (if funded from aircraft procurement appropriations); divided by the procurement quantity. Flyaway cost does not include research and development, support equipment, training equipment, technical data, or spares.

Ou seja: o custo unitário proposto para o Rafale, na concorrência brasileira, é de 157 milhões de dólares.  É mais caro que os 91 milhões de dólares do “unit flyaway price“, mas este conceito não inclui alguns dos pressupostos da demanda brasileira, como equipamento de suporte, dados técnicos, peças de reposição etc.   Ainda assim 157 milhões de dólares é um preço inferior aos 197 milhões de dólares do “unit programme cost” _ o que faz sentido, já que não faz muito sentido o Brasil compartilhar com a França os custos de pesquisa e desenvolvimento, que costumam ser bem elevados.

E também há que se considerar as economias de escala.  Isso porque o valor unitário de uma partida de 126 aviões será necessariamente menor do que o valor unitário de uma partida de 36 aviões.

Conjugadamente, eu diria que com os dados disponíveis não fica muito evidente que o preço brasileiro _ e leve-se em consideração que ainda não sabemos se os franceses concordaram com uma redução de preço razoável, como o Brasil solicitou _ represente de fato uma “negociata”.

Mas se Reinaldo Azevedo, o homem que não entende de avião mas sabe fazer conta, disse, bom, fazer o quê?