Em janeiro de 2008, no calor da eleição norte-americana, Tio Rei obrou o seguinte post:

A diferença entre convicção e sectarismo burro

domingo, 6 de janeiro de 2008 | 17:12

Vamos ver. O candidato democrata, tudo indica, será Barack Osama – ops! Obama – ou Hillary Clinton. Um fala aquelas “verdades” do humanismo chinfrim; a outra é notavelmente articulada, é a voz mais técnica entre todos os postulantes. Quem deve ser o republicano a enfrentar um ou outro? Alguém capaz de dizer também verdades gerais e que possa confrontar com razoável destreza o tecnicismo. Só há dois entre os republicanos capazes de fazê-lo: John McCain e Rudy Giuliani, este mais midiático do que aquele — e, pois, mais viável.

Uma eleição não é só um campeonato de qualidades morais. É preciso também ser viável. A questão é saber qual é ponto zero, o marco inicial dessa disputa. E o ponto zero é este: a vitória, hoje, já é dos democratas, entendem? A questão é como tirar deles a eleição certa. Se os democratas escolherem Osama — quero dizer, Obama —, será uma ajuda e tanto. Mas o problema ainda não está resolvido. Depende de quem estiver do outro lado.

Tenho arrepios civilizatórios ao pensar num confronto entre o “libertário” Osama — digo, Obama — e um teocrata caipira. É o mesmo que entregar o ouro pro bandido. A convicção que não dialoga com a realidade é só sectarismo burro.

Na época, Huckabee andava fazendo estragos nas primárias republicanas.  No mesmo dia em que escreveu o post acma, Tio Rei também escreveu isso aqui:

Não serei eu a criticar este ou aquele candidatos porque têm uma religião. Mas o estado é leigo e deve continuar a sê-lo. O republicano Rudy Giuliani é favorável ao aborto, e Huckabee é contrário? Não basta para que eu simpatize com o ex-governador do Arkansas. Continuo a preferir o ex-prefeito de Nova York, que me parece mais equipado intelectualmente para responder aos desafios postos para a maior economia do mundo — e também para a maior máquina militar do planeta. Se Huckabee, a esta altura do campeonato, ainda não entendeu a importância do Paquistão no cenário mundial, sou forçado a indagar: o que mais ele não entendeu? Prefiro, sim, candidatos com sólidas convicções religiosas. Mas a Casa Branca não pode ser confundida com um templo do interior…”  [grifo meu]

Era contra a perspectiva de sua consagração que Reinaldo falava _ como se a Veja fosse a Fox News, aliás _ mas o que importa é o seguinte: para derrotar os democratas, aqueles bárbaros antiocidentais favoráveis ao aborto, Tio Rei propugnava que o partido republicano ungisse um…candidato favorável ao aborto.

Nesta madrugada, ele produziu um “texto de deformação” onde se atraca com uma obra de Trotsky intitulada “Moral e Revolução“.  Transcrevo um pedaço do texto do velho bolchevique, “discutido” por Tio Rei:

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem.

O que é um pensamento tão consequencialista quanto o externado pelo Reinaldão nos seus post antigos, uai.  Até porque sabemos como Tio Rei trata chefes de Estado favoráveis à discussão sobre o aborto.  Quando houve aquela tragédia da menina recifense violentada pelo padrasto, que ficou grávida aos 9 anos de idade e teve que sofrer um aborto para que pudesse sobreviver, Tio Rei dizia o seguinte sobre Lula, que havia dito que “Como chefe de Estado tenho de tratar o aborto como questão de saúde pública. Como cristão, eu sou contra”:

Fosse Lula sincero, sua opinião seria esquizofrênica. Esse negócio de “como cristão” e “como presidente”, lamento dizer, é coisa de covardes políticos. Soubessem as oposições explorar tais contradições, Lula não alcançaria a altitude que alcança. O diabo — e como tem diabo nessa história! — é que também elas têm receio de enfrentar a questão.”

Bem que Tio Rei confessa que foi trotskista na juventude.  Pelo visto guardou no peito as convicções de outrora _ de lá pra cá, aprendeu apenas a ser hipócrita.

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