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Vivendo a arqueologia intensamente

Matéria curiosa no Valor hoje, por Jacilio Saraiva:

Empresas disputam arqueólogos para atuar em grandes obras

O arqueólogo Renato Kipnis diz que a rigidez no controle das construções por órgãos do governo está puxando as contratações

Indiana Jones não é mais o mesmo. Agora, bate ponto, cumpre expediente de até 14 horas e trabalha para grandes empresas. Pelo menos no Brasil, a profissão de arqueólogo recebeu um reforço a partir de 2002 com a obrigatoriedade da presença do profissional em obras que possam causar impactos ambientais. Segundo especialistas do setor, a disseminação de empreendimentos de grande porte- como hidrelétricas, estradas e gasodutos-, os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e o aumento da fiscalização nas construções provocaram um salto de até 100% nas contratações de arqueólogos, nos últimos três anos. A formação acadêmica dos profissionais também ganha corpo com a criação de novos cursos de graduação e especialização.

“A expansão do mercado de trabalho foi ocasionada pela necessidade crescente de pessoal para atender às demandas da arqueologia de contrato, relacionada a grandes empreendimentos”, analisa Denise Pahl Schaan, presidente da Sociedade de Arqueologia Brasileira e coordenadora do curso de especialização em arqueologia da Universidade Federal do Pará. “Hoje, os serviços para empresas são responsáveis por mais de 90% dos projetos na área e já se sobressaem em relação às pesquisas acadêmicas, que sempre caracterizaram a arqueologia no Brasil.“”

Mais:

“(…) A legislação que obriga a presença dos especialistas em obras de pequeno e grande porte foi criada nos anos 1960 e ganhou rigidez a partir de 2002. Com isso, todos os sítios arqueológicos são protegidos por lei, mesmo os que ainda não foram descobertos- e para construir qualquer usina ou estrada é necessário fazer um levantamento arqueológico do local. “No Piauí, há grande procura por técnicos por conta da presença de mineradoras interessadas em reservas de ferro, fósforo, níquel, mármore e calcário”, diz Maria Fátima.

Segundo Denise, alunos de arqueologia sem formação completa ganham até R$ 1,5 mil por mês. “Órgãos públicos, como o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), admitem arqueólogos por salários de R$ 6 mil a R$ 8 mil, por contratos temporários”, diz. E quando o trabalho é em campo, a remuneração pode aumentar. “Se a legislação for cumprida à risca, precisaremos de todos os arqueólogos que se formam no Brasil.

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Legislação correlata e outras informações no site do Sociedade de Arqueologia Brasileira, aqui.

Pergunta-se: essa produção está onde?

Bem, a Portaria 230 de 17 de dezembro de 2002 do IPHAN, que “deu rigidez” à legislação anterior, estipula que:

§ 2º – O resultado esperado é um relatório detalhado que especifique as atividades desenvolvidas em campo e em laboratório e apresente os resultados científicos dos esforços despendidos em termos de produção de conhecimento sobre arqueologia da área de estudo. Assim, a perda física dos sítios arqueológicos poderá ser efetivamente compensada pela incorporação dos conhecimentos produzidos à Memória Nacional.

(…)

§ 8º – No caso da destinação da guarda do material arqueológico retirado nas áreas, regiões ou municípios onde foram realizadas pesquisas arqueológicas, a guarda destes vestígios arqueológicos deverá ser garantida pelo empreendedor, seja na modernização, na ampliação, no fortalecimento de unidades existentes, ou mesmo na construção de unidades museológicas específicas para o caso.

Pergunto-me se essa produção em algum momento vê a luz do dia…