Marcos Guterman escreve o seguinte no Estadão:

Hillary, enfim, põe tudo em pratos limpos

A secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton, pediu aos países da América Latina que “pensem duas vezes” antes de se aproximar do Irã. Trata-se da mais veemente e clara advertência do governo Obama sobre a questão, até agora tratada com calculado distanciamento por Washington.

Nas contas da Casa Branca, parece ter ficado claro que os erros da política externa brasileira, ao dar tratamento vip ao presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, abriu uma inesperada e indesejada brecha para que Teerã respire – justamente no momento em que a comunidade internacional está sendo desafiada pelos aiatolás e seu projeto nuclear.

Hillary, então, resolveu colocar a questão em pratos limpos. O Brasil, com seu peso excepcional na região e sua influência crescente, já não pode mais se comportar como um país periférico. Seu status atual demanda que Brasília se posicione a respeito dos grandes temas internacionais, e um dos mais importantes no momento é o que envolve o Irã. “Neutralidade” não é saudável nesse caso, porque mina os esforços concertados da ONU e das grandes potências mundiais para fazer com que o Irã coopere. Pior: dá ao Irã o oxigênio de que precisa para continuar a desafiar o mundo.

E Tio Rei faz coro:

A VERDADE

A política externa brasileira já está sendo desmoralizada nos lugares que contam. “Nossa! Reinaldo diz isso no dia em que o El País anuncia Lula como ‘personagem do ano’!” Pois é. Digo. Dois fatos expuseram os erros de Celso Amorim — e de seu chefe — de modo evidente, inquestionável: o comportamento na crise hondurenha, de notável tacanhice ideológica, e a visita de Ahmadinejad ao Brasil. O país passou a ser visto, em muitos círculos, mais como um provocador do que como um interlocutor (já volto a Amorim para tratar de sua nova pantomima em Tegucigalpa).

Lembram-se do que diziam os porta-vozes de Amorim na imprensa? A aproximação com o Irã fazia parte da crescente importância do Brasil no mundo. Uma delas, tadinha, vendendo o peixe podre conforme o havia comprado do Megalonanico, chegou a dizer que onde parecia haver contradição entre o Brasil e EUA, havia combinação. Não havia. Nunca houve.

Hillary deixou isso claro.”

***

Bom, duas coisas:

1) Se Celso Amorim não é um completo idiota _ e eu não acho que ele seja _ então o convite ao Presidente do Irã para vir ao Brasil demonstra claramente que a diplomacia brasileira não coloca tanta importância assim no objetivo de conseguir uma vaga no Conselho de Segurança da ONU.  E isso é bom, eu acho.

2) Li em algum lugar _ acho que foi no Drezner, mas não consigo recuperar o post _ que a China tem um comportamento peculiar em política externa.  O país almeja, de fato, ser um global player hegemônico.   Mas tem total consciência de suas atuais limitações econômicas e militares para conseguir desempenhar tal papel em curto prazo.  Daí que o objetivo máximo da diplomacia chinesa seja: não ficar no caminho dos EUA.

Então é o seguinte:

Não dá pra entender o texto do Guterman senão segundo a chave de que “erro da política externa brasileira” é tudo aquilo que for um erro segundo o ponto de vista de Washington.  O que é engraçado, porque, se alguém se der ao trabalho de olhar a página do CIA Factbook sobre o Irã, verá quais são seus maiores parceiros comerciais:

Exportadores de bens e serviços para o Irã:

UAE 19.3%, China 13%, Germany 9.2%, South Korea 7%, Italy 5.1%, France 4.3%, Russia 4.2% (2008)

Importadores de produtos e serviços iranianos:

China 15.3%, Japan 14.3%, India 10.4%, South Korea 6.4%, Turkey 6.4%, Italy 4.5% (2008)

Grifei ali alguns sólidos aliados dos EUA, inclusive participantes da OTAN.

Também não deixa de ser curioso ver Tio Rei basear sua censura à política externa brasileira na opinião de um governo que ele, afinal, despreza.

E francamente, por menos simpatia que eu tenha quanto ao governo islâmico do Irã, também não consigo ver a tentativa daquele país de dominar a tecnologia nuclear senão como uma forma de EQUILIBRAR o jogo de forças na região, já que o Irã tem vários vizinhos próximos dotados de armas nucleares _ Paquistão, India, China, Rússia e Israel.

***

Às vezes certos atos de política externa são, de fato, dirigidos ao público interno.  No caso da recepção ao líder iraniano, não consigo vislumbrar facilmente uma tal conexão.  É bem verdade, por outro lado, que jamais vi qualquer pesquisa sobre o reflexo de questões internacionais junto à opinião pública doméstica brasileira.  Quero crer, porém, que dada a falta de tradição do país com estas questões, que estes impactos sejam quase desprezíveis.  Acredito que a Copa do Mundo e a Olimpíada sejam mais importantes para a percepção da performance nacional para nosso eleitorado.

O que leva à pergunta, a que objetivo serve mesmo esse “statement” da nossa diplomacia?  Embora eu ache a condenação ocidental ao Irã bastante equivocada e majoritariamente decidida pela questão israelense (e pelo poderoso lobby desse país junto aos centros decisórios ocidentais), me parece que o Brasil está longe de se beneficiar de qualquer maneira com essa aproximação ou “vindicação” do tema iraniano.   A resposta mais óbvia, que é a afirmação de um mundo multipolar e não uni ou bipolar, precisaria de muito mais vitamina para ser exercida do que a mera boa vontade do mundo para com a figura do nosso Presidente.

Nesse particular _ a menos que eu não esteja vendo alguma coisa que eles vêem _ me parece que o Brasil faria bem melhor em emular a postura chinesa.

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