Sujeitinho porreta, apesar do bigode

Tenho alguns livros de coletâneas de contos, gênero do qual gosto muito.  Leio-os às vezes vários de uma vez só, às vezes um ou outro, homeopaticamente.

Hoje, li um pequeno conto (“O Amigo dos Espelhos”) constante do volume “Contos de Horror do Séc. XIX“, de autoria de Georges Rodenbach _ o cavalheiro pimpão cuja hirsuta imagem encima este post.

[tem duas obras dele no Projeto Gutemberg]

Lá embaixo do folder, coloquei as linhas iniciais do conto (que encontrei neste blog).

Concordo com o autor do blog linkado em que o conto, de horror, não tem lá muita coisa (talvez para jovens damas por demais sensíveis do século XIX).  Mas o conto contém algumas pérolas que parecem ecoar preocupações da era moderna, em contexto completamente diferente.

A história é simples: um jovem, rico e ocioso, é tomado por desespero ao verificar que sua imagem, nos espelhos das vitrines parisienses, parece cada vez mais pálido e debilitado.  Raciocina ele que a então recente profusão de espelhos e superfícies reflexivas pela cidade afora estivessem roubando suas cores e sua saúde.

Um caridoso amigo lembra ao protagonista que estes espelhos de loja em geral são de má qualidade, e era por isso que refletiam sua imagem de modo imperfeito, doentio.

Apesar de concordar com isso, o protagonista embarca em outra viagem: começa a colecionar espelhos de boa qualidade, ricos espelhos que o refletem com total fidedignidade.

E é aqui que as coisas começam a ficar interessantes, IMHO.  O protagonista começa a agir estranhamente a partir do momento em que aparelha sua casa com espelhos; em particular, assume um comportamento ascético.  O supracitado amigo caridoso lembra ao protagonista que ele sempre foi um namorador, e que as mulheres estão do lado de fora de sua casa _ ao que o espelhófilo retruca:

Cada um é como uma rua…esses espelhos todos se comunicam feito ruas…É uma grande cidade luminosa.  E nela ainda corro atrás de mulheres, entende?, mulheres que se olharam nos espelhos, que permanecem neles para sempre…(…) Sigo as mulheres, sem dúvida…Mas elas andam rápido, não se deixam abordar, me despistam de espelho em espelho, como de rua em rua.  E eu as perco.  E de vez em quando as abordo.  E tenho encontros lá dentro...”

Narrando a progressão da perturbação mental que afligia o protagonista, o amigo caridoso descreve:

…E por causa de tantos espelhos, justapostos, uns em frente aos outros, a silhueta do solitário se multiplicou ao infinito, ricocheteou em toda parte, engendrou continuamente um novo sósia, cresceu na proporção de uma multidão incalculável, ainda mais perturbadora porque todos pareciam gêmeos copiados do primeiro, que permanecia isolado e seperado deles por um vazio desconhecido…

Em sua última conversa com o amigo, o protagonista despeja:

Veja! Não estou mais só.  Eu vivia muito só.  Os amigos são tão estranhos, tão diferentes de nós!  Agora, vivo com uma multidão…em que todos se parecem comigo.”

Resumindo a história, o protagonista é internado em um sanatório, onde permitem que ele leve apenas um espelho, ao qual ele fica cada vez mais apegado.  Até que um dia é encontrado morto, com o crânio partido, na tentativa de entrar no espelho.

Eu sei que muita gente boa diz que o arquétipo da internet no século XIX era o telégrafo.  E com certeza o telégrafo, tecnologicamente, foi A rede daquela quadra.

Mas esse cara aí captou como ninguém o futuro _ o mundo das redes sociais e do narcisismo eletrônico.  E o pior, apenas olhando no espelho.

O AMIGO DOS ESPELHOS
(fragmento)

A loucura, às vezes, é somente o paroxismo de uma sensação que tem, primeiramente, uma aparência puramente artística e sutil. Eu tive um amigo, internado numa casa de saúde, onde morreu de uma morte dramática que relatarei adiante, cujo mal começou de maneira anódina e por traços que se assemelhavam aos de um poeta.
Na origem, esteve o gosto pelos espelhos; nada de mais.
Ele os amava. Inclinava-se sobre seu mistério fluido, contemplava-os como janelas abertas ao Infinito. Mas os receava também. Uma tarde em que retornou de viagem, depois de suas longas ausências costumeiras, eu o encontrei em casa, ansioso. “Eu parto novamente esta noite mesmo”, disse-me.
— Mas você não pretendia, desta vez, passar o inverno aqui?
— Sim; mas eu parto em seguida. Esse apartamento me está muito hostil… Os lugares nos deixam mais do que nós os deixamos. Eu me sinto um estranho nessas peças, entre meus próprios móveis, que não me reconhecem mais. Eu não poderei ficar… Há um silêncio que eu perturbo… Tudo me é hostil. E há pouco, ao passar diante do espelho, fui tomado de medo… Era como uma água que fosse se abrir, e voltar a se fechar sobre mim!
Eu não me espantei, sabendo do humor sensitivo de meu amigo, conhecendo, de resto, essas impressões de retorno, nas peças fechadas, entre a poeira, o odor contido, o desassossego, a melancolia das coisas que são um pouco mortas durante a ausência… Tristeza de fins de festa! Tardes de retorno, depois o esquecimento da viagem. Parece que todos os nossos velhos desgostos ficados em casa nos acolhem…
Eu compreendi então a sensação experimentada no regresso por meu amigo, e que todos suportam mais ou menos, em ter de retomar sua vida por demais cotidiana… Pois que sendo livre e rico, era natural que o capricho da hora decidisse…
Contudo ele não partiu. Alguns dias depois, eu o reencontrei. Estava indisposto, disse-me ele.
— No entanto você está com excelente aspecto…
— Você diz isso para me confortar. Mas eu me vejo nos espelhos, nas vitrinas… olha! Você não imagina como estou irritado, como estou sofrendo. Eu saio. Creio-me bem saudável, recuperado. Os espelhos me vigiam. Existem agora por toda parte, na casa dos modistas, nos barbeiros, mesmo nas mercearias e nos vendedores de vinho. Ah! os malditos espelhos! Eles vivem de reflexos. Estão à espreita dos transeuntes. Vai-se, não se toma cuidado. E eis que de repente a gente se vê neles, a face ruim, magra, os lábios e os olhos como duas flores adoecidas. São eles, talvez, que nos tomam nossas cores vivas. É de os colorir que nós somos pálidos… A saúde que temos se perde neles como uma bela maquilagem na água…
Escutei meu amigo falar como se se divertisse uma vez mais com esses jogos sutis de conversação, em que ele era excelente. Era um conversador único… abundante, embora precioso. Ele via analogias misteriosas, corredores maravilhosos entre as idéias e as coisas… Sua linguagem desenrolava no ar frases ornamentais que iam freqüentemente acabar no desconhecido. Mas, desta vez, ele não pareceu ceder às fantasias, a um diletantismo de descoberta visionária. Pareceu realmente inquieto, angustiado pelos sinais da doença que os espelhos das vitrinas lhe testemunhavam.
Eu lhe disse: “Todo mundo tem mal aspecto nesses vidros. Neles a gente se vê deformado, macilento ou pálido, com os lábios exangues ou violetas… Percebe-se cambaio ou obeso, muito alto ou muito largo, como nos espelhos côncavos e convexos das feiras. Aí se está sempre feio. Mas eles mentem. E não somos neles mais feios do que sua feiúra, e pálidos como sua doença…”
— Talvez, respondeu meu amigo, tomando um ar sonhador, um pouco reconfortado; são espelhos de má qualidade, espelhos pobres; e é por isso, então, que eles não podem nos mostrar senão com uma saúde empobrecida…
Sem querer, minha conversa teve uma influência decisiva sobre as idéias e a existência de meu amigo. Convencido de que os espelhos das vitrinas não eram verdadeiros, ele quis ter em casa espelhos sinceros, quer dizer espelhos perfeitos, de um aço irreprovável, capaz de lhe exprimir o rosto integralmente, até a menor nuança. E como o testemunho de um só não seria suficiente, não provava nada, ele quis muitos, outros mais, onde sem cessar se olhou, se comparou, se confrontou. Um gosto crescente por ricos espelhos lhe veio, por ódio desses espelhos pobres das vitrinas, espelhos hipócritas, espelhos doentes que o fizeram crer que estivesse doente. Começou por causa disso, sem dúvida, uma coleção…
(…)