O DEM exige! (ouviram?  Exige!) esclarecimentos por parte de Arruda sobre o “panetonegate” no DF:

As graves denúncias feitas contra o governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda exigem esclarecimentos convincentes. O partido tem o compromisso com a verdade e aguarda a manifestação oficial do governador para poder se pronunciar.

Brasília, 28 de novembro de 2009.

Rodrigo Maia – Presidente nacional do Democratas

José Agripino – Líder do Democratas no Senado

Ronaldo Caiado – líder do Democratas na Câmara

Bem, o Correio Braziliense de hoje já traz a nota oficial de Arruda & Paulo Otávio sobre o assunto:

Ainda perplexos pelo ato de torpe vilania de que fomos vítimas por parte de alguém que, até recentemente, se mostrava um colaborador, vimos externar à população do Distrito Federal nossa indignação pela trama de que estamos sendo vítimas, engendrada por adversários políticos, valendo-se de pessoa que, à busca das benesses da delação premiada, por atos que praticou nos 8 anos do Governo anterior, urdiu, de forma capciosa e premeditada, versão mentirosa dos fatos para tentar manchar o trabalho sério e bem sucedido que tem sido feito pela nossa administração.

Queremos dizer que estamos tranqüilos, porque sabemos de nossa inocência, e confiamos no sereno e isento trabalho da Justiça de nosso país, onde a verdade sempre acaba se afirmando.

Repelimos os açodados juízos que, muito mais que atingir o princípio constitucional da presunção de inocência, colocam em risco a soberania da verdade democrática.

Convincente, não? Resta saber porque motivo Arruda resolveu empregar um colaborador capaz de tantas “torpes vilanias”, um sujeito que carrega mais de 20 processos nas costas derivados, justamente, de “probleminhas” do governo anterior, “contra” o qual Arruda se elegeu.

Não que Rodrigo Maia seja uma vestal da inocência.  Em julho de 2008, mostrávamos aqui um aspecto do “modo liberal de governar” com o qual ele parecia estar confortável.

***

Toda vez que viajo, fico um tanto espantado quando aterriso no Aeroporto Internacional de Brasília.  Invariavelmente a aeronave sobrevoa quilômetros e quilômetros de mansões cinematográficas.

O que sempre achei suspeitíssimo.

Sim, é verdade que Brasília tem a maior renda per capita do país, devido, principalmente, à concentração de funcionários públicos, principalmente das carreiras mais bem aquinhoadas como as da área jurídica, fiscalização, etc.  Entretanto, eu sempre fui da opinião de que isso não justifica a riqueza imobiliária ostensiva da capital.   Mesmo supondo um casal de dois servidores bem colocados _ digamos, dois procuradores do Ministério Público (e é verdade que servidores em Brasília tendem a casar com servidores), sem filhos, com uma renda familiar bruta orbitando aí pelos 40, 50 mil reais ao mês _ mesmo um salário assim não seria suficiente para bancar uma casa no lago, cuja price tag anda pelos milhões de reais.

Brasília também ostenta, é claro, uma burguesia empresarial, principalmente com raízes no comércio local.  Minha experiência com este estamento da sociedade brasiliense mostra, entretanto, que uma boa parte desse pessoal costuma morar nas cidades-satélites, principalmente nos setores de mansões de Taguatinga, Núcleo Bandeirantes, e outros.

Mesmo o mais novo setor de desbravamento imobiliário da capital, o Setor Noroeste, que supostamente deveria desafogar a demanda por imóveis, está vendendo quitinetes _ na planta _ pela bagatela de quinhentos mil reais.

Tudo isso sempre me sugeriu que os preços dos imóveis em Brasília obedecem a outros desígnios que não apenas a pressão da demanda por moradias, e dois posts no recém inaugurado blog do João Bosco Rabello no Estadão confirmam minhas suspeitas:

Há riqueza ostensiva em Brasília que não poderia ser construída honestamente. Casas suntuosas de servidores e ex-servidores que acumularam patrimônio incompatível com a realidade salarial. A PF trabalha com a convicção de que os preços milionários do mercado imobiliário da Capital, têm origem em lavagem de dinheiro da corrupção.

E:

(…) o vice-governador, Paulo Octávio, segundo na linha sucessória, terá problemas para assumir o cargo no momento em que Arruda tiver que deixá-lo. As investigações caminham na sua direção e suas digitais estão lá, na figura de seu assessor direto, Marcelo Carvalho,que muda de cor e temperatura (fica pálido e com pressão baixa) toda vez que é mencionado como representante do vice no consórcio dos pannetones.

PO, como é intimamente chamado pelo governador e secretários, cometeu o erro que políticos como Ulysses e Tancredo Neves mais condenavam: a mistura de negócios e política. Maior empreendedor da Capital, Paulo Octávio, domina o mercado de construção e comercialização de imóveis, entre outros negócios e , paralelamente, responde pela secretaria de desenvolvimento, que acumula com a vice-governança. Ou seja, manda no setor onde transitam seus interesses comerciais. Por isso, trocou o Senado pelo governo local ao qual é candidato permanente. PO faz de seu parentesco com a família Kubistchek – é casado com Anna Cristina, sobrinha do presidente que construiu Brasília -, seu marketing eleitoral.

***

Reportagem de Raymundo Costa, Raquel Ulhôa e Paulo de Tarso Lyra no Valor fala nas consequências eleitorais do imbroglio:

Com a denúncia contra Arruda o Democrata perde o pouco poder de negociação junto ao PSDB. A partir de agora, o partido não pode mais reivindicar a vice-presidência, cargo para o qual o governador do Distrito Federal era um dos cotados. Na realidade, ninguém no partido ganha com a desgraça de Arruda – o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, já era uma engrenagem no esquema eleitoral do governador paulista José Serra, em franca rota de colisão com a ala do presidente do partido, Rodrigo Maia (RJ).

No PSDB as acusações contra Arruda causam preocupação. O governador José Serra, o mais provável candidato dos tucanos, perde de uma vez por todas o argumento do mensalão para ser usado contra o PT na eleição de 2010 – o que de uma certa forma já havia ocorrido com o mensalinho mineiro, pelo qual se tornou réu no Supremo Tribunal Federal (STF) o ex-governador e atual senador Eduardo Azeredo. O assunto também não é bom para o governador de Minas Gerais, Aécio Neves.

O tucano mineiro, além de ter aliados envolvidos no mensalinho, é o candidato preferido de Arruda, entre os tucanos, à Presidência da República. Dirigentes do PSDB, aliás, fizeram uma busca no Youtube tão logo foram veiculadas as denúncias contra Arruda. Nenhuma aparição de Serra com o governador foi achada – mas há o filme de uma visita de dirigentes do DEM a Aécio que termina com um discurso do governador de Brasília em apoio à candidatura do colega mineiro a presidente.

Pois é, se a aliança PSDB/DEM planejava usar uns cobres auferidos com o rentismo imobiliário brasiliense na campanha do ano que vem, parece que podem tirar o cavalinho da chuva…