Um argumento absolutamente irritante no Brasil, hoje em dia, quando se trata de fusões e aquisições, é o do “campeão nacional”.

Não que o argumento em si seja tão idiota _ ele é ao menos discutível.  O problema é o uso falsificado que se faz dele.

Matéria do Valor de hoje fala sobre os problemas da aquisição das Casas Bahia pelo Pão de Açúcar.  Lá pelas tantas apresenta-se a seguinte declaração:

O presidente da Confederação Nacional dos Dirigentes Lojistas (CNDL), Roque Pellizzaro, afirmou que a entidade vê com bons olhos a aquisição da Casas Bahia e do Ponto Frio pelo Grupo Pão de Açúcar. “A fusão entre empresas nacionais é a saída para enfrentar os concorrentes estrangeiros“, afirma Pellizzaro. “O Walmart (multinacional americana) anunciou que vai abrir mais de 100 lojas no Brasil em 2010“, argumenta o empresário. Segundo ele, diferentemente das indústrias, que trazem tecnologia para Brasil, as varejistas estrangeiras “apenas remetem recursos e deixam muito pouco no Brasil. [grifos meus]

Será que Roque Pelizzaro é tão idiota?  Se ele se dignasse a fazer uma pequena busca na internet, encontraria a seguinte matéria:

“Casino amplia fatia no Pão de Açúcar para 35%”

Para quem não sabe, o Casino é uma rede de varejo francesa, grande concorrente do Carrefour na Europa.  Lendo a matéria, descobre-se o seguinte:

O controle acionário do Pão de Açúcar rende bastante polêmica no mercado. Enquanto, de um lado, alguns especialistas, apoiados pelas regras da Comissão de Valores Monetários (CVM), afirmam que o controle do grupo já está em mãos francesas, por outro, a empresa brasileira garante que Abílio Diniz tem o controle da companhia, fundada por seu pai. A situação foi, inclusive, reforçada pelo parecer do tribunal arbitral, em maio deste ano, que decidiu a favor da rede de Abílio Diniz em um embate jurídico com os donos do grupo Sendas, pois entendeu que o Casino, que desde 2005 detém ações na Companhia Brasileira de Distribuição, não possui o controle de fato da empresa. A decisão economizou cerca de R$ 700 milhões do Pão de Açúcar, que estava sendo cobrado pelos donos do Sendas, que argumentavam que o controle foi transferido ao grupo francês e, diante disso, de acordo com o contrato entre as duas empresas, o Pão de Açúcar seria obrigado a comprar as ações do Sendas na Sendas Distribuidora.”

De toda forma, a própria matéria diz o seguinte:

Dias contados

Essa situação, portanto, tem os dias contados, pois no acordo entre Casino e a família Diniz ficou acertado que, em 2012, o Casino poderá obter o controle do Pão de Açúcar adquirindo uma ação da empresa por apenas R$ 1,00. Enquanto isso, o grupo francês avança aos poucos, com cada vez mais ações da companhia. A empresa não revelou a atual composição acionária, mas divulgou que, agora, o Casino possui 67,1% das suas ações com direito a voto.

Quem quiser que acredite que o fato do Pão de Açúcar se transformar em uma empresa francesa o fará muito diferente do Wal-Mart que é uma empresa americana…