No Crooked Timber, um post interessante sobre a economics do cinema em 3D.  O autor, Henry Farrel, discute um artigo de Cory Doctorow no Guardian.  O ponto de Doctorow é que os filmes em 3D, apesar de interessantes, são um cul-de-sac, já que a própria lógica do business impedirá a emergência de VERDADEIROS filmes 3D, isto é, filmes onde o efeito 3D seja realmente parte integral e inarredável da obra audiovisual.  Isto porque, raciocina Doctorow, a retromencionada lógica do business audiovisual depende fortemente das outras janelas de distribuição (DVD, cabo, tv aberta)  para se rentabilizar, logo, não faz nenhum sentido criar um filme em 3D que realmente não possa ser visto, ou perca muito a graça, quando apreciado em um aparelho que não apresenta o efeito 3D.

Acho que Doctorow está um tanto errado.  Primeiro: a verdade é que os fabricantes de displays estão correndo atrás do display 3D.  E eu mesmo vi, com estes olhos que a terra há de comer, uma tv da Philips com efeito 3D SEM que seja preciso usar aqueles desconfortáveis óculos.

Segundo: não sei se essas TV´s com 3D vão pegar.  Mas não precisam.  Minha impressão é que o 3D está vindo como uma tentativa de dar algum alento às salas de cinema, aumentar sua diferenciação em relação às outras janelas de exibição.  É claro que há um cálculo a ser feito aí, e é o de saber se a diferença entre produzir um filme com efeitos 3D e sem efeitos 3D cobre a renda adicional que ele permite auferir na bilheteria do cinema.  Mas eu acho que a tecnologia, especialmente a dos filmes feitos inteiramente em computação gráfica, deve permitir que isso seja feito de forma relativamente barata.

Esta matéria da Wired, aliás, mostra qual é o caminho: os cinemas tornam-se capazes de cobrar um adicional para que se veja um filme 3D.

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No post, Henry Farrel relembra uma sacação de Tyler Cowen a respeito dos impactos diferenciados da tecnologia sobre as obras de arte, quanto aos efeitos sobre os direitos autorais:

Perhaps the most interesting part of the book is one that goes on a tangent from Cowen’s main argument – his discussion of how changes in the ability of producers to enforce copyright are likely to affect cultural production. Here, he argues that the likely consequences will differ dramatically from art form to art form. Simplifying a little, he adapts Walter Benjamin to argue that there is likely to be a big difference between art forms that rely heavily on their “aura,” and art forms that can be transformed into information without losing much of their cultural content. The former are likely to continue to do well – they aren’t fundamentally challenged by the Internet. In contrast, forms of art which can be translated into information without losing much of their content are likely to see substantial changes, thanks to competition from file sharing services. Over time, we may see “the symbolic and informational” functions of art [becoming] increasingly separate,” as the Internet offers pure information, and other outlets invest more heavily in providing an “aura” and accompanying benefits of status that will make consumers more willing to pay for art (because it is being produced in a prestigious concert hall, exhibited in a museum etc). Pop music is likely to emphasize live concert performance more, because this has value that can’t be reproduced easily through electronic means (you have to ‘be there’ to properly enjoy it). Cinema is likely to emphasize the benefits of the movie theater experience, rather than enhancements to DVDs that can easily be ripped off by pirates. It’s likely to remain economically healthy even if profits are hit by illegal filesharing (most people didn’t bother to copy video cassettes because it was cheap to rent them).”

Essa sacada da separação entre as funções simbólica e informacional da obra cultural é realmente muito boa.  Isto, a meu ver, explica porque os cinemas estão se transformando em âncoras de shopping: ir ao cinema vai se transformando cada vez mais em um símbolo de um tipo de programa, logo, de um tipo de estilo de vida.

É verdade que a ida ao cinema ainda agrega outros elementos de utilidade ao consumidor _ principalmente devido ao fato de que o cinema ainda é a “primeira janela” de exibição de filmes, isto é, a ida ao cinema tem um apelo específico para as pessoas que, por algum motivo, não querem esperar para ver o filme na TV, no cabo ou no DVD.  Mas eu realmente acredito que uma parte das pessoas que vão ao cinema não estão tão afoitas assim para ver um filme, e estão antes desempenhando um “papel social”.