Na Folha de hoje há uma transcrição parcial de documentos recém-desclassificados pela NSA norte-americana sobre o encontro do Presidente Médici com Nixon em 1971, em Washington.   Rolaram coisas assim:

Em conversa com o colega americano Richard Nixon, o presidente Emílio Médici afirmou que “estava trabalhando” para derrubar o governo do socialista chileno Salvador Allende, revelam documentos liberados pelo Departamento de Estado dos EUA e compilados pelo instituto de pesquisa não governamental Arquivo Nacional de Segurança, aos quais a Folha teve acesso.

O encontro ocorreu no Salão Oval da Casa Branca, às 10h de 9 de dezembro de 1971. Do lado brasileiro, só Médici estava presente, deixando o Itamaraty de fora. Sem falar inglês, precisou da ajuda do general Vernon Walters, que tinha forte ligação com o Brasil -era o adido militar americano no golpe de 1964.

O outro participante foi o assessor de Segurança Nacional e futuro secretário de Estado Henry Kissinger, relator do encontro, revelado quase 38 anos depois. “É fantástico ver que Médici tenha mantido conversas no mais alto nível sem se fazer acompanhar por ninguém”, diz o pesquisador Matias Spektor. “A Casa Branca e o Médici acreditavam que o Itamaraty estava tentando frustrar a visita presidencial. Os diplomatas brasileiros não gostavam da ideia de tanta proximidade entre os presidentes.

(…)

Para continuar falando sobre esses temas, Nixon propõe a criação de um “canal” de comunicação fora dos meios diplomáticos e diz que seu homem de confiança seria Kissinger.
Médici concorda e diz que confiava no seu chanceler, Mário Gibson Barbosa, que tinha um “arquivo especial em que todos os itens eram manuscritos (…) de forma que nem os datilógrafos tinham conhecimento deles”.
Na avaliação do ex-embaixador do Brasil nos EUA Roberto Abdenur, a conversa “não chega a ser uma surpresa”. “O que os dois fizeram foi selar, no mais alto nível político, e em termos de organizada colaboração, algo em que ambos os lados já de há muito se vinham empenhando.”

Há também duas entrevistas com especialistas em política latino americana.  A primeira é com Matias Spektor, do CPDOC; ele não acredita que a supracitada conversa tenha se traduzido em uma cooperação direta entre Brasil e EUA para derrubar Allende, embora admita que o governo brasileiro tinha uma política anti-Allende:

FOLHA – Quais são as principais revelações desses documentos?

MATIAS SPEKTOR – O material é fascinante porque revela quatro dinâmicas principais. Primeiro, mostra o escopo e a ambição das atividades clandestinas da ditadura brasileira e do governo Nixon na América do Sul. Segundo, revela quão séria era a expectativa americana de que o Brasil assumisse um papel de liderança na cruzada anticomunista. Terceiro, apesar das confidências trocadas, havia arraigadas suspeitas do lado brasileiro: Médici temia que os Estados Unidos normalizassem relações com Cuba sem avisar o Brasil previamente. Por fim, os documentos mostram que Médici buscou apoio americano na disputa com a Argentina a respeito da construção da usina de Itaipu.

FOLHA – Os presidentes falam sobre intervenção em Cuba e no Chile. Ações concretas podem ser atribuídas a essa conversa?

SPEKTOR – Tanto o Brasil quanto os Estados Unidos conduziam atividades anticomunistas clandestinas na América do Sul. Temos documentos que revelam a extensão da participação brasileira no Uruguai e na Bolívia no início da década de 1970. Há indícios de que a embaixada brasileira em Santiago, no Chile, também tinha uma política ativa anti-Allende. Esses documentos revelam a intensidade da troca de informações entre Estados Unidos e Brasil a esse respeito. Mas não indicam uma atuação conjunta, uma divisão de tarefas, nem um programa anticomunista ativo entre os dois países.

(…)

FOLHA – Na conversa, aparece o interesse em que Médici faça o “jogo sujo” na América do Sul, como define o general Dale Coutinho. É possível fazer um paralelo com a estratégia de Bush e agora de Obama com relação a Lula?

SPEKTOR – O contexto daquela época era muito diferente. Mas um tema comum é a expectativa americana de que o Brasil seja um parceiro ativo na gestão da ordem regional sul-americana. A resposta brasileira sempre foi relutante. A percepção em Brasília é a de que uma parceria com os americanos traria mais custo do que benefício.

Já o pesquisador americano Peter Kornbluh, especialista em história chilena, acha que a relação era mais “carnal” _ e chega a ponto de dizer que o Brasil deve desculpas ao Chile pela instalação da ditadura Pinochet:

FOLHA – O que o documento revela sobre a relação Brasil-EUA no início dos anos 70?

PETER KORNBLUH – A próxima e de certa forma confortável relação revelada deixa claro que o Brasil era o principal aliado dos EUA na guerra contra a esquerda na América Latina. O Brasil tinha suas próprias razões imperiais para, de forma oculta, enfraquecer governos como o de Salvador Allende. Mas este documento deixa claro que o regime militar também funcionava como um substituto para os interesses intervencionistas dos EUA. A forma cândida das visões de Médici sobre o seu direito de alterar o futuro de nações menores da região é impressionante.

FOLHA – Qual era a expectativa de Nixon e Kissinger sobre o Brasil de Médici?

KORNBLUH – O documento e um memorando escrito mais tarde pelo general Vernon Walters mostram que Nixon estava muito feliz sobre a maneira como ele e Médici se relacionaram. Nixon pediu a criação de um canal secreto para continuar as comunicações entre os dois na expectativa de que o Brasil ajudaria Washington a bloquear outros “Allendes e Castros”, como Nixon definiu. Se recuperarmos o registro dessas comunicações, descobriremos um capítulo da obscura história de intervenção na América Latina.

FOLHA – O que se sabe sobre o papel do Brasil no golpe contra Allende?

KORNBLUH – Deste documento aprendemos da boca do mais alto funcionário brasileiro que o Brasil estava comprometido em derrubar Allende. O Brasil tinha um programa de intercâmbio militar com os chilenos, e parece que a inteligência militar de Médici usava isso para canalizar apoio aos militares chilenos. O que não sabemos é a natureza da colaboração entre os EUA e o Brasil. O papel da intervenção oculta americana no Chile tem sido documentado por documentos americanos tornados públicos e um relatório especial do Senado. Mas o papel do Brasil continua sigiloso. O Brasil deve desculpa por seu papel na implantação da ditadura no Chile. (…)

***

Em que medida o Brasil deve desculpas ao Chile eu realmente não sei.  Mas acho que tudo isso mostra que nossa dita “ditabranda” foi menos branda do que vem sendo dito…