Da Wikipedia:

A ficção científica no Brasil é um segmento literário que nunca demonstrou popularidade ou constância, estando baseado em pequenas quantidades de aficionados. Foi praticada por diversos autores influenciados por escritores internacionais do gênero, que tem grande popularidade nos Estados Unidos ou Europa. Por outro lado, alguns autores brasileiros consagrados se aventuraram em obras únicas que podem ser consideradas ficção científica, como Machado de Assis no conto O Imortal.”

Achei interessante a citação, porque bem, eu acabei de ler este livro aqui, que um amigo me emprestou:

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(clique na capa para a descrição da obra)


E, surpresa! o conto do Machadão, “O Imortal”, é o que abre a coletânea.  Eu até já li bastante Machado, mas não conhecia este conto, que deve ser possivelmente possivelmente a primeira obra brasileira de FC, eu acho.

Vocês já devem estar enjoados de saber que exultei ao ler, na série de Elio Gaspari sobre a ditadura, o trecho em que se conta a infância pobre de Ernesto Geisel no interior do Rio Grande do Sul _ mas era aquela pobreza mais material que espiritual, de forma que o pai de Geisel lhe deu a coleção completa das obras de Julio Verne, as quais, segundo o General, influenciaram bastante sua forma de ver o mundo, a começar pela importância que dedicava à ciência e tecnologia.  Exultei porque vi ali um reflexo de minha própria infância, também pobre, embora diferentemente pobre _ a pobreza dos megacaixotes de gente de classe média baixa de Copacabana _ e que também foi influenciada pelo velho mago francês.  Pois o primeiro livro não-infantil que li na minha vida foi “20.000 Léguas Submarinas”, em uma edição baratinha da Ediouro, que tinha uma lojinha ali quase na esquina da Santa Clara com a Domingos Ferreira.

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O que me fez ficar dando tratos à bola, imaginando se é possível correlacionar leituras de ficção científica com pendor pelas ciências e, destarte, grau de inovação de uma sociedade.  Encontrei um estudo da, er, NSF, com uma evidência puramente anedótica:

Interest in science fiction may be an important factor in leading men and women to become interested in science as a career. Although it is only anecdotal evidence, found on Internet discussion lists, for example, scientists often say they were inspired to become scientists by their keen interest in science fiction as children.”

Também encontrei um testemunho desse cara que, sendo americano, provavelmente não conhece muito Julio Verne [ou por falar nisso, Perry Rhodan…], razão pela qual ele reclama não conhecer literatura de FC adequada para crianças.

Um outro sujeito se faz uma pergunta semelhante, com ênfase, entretanto, não na vocação para ciência e tecnologia em geral, mas para a exploração espacial em particular:

Does the predominance of Harry Potter over science fiction bode well or ill for the future of public spaceflight support? What science fiction and non-fiction books would you give to a child or teenager to inspire them about space exploration?

Harry Potter.  Bah.

[um comentário no post linkou uma interessante lista do material de leitura disponível na Estação Espacial Internacional…tem Harry Potter.  Bah.]

É claro que possivelmente a causalidade inversa também ocorre: sociedades que dão grande importância à inovação também devem produzir e consumir muita FC.  Achei alguns dados antigos sobre o mercado editorial norte-americano aqui:

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FC chegava a ser o quarto gênero mais popular em 1999, caindo para quinto em 2001.  Gostaria muito de ver uma série histórica mais ampla, começando no pós-guerra e chegando até 2008 pelo menos.  Também gostaria de ver a lista análoga no Brasil…pelo espaço que a FC tem nas prateleiras das livrarias nacionais, suspeito que o gênero deva vir lá na centésima colocação.

Aliás, outra coisa que queria saber é se existe algum título de FC nos livros adquiridos pelo MEC no Programa Nacional do Livro Didático (ou sua versão para o Ensino Médio).  Procurei, procurei, e não achei uma lista extensiva sequer…se alguém aí souber onde tem avise, please.

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Enquanto isso, parece ter gente nos EUA se esforçando para protagonizar a “Ascensão e Queda do Império Americano“, com ênfase na queda:

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(clique na imagem para ver as legendas)

Versão crítica, aqui.  Versão chutando o balde, aqui.

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UPDATE:

Trecho interessante de um artigo interessante:

In 2007, students in Singapore, Japan, China, and Hong Kong (which was counted independently) all performed better on an international science exam than American students. The U.S. scores have remained essentially stagnant since 1995, the first year the exam was administered. Adults are even less scientifically literate. Early in 2009, the results of a California Academy of Sciences poll (conducted throughout the nation) revealed that only fifty-three per cent of American adults know how long it takes for the Earth to revolve around the sun, and a slightly larger number—fifty-nine per cent—are aware that dinosaurs and humans never lived at the same time.

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