Um certo mané resolveu tomar as dores de Titio Rei.  Vejamos.

O Reinaldo Azevedo tem suas bolas foras. Mas ele na cobertura da compra dos caças da FAB tem feito um trabalho dentro do razoável.

Um blogueiro que se dedica a persegui-lo tentou rebater as acusações do Reinaldo no afã de defender o governo.”

Bom. Eu não sou alguém tão seguro de si a ponto de sistematicamente confundir divergência com animosidade.  Entretanto, um sujeito que começa um post dedicado a fazer o contraditório contra este blog desse jeito já desperta meus piores instintos.  Porque uma coisa é defender o atual governo contra quem anseia pela volta de um governo pior, como é o caso de Reinaldo Azevedo; outra muito diferente é “defender o governo” absolutamente, de qualquer crítica possível.   Então, não rola “afã” nenhum; isso é simplesmente coisa que eu não faço, como sabe quem acompanha o blog _ e, inclusive, recentemente critiquei a decisão de fazer o submarino nuclear.  Mas vamos em frente.

O sujeito diz que meu post incide em 3 “clichês”:

_ o de que os EUA não fazem transferência de tecnologia;

_ o segundo é a, nas palavras dele, “confusão bi-reator vs monoreator”;

_ o terceiro, finalmente, o de que o Rafale já existe e voa enquanto o Grippen é um avião “virtual”.

Quanto ao primeiro ponto, é possível que eu tenha me expressado mal, mas o meu próprio texto já deixa isso suficientemente claro:

Mas o que eu ia dizer é: a parte inquestionável da negociação era a transferência de tecnologia.  E isso, os EUA não fazem.  Não sei qual era a disposição dos suecos nesse quesito, mas cabe notar que partes críticas do Grippen são fabricadas sob licença norte-americana

Bem, se eu mesmo disse que partes do Gripen são fabricados sob licença norte-americana, é claro que os EUA transferem realmente alguma tecnologia.

O sujeito imagina rebater meus argumentos dando exemplos de países que têm licenças para fabricar alguns aviões norte-americanos, tais como a Coréia do Sul, Japão, Israel e Turquia.  Nem é preciso dizer que tais países estão vinculados a tratados com os EUA, sendo que a Turquia é membro da OTAN, Coréia do Sul e Japão tem tratados de defesa mútua com os EUA e Israel, ora, Israel.

Logo, a questão é essa: para o Brasil ter acesso real à tecnologia norte-americana, precisa ter um tipo de relação especial com os EUA que o país não deseja.  É claro que se pode questionar se essa postura é razoável ou não, mas é bom entender que ela não é uma invenção do governo Lula, é uma postura do Estado brasileiro relativamente antiga.  Prova-o aliás o fato de que foi o próprio governo Fernando Henrique Cardoso o responsável por jogar um balde de água fria na proposta da ALCA e fortalecer o Mercosul.

O fulano diz o seguinte, fazendo pouco das restrições americanas ao uso da sua tecnologia:

E quais as restrições? Bem, eles vão cumprir somente aquilo que está no contrato, nenhuma virgula a mais. Por isso é tão complicado negociar com a industria americana, pois uma vez colocado no contrato, eles vão cumprir. E também se abster de negociar com países como Coréia do Norte, Irã, Síria e Venezuela. Eu não vejo nada demais nisso.

Facinho, né?

Mas vejamos o texto de apenas uma das regulações norte-americanas sobre o uso de armas com tecnologia dos EUA pelos seus usuários finais, o Arms Export Control Act.  Ele prevê, entre outras coisas, um “programa de monitoramento” que:

“(b) Conduct of program

In carrying out the program established under subsection (a) of this section, the President shall ensure that the program—

(1) provides for the end-use verification of defense articles and defense services that incorporate sensitive technology, defense articles and defense services that are particularly vulnerable to diversion or other misuse, or defense articles or defense services whose diversion or other misuse could have significant consequences; and

(2) prevents the diversion (through reverse engineering or other means) of technology incorporated in defense articles.” [grifos meus]

Francamente…é ruim, hein?  Mas há coisas piores.  A França, por exemplo, está nos vendendo seu caça mais sofisticado, e transferindo sua tecnologia.   Já o F-22 por exemplo…apesar de que nesse caso a coisa até se justifica, já que o Congresso norte-americano resolveu parar de fabricar o aparelho.

Quanto à suposta “confusão” mono-reator vs bi-reator:

Primeiro a melhora na relação peso/potência tornou o segundo motor desnecessário na maioria dos projetos. Segundo, o nível de confiabilidades das turbinas aumentou consideravelmente nos ultimos 40 anos. Terceiro, a enorme quantidade de acidentes em que a despeito de uma turbina ainda funcionar o avião ainda caiu.

Bem, aqui nosso amigo mostra todo o seu amadorismo.

É uma asneira dizer que um “segundo motor” é “desnecessário” na “maioria dos projetos”.  Dizer isso é desentender completamente o papel de cada tipo de avião no contexto do provável teatro de operações em que operará.    Aviões com duas turbinas são aviões de superioridade aérea: voam mais alto, mais rápido, e atacam de mais longe.  Seu objetivo é ou destruir uma força de ataque inimiga que se aproxime ou destruir instalações de defesa do inimigo (radares), tornando sua capacidade antiaérea inoperante.  No contexto brasileiro, de um país de dimensões continentais, essas características importam muito.  No contexto sueco, o Gripen é um avião adequado, já que se trata de um país pequeno cuja força aérea tem o objetivo de enfrentar enxames de aeronaves russas, logo tem que ser um avião barato, para ser produzido em grande escala.  O exemplo do F-16 na aviação israelense é muito mal colocado, porque o F-16 é um avião de ataque ao solo _ a superioridade aérea israelense está assegurada pela existência dos F-15.  A Operação Opera, por exemplo (a destruição do reator nuclear iraquiano de Osirak, em 1981), foi conduzida por 8 F-16 que atacaram o reator, mais 6 F-15 para dar suporte aos F-16.

Poderíamos até conceber uma formação mista, usando os Rafales na região norte do Brasil e o Gripen NG no Sul, onde as distâncias são menores e o Gripen poderia ter apoio, também, dos R99, aviões com capacidade AWACS, principalmente diante do sistema de datalink do Gripen que é bem avançado.  Mas provavelmente esta solução dual forçaria demasiadamente as economias de escala na operação da Força Aérea, e as evoluções do Rafale certamente o dotarão de uma capacidade de datalink similar à do Gripen, senão melhor.

Ademais, ele se enrola em seu próprio argumento, falando de aumento de confiabilidade de turbinas _ mas que mesmo assim há uma “enorme” quantidade de acidentes em que a despeito de uma turbina funcionar o avião caiu assim mesmo.  Bem, o fato é que se você aumenta a confiabilidade da turbina, continua sendo melhor ter duas turbinas.  Principalmente porque por mais confiável que ela seja, em um avião monorreator você irá inevitavelmente cair  se ela falhar, ao passo que com duas turbinas você ainda tem uma chance.

Finalmente, a questão do Rafale já voar e o Gripen NG ser um avião virtual.  Diz a figura:

O Gripen NG é uma modificação do Gripen C/D que já existe. Inclui remotorização e algumas alterações estruturais na célula e upgrades de sensores.”

Sim.  E daí?  Continua a ser um avião que não existe.  Ele é chamado, aliás, de “Gripen Demo”.  Uma coisa é ter um avião experimental, outra bem diferente é tê-lo fabricado em série.  Tem um custo aí no meio que deve ser devidamente contabilizado.

O Rafale que será vendido pro Brasil ou será o Rafale F3, que será francamente defasado em relação ao Gripen NG e já é defasado em relação ao Block II do F-18E ou será o Rafale F-3+, cujos melhoramentos ninguem sabe nem se vão todos sair do papel e ainda sim serão francamente inferiores ao F-18. Por exemplo, o Rafale nem remotamente apresenta a capacidade de guerra eletrônica que o F-18G possui.”

Ao que eu saiba ainda não se sabe bem qual será o Rafale vendido ao Brasil.  Fala-se em 36 com opção para mais 84, incluindo talvez uma versão naval (coisa que não existe no Gripen).  De qualquer maneira, o parágrafo acima “esquece” todo o resto da discussão, que envolve a transferência de tecnologia, a compra de aeronaves da Embraer pela França, e outras parcerias comerciais que vêm no “pacote completo” (inclusive na questão dos submarinos).

O programa Rafale anda bem problemático na França, sendo que até bem pouco tempo eles sequer podiam lançar bombas guiadas a laser por ausência de integração do POD Damocles de designação de alvos.”

Como dizem na Wikipedia, “citations needed”.  Até onde se sabe o Rafale ganhou a qualificação F3 este ano, caracterizando-se como um avião totalmente multifuncional.  A versão a que o sujeito se refere era a versão com qualificação F2. Ainda assim, é preciso dizer que o Rafale já teve seu batismo de fogo tanto no Kosovo quanto no Afeganistão, coisa que o Gripen, por exemplo, não pode reivindicar.

Existe ainda um agravante. Enquanto o Gripen está integrado com armamento americano e armamento europeu, e o F-18 pode ser integrado facilmente com armamento israelense, o Rafale só está integrado com armamento francês, que é CARO, e alguns armamentos europeus.

O risco político também existe com a França. A primeira coisa que os franceses fizeram quando os ingleses entraram em guerra contra a Argentina foi justamente fornecer os codigos fontes e esquemas dos mísseis exocet para ajudar a marinha britânica a combater o míssil.”

Aqui o moço tem discurso de armeiro, mas deixa que as árvores ocultem a vista da floresta.  A graça, justamente, de se ter completa transferência de tecnologia é que você se torna capaz de fabricar seus próprios armamentos, ficando livre de problemas como o citado _ que aliás são comuns a todos os três aviões.

Me parece que o rapaz é um aficcionado em armas.  Este perfil se encontra muito em discussões de defesa, mas em geral é gente incapaz de entender as consequências estratégicas deste tipo de decisão.  Nice try, moço.