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Toda essa história me parece crescentemente sem sentido.

O fato de que a diplomacia brasileira vem emitindo sem cessar sinais de que foi pega de surpresa pela ação de Zelaya me faz acreditar que pode ser que isso seja realmente verdade.  Afinal, raciocinemos por absurdo: se tudo isso realmente tivesse sido combinado, o interesse brasileiro na história só poderia ser o de aparecer como uma potência regional influente, capaz de resolver problemas no hemisfério _ talvez com vistas a reforçar sua candidatura ao CS da ONU.  Principalmente porque realmente não temos nenhum interesse direto em Honduras, ou para ser mais realista, mesmo na Centro-América.

Mas que tipo de liderança o Brasil seria capaz de inspirar ao insistir na versão de que a presença de Zelaya em sua embaixada hondurenha NÃO é intencional?  Pior, de que foi arquitetada pela Venezuela?

Outra: suponhamos, de novo, que tudo tenha sido uma armação com conhecimento da Chancelaria brasileira.  Nesse caso, se o governo hondurenho viesse a resolver que realmente valia a pena invadir a embaixada e prender ou quem sabe executar Zelaya, o Brasil faria o quê?  Que capacidade teríamos nós de revidar a este ato de agressão?  Nenhuma.  Seria pior que brigar com bêbado _ seríamos internacionalmente humilhados.   E a Chancelaria brasileira certamente sabe disso.

É claro que sempre restam as possibilidades limítrofes e contingentes à estupidez humana.  Por exemplo, pode ser que alguém tenha achado que seria possível transformar a embaixada brasileira, guardadas as devidas proporções, em uma Estação Finlândia da revolução bolivariana hondurenha.  Entretanto, por tudo que sei, essa seria uma ação totalmente contrária ao “modus operandi” itamarateca _ e eu acredito que ninguém no Palácio teria força para convencer Lula a seguir um caminho contrário ao conselho do Itamaraty nessa matéria.

Assim, parece que restam apenas 3 opções:

– Zelaya forçou a mão do governo brasileiro;

– O Itamaraty teve sonhos de grandeza;

– Alguém teve sonhos de grandeza, mas não o Itamaraty e sim Lula.

Das três, a primeira me parece realmente a mais provável.  Seguida, a uma distância prudente, pela terceira.

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Aqui, uma outra opinião.

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UPDATE:

Sergio Leo, no Valor de hoje, diz que parte da diplomacia brasileira não acredita na versão do governo:

Diplomatas experientes, que trabalharam no governo Fernando Henrique Cardoso, desconfiam da garantia do governo de que Lula foi pego de surpresa com a chegada de Zelaya à embaixada, onde entrou depois de contato telefônico da esposa, que o acompanhou. Semanas atrás, o próprio Zelaya foi recebido por Lula em Brasília, por onde passou também, há duas semanas, o presidente de El Salvador, Maurício Funes, que deu apoio logístico à viagem de retorno de Zelaya a Honduras. A mulher de Funes, Vânia, é filiada ao PT.

“Acredito que o governo brasileiro não teve nada com a situação, mas é difícil que não estivessem sabendo antes que Zelaya iria bater na porta da embaixada”, comentou o embaixador Rubens Barbosa, diretor da Federação das Indústrias de São Paulo. “Acho muito difícil acreditar na versão de que tudo foi feito sem que o governo brasileiro soubesse antes”, concorda o embaixador Luiz Felipe Lampreia, ex-ministro das Relações Exteriores.

Lampreia e Barbosa afirmam que Honduras é um país alheio à área de influência do Brasil, e que a acolhida a Zelaya cria riscos sérios de desmoralização para a diplomacia brasileira. “Uma coisa é dar apoio a Zelaya, o que foi correto; outra é assumir protagonismo”, argumenta Lampreia. “O Brasil estava bem na foto, mas agora assumiu um risco com possibilidade restrita de retorno positivo”, endossa Barbosa.”

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