Muitos aqui se lembrarão, certamente, de um gênero de discussão que floresce durante as grandes tragédias: o retorno do “problema do Mal“.  Esse tema veio à tona depois do tsunami no Oceano Índico em 2006 , e também quando o Katrina abateu-se sobre New Orleans.

De forma geral, acredito que não é de muito bom gosto aproveitar-se da tragédia alheia para reforçar uma argumentação ideológica.  Quero dizer, é claro que é legítimo discutir o “problema do Mal”, só não é de muito bom tom fazê-lo logo depois de uma grande catástrofe, onde as atenções deveriam estar mais voltadas para as ações de resgate e ajuda humanitária.

Mas que diacho, tem gente que não nos deixa outra escolha:

Evangélico americano diz que Haiti fez “pacto com o Diabo”

14 de janeiro de 2010 • 19h16

O evangélico americano Pat Robertson, que anima um programa de TV, lançou uma polêmica nos Estados Unidos ao explicar que o terremoto que arrasou Porto Príncipe seria a consequência de um “pacto com o Diabo” selado pelos haitianos há dois séculos para se livrar dos franceses.

A controvérsia obrigou a Casa Branca a intervir, qualificando as declarações de “profundamente estúpidas”.

Falando em seu programa de TV, o evangélico, candidato às primárias republicanas para a eleição presidencial de 1988, lembrou que os haitianos “eram dominados pelos franceses”.

“Eles se reuniram e selaram um pacto com o Diabo. Disseram a ele: ”serviremos a você se nos livrar dos franceses”. A história é verdadeira. E o Diabo respondeu: ”está certo””, relatou Pat Robertson, 80 anos.

“Desde então, eles são vítimas de uma série de maldições”, afirmou o evangélico, comparando a situação no Haiti com a do país vizinho, a República Dominicana, relativamente próspera.

Claro que o aproveitamento político de grandes catástrofes é o território exclusivo de republicanos anaeróbicos norte-americanos, certo?

Humm…quem dera:

HAITI: PALCO E ATOLEIRO

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010 | 17:49

A abordagem que segue, sei disto, não é das mais agradáveis, mas, lamento, é necessária. Quando menos porque se trata de uma verdade insofismável. A tragédia do Haiti é gigantesca. Ainda que fosse um país minimamente organizado, as conseqüências seriam terríveis; sendo o que é, a cultura política se encarrega de extremar os castigos da natureza — e a natureza, como sabemos, é má para os homens; eles é que a melhoram, domando-a ou aprendendo a se proteger do inevitável. Em tempos “naturalisticamente corretos”, a constatação pode ser ofensiva a muitos. Em alguns casos, os humanos fazem o contrário, é certo, e pioram a natureza. Aí se tem o inferno. O inferno é o Haiti. Mas retomo o fio da abordagem dita desagradável.

Em que pese a desproporção das tragédias, como não contrastar a agilidade de Lula em mobilizar recursos em favor do Haiti com a lentidão paquidérmica para assistir os desabrigados das chuvas no Brasil e as famílias dos muitos mortos? Assim foi em 2008, em Santa Catarina; assim foi no fim do ano passado em toda parte.

Interessante a abordagem do Tio Rei.  Considere, leitor, que em nossa estrutura federalizada os entes federativos são responsáveis por ações de defesa civil na ponta; existe um Sistema Nacional de Defesa Civil responsável por articular as ações de prevenção e resposta a desastres, apoiada pelos entes de defesa civil nos níveis regional, estadual e municipal, como reza a Política Nacional de Defesa Civil.

No caso do Haiti, trata-se de um país já totalmente carente de uma estrutura institucional (é por isso que tem uma missão de paz da ONU lá).  O terremoto, creiam-me, não melhorou essa situação.  Então estamos tratando duas situações bem distintas, não só quanto a extensão da tragédia, quanto às possibilidades de ação local no sentido de minorá-la.

Tio Rei faria melhor em prestar atenção às ações de seus companheiros de estrada.  Não deixa de ser curioso que a única menção que ele fez sobre a patética situação do Jardim Romano, área sob a responsabilidade do alcaide de São Paulo, Gilberto Kassab, foi em um post para falar mal da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que exige soluções para o problema.  Tio Rei chega a dizer que “a defensoria quer também a “suspensão da remoção” dos moradores para que a decisão da Prefeitura de criar um parque naquela região — aonde as águas do Tietê sempre voltarão enquanto houver Tietê“.  E mais:

“(…)a nota da Defensoria diz defender uma “solução definitiva” para a região. E em que ela consistiria? Manutenção das bombas para drenagem das águas pluviais e dos córregos próximos e a varrição dos bairros. E quem disse que isso é solução definitiva?

Pois é.  Tio Rei, que tanto preza a Civilização Ocidental, parece esquecer que uma das primeiras conquistas da Humanidade foi reclamar as áreas de pântanos para uso humano.  Para proteger Kassab, o inepto, ele propõe que a Humanidade regrida ao estágio neolítico, antes das burocracias hidráulicas.

Mas Tio Rei continua:

É evidente que considero que o Brasil tem de integrar os esforços internacionais para tentar minorar o sofrimento do povo do Haiti. Não há mal nenhum nisso. Ao contrário. Mas também resta evidente que uma tragédia como a havida naquele país pode se transformar numa espécie de palco para governantes que pretendem demonstrar capacidade de liderança.”

(…) Uma catástrofe como a havida no Haiti, é forçoso constatar, “rende” mídia internacional, e o evento logo se torna uma arena também política. Barack Obama, outro que não consegue disfarçar a matéria de que é feito, afirmou que o terremoto “pede a liderança americana”. Vai mandar 3,5 mil soldados ao país e anunciou ajuda de US$ 100 milhões. Que o mundo se mobilize mesmo! Os haitianos precisam. Mas nem por isso devemos suspender o juízo crítico e ignorar aspectos nem tão virtuosos de certos protagonismos.”

Suponhamos, por exemplo, que o Brasil sequer tivesse manifestado intenção de ajudar o Haiti, ou o tivesse feito apenas depois de Obama, Sarkozy e o Papa falarem a respeito.  Então seguramente estaríamos vendo a catilinária de Tio Rei ribombando sobre nossas cabeças, recriminando a desídia do Brasil em cumprir com seu papel como líder da missão humanitária no Haiti.   Ou seja, se o governo se manifesta nas primeiras 24 horas é porque quer aparecer, mas se se manifesta depois de 24 horas, é lento e desidioso.  Quem sabe se a manifestação ocorresse 24 horas, 15 minutos e 32 segundos depois do terremoto…

Quanto ao pobre do Obama, bem…parece que Tio Rei só aceita a “liderança americana” quando se trata de causar, e não aliviar, desastres _ o Iraque e o Afeganistão que o digam.

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UPDATE:

O Samba do Avião está dando uma aula sobre a História do Haiti.  Recomendo.  Aproveitem e mandem o link dele pro Pat Robertson.