No post sobre a França aí embaixo, Paulo, fiel à sua natureza cronomecânica, faz intriga:

“Hey, esse seu post encaixa perfeitamente com o CS.

Sera que eh por isso que Brasil e Franca andam tao chegadinhos?”

Aham.

Não entendo essa bronca de um americano com a França.  Afinal, não custa lembrar que seu país só logrou a independência porque um bando de caipirias teve uma ajudinha francesa _ primeiro involuntária, quando, para compensar os custos da Guerra dos Sete Anos, a Inglaterra elevou as taxas sobre os produtos da colônia americana, o que culminou no Boston Tea Party; e depois, ativamente aparelhando e treinando as minhocas da terra na sua luta contra os ingleses.  A França reconheceu a independência das colônias em 1778, e soldados franceses lutaram ao lado dos soldados do Continental Army contra os redcoats.  Em 1781, cinco batalhões de infantaria e artilharia franceses, sob o camando do Conde Rochambeau, foram fundamentais na derrota que Washington e Lafayette inflingiram às tropas inglesas em Yorktown.

Para não falar, é claro, da forte influência que a própria Constituição americana recebeu das lições dos constitucionalistas franceses, a começar por Montesquieu.

Depois, vamos comparar dois exemplos antipódicos: a covardia francesa vis a vis a valentia polonesa na Segunda Guerra.

Como se sabe, os valorosos poloneses organizaram uma certa resistência contra o antecipado avanço nazista _ ainda que sobre bases frágeis devido à inapetência das potências ocidentais em cumprir sua promessa de declarar guerra à Alemanha caso esta atacasse a Polônia, e por “potências ocidentais” leia-se não apenas a covarde França mas também a heróica Inglaterra. Na verdade, o fato foi inclusive (cinicamente) utilizado pela propaganda nazista na Polônia ocupada para ganhar corações e mentes poloneses contra os aliados.  Além disso, é bom lembrar que certos aspectos da campanha alemã na Polônia que reforçam a suposta valentia polonesa, como a famosa carga de cavalaria sobre divisões Panzer na batalha de Krojanty, são um mito.

Como resultado, a Polônia foi partilhada entre alemães e russos, e perdeu 20% de sua população civil (entre eles, 90% dos judeus poloneses). Apesar de ser uma das mais católicas regiões do mundo, parece que mais uma vez aquele senhor barbudo que está no céu resolveu mostrar a que veio.

Quanto à França, embora trabalhos americanos e ingleses tenham popularizado a visão de que a liderança francesa estava esclerosada e foi incapaz de articular uma defesa contra os alemães, a verdade é que há uma multiplicidade de pontos de vista a respeito da história.

De toda forma, houve alguma resistência, pouco eficaz porém diante do poderio alemão _ e da frustração do comando militar francês com a fuga do Batalhão Expedicionário Inglês em Dunquerque.  Fundamental, porém, foi a declaração de Paris como “cidade aberta” por seu governador militar francês, o que evitou que a cidade fosse bombardeada e seu tesouro arquitetônico e artístico perdido para sempre.  Ainda assim o exército francês perdeu 90.000 soldados nesta campanha.

Como resultado, a França é hoje a quinta economia do mundo (à frente da Inglaterra), e um dos poucos países dotados de capacidade de dissuassão nuclear, o que faz com que até mesmo os Estados Unidos tenham de pensar duas vezes antes de tomar qualquer decisão de ser rude com os comedores de sapos.

Isso para não falar que Paris é linda, que a moda (e a cultura) francesa é algo que a América inveja profundamente (apesar de posturas ridiculamente defensivas às vezes) e que o que americanos e franceses provavelmente compartilham é um complexo de superioridade.