Novos desdobramentos.

Um problema com a enorme mobilização norte-americana no Haiti é que há uma cacofonia de lideranças.  A maior parte do esforço logístico e de pessoal está sendo feito pelo Departamento de Defesa, mas a missão humanitária propriamente dita (dentro do esforço dos EUA, bem entendido) é tarefa da USAID, informa o site Information Distribution:

Lt. Gen. P. K. Keen is leading Joint Task Force – Haiti from Port-au-Prince, but who is in charge of the entire US humanitarian effort in Haiti? USAID, not the DoD, is the lead agency. The humanitarian effort isn’t even a primary DoD role in Haiti, and security was expected to be the role of the UN although I believe the US has been factoring into planning the DoD would play some role there. Will the DoD also find mission creep with the humanitarian relief aspect as well? The US government has not answered US media questions why NGOs and DoD are so uncoordinated in Haiti, and on the ground in Haiti, who would even be the person responsible for answering that question?

Agora me digam que alguém no Pentágano está disposto a delegar ou mesmo compartilhar o controle de suas tropas com uma agência civil, mesmo que norte-americana.

Quem me responder isso também poderá cogitar de me responder se o Pentágano cogita de delegar ou compartilhar o controle de suas tropas com a missão das Nações Unidas, a propósito.  Seria interessante ver um general brasileiro no comando de tropas norte-americanas.   Pelo menos nossas Forças Armadas aprenderiam que efetivamente elas têm muito mais o que fazer do que se preocupar com o PNDH 3, se quiserem ser dignas do nome que têm.

E há um problema mais amplo: do mesmo modo que o Exército brasileiro não é o instrumento ideal para o policiamento urbano no Brasil, o Exército americano não é o instrumento ideal para exercer funções humanitárias.  Matéria no Guardian dá uma pala:

Haiti: We’re not here to fight, US troops insist

The US paratrooper had a simple message for the people of Haiti. He said: ‘I don’t plan on firing a single shot’

The US paratrooper had a simple message for the people of Haiti. Dressed in khaki, carrying an assault rifle and with the iconic sight of Black Hawk helicopters taking off behind him, he said: “I don’t plan on firing a single shot while I’m here. I’ve been in Iraq three times and I’ve done enough of that.”

The paratrooper was part of the 82nd airborne division from Fort Bragg, North Carolina, a toughened crew of battle-ready fighters accustomed to forming the front- line in many American war efforts.

Comforting.

Uma razão óbvia para a maciça presença militar norte-americana é a Síndrome do Vietnã, isto é, a preocupação em evitar ao máximo baixas entre os militares _ o que pode ser facilitado se você tiver um grande número deles, pelo menos no cenário haitiano.  Uma outra razão pode ser a que se pode entrever nesta declaração de Janet Napolitano, a chefa do Homeland Security, em outra matéria do Guardian:

The homeland security secretary, Janet Napolitano, appealed to Haitians to remain at home.

“Please: If any Haitians are watching, there may be an impulse to leave the island and to come here,” she said. “This is a very dangerous crossing. Lives are lost every time people try to make this crossing. Please do not have us divert our necessary rescue and relief efforts that are going into Haiti by trying to leave at this point.”

Revealing.

***

Pouca gente talvez tenha atinado para o seguinte: dado que o Estado haitiano, se estava em construção, praticamente desapareceu, e que o conjunto de forças americanas já mobilizadas supera em muito a própria Minustah, fica a impressão de que os EUA abrem um terceiro teatro de “state building” sob suas asas, além do Iraque e do Afeganistão _ dois empreendimentos que já não vão muito bem por si só.   Agregue a isso um “pior cenário” onde os EUA se vejam forçados a ter que manter a ordem em um Paquistão colapsado e em um hipotético Irã “pós-intervenção”, e veremos facilmente um pesadelo operacional para as forças armadas americanas.  Difícil imaginar o país dando conta disso sem o draft.  Difícil acreditar nisso sem uma Sarah Pallin cruzando o Rubicão.  Ou alternativamente os “teabaggers” tomando a Casa Branca e inaugurando uma nova era de isolacionismo.

Claro que isso pode ser um exagero.  Fontes credenciadas imaginam que a situação no Haiti ainda vai piorar antes de melhorar, mas é perfeitamente possível que depois que ela melhore os EUA repassem o controle da situação para as Nações Unidas novamente.  Tudo depende, é claro, de como os americanos lidarão com a situação _ uma coisa que pouca gente sabe é que os EUA já ocuparam o Haiti por cerca de 20 anos no início do século passado que se constituiu por si só em um fracasso da tentativa de “state building”.  Há memórias disso no Haiti de hoje?  Talvez, nos mostra a matéria do Guardian:

The Haitian in whose house in Port-au-Prince we are staying – a prominent businessman and generally very pro-America – keeps a cherished machete on his wall. It was used, he explained to me one night, by his grandfather to attack US soldiers during the 1915-1934 American occupation of his country.”

De toda forma, a própria situação geográfica, econômica e populacional do Haiti sugere que mesmo no pior caso o país não conseguiria se transformar em um inferno para os ocupantes militares americanos como o Iraque ou o Afeganistão.

Exceto, é claro, pelo fator vodu.  :)