Pedro Dória comenta a crise entre Colômbia e Venezuela e, en passant, ecoa a Foreign Policy (ou, melhor dizendo, o blog dos editores da Foreign Policy):

O blog da boa revista Foreign Policy sugere que Chávez se aproveita de uma boa desculpa política para armar seu exército. Que ele tem ambições de aumentar a influência externa da Venezuela, não há dúvidas. É só o que faz. Como os tanques não cruzarão a mata densa em direção à Colômbia, há sempre uma outra possibilidade, sugere um comentarista do blog: os tanques são para uso interno, mesmo. Vai que a popularidade cai e é controlar manifestações nas ruas.”

O post no blog da Foreign Policy na verdade é um comentário sobre uma declaração de Fidel segundo a qual a Venezuela não estaria se armando contra a “nação irmã” da Colômbia, mas sim contra os EUA.  O post, muito sensivelmente, mostra que mesmo que a Venezuela aumentasse sua força de tanques em 20 vezes ainda teria menos tanques que o Iraque na primeira guerra do golfo e dificilmente seria um páreo para um ataque das forças convencionais dos EUA _ e que portanto Chávez visa reforçar seu exército na hipótese de um conflito local.

Pedro Dória pensa ser impossível que os tanques venezuelanos tenham um papel em uma guerra contra a Colômbia, ou pelo menos é o que intuo da frase “os tanques não cruzarão a mata densa em direção à Colômbia“.  Infelizmente, isso não é bem verdade.  O principal departamento colombiano que faz face à Venezuela, Vichada, é descrito assim na Wikipedia:

El relieve del departamento está conformado por extensas llanuras pertenecientes a los Llanos Orientales de Colombia, que se extienden desde el piedemonte de la Cordillera Oriental hasta la República Bolivariana de Venezuela, sobre la cuenca del Río Orinococonocida en Colombia como la Orinoquía.” [grifo meu]

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Departamento de Vichada, em vermelho

Há florestas tropicais ao sul de Vichada, mas também extensas planícies onde se pratica a agropecuária.  Assim, a fronteira entre Colômbia e Venezuela tem características bem distintas da fronteira entre Venezuela e Brasil, por exemplo.  Tanto os colombianos sabem disso, que localizaram suas forças militares neste departamento de forma especialmente peculiar:

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Como vêem, o principal destacamento militar colombiano em Vichada era o “Comando Específio del Oriente”, com sede em Puerto Carreño _ de frente para a Venezuela.  Desde 2005, o Comando foi transformado na Brigada da Selva no. 28 , também responsável pelos departamentos de Guainia e Vaupes (onde há mais florestas extensas).

Por outro lado, a hipótese levantada pelo comentarista do Dória _  “os tanques são para uso interno, mesmo (…) vai que a popularidade cai e é controlar manifestações nas ruas” _ me parece pouco convincente.  Tanques não são o melhor equipamento imaginável para antirioting,  e seu uso nesse sentido apenas fornece ótimas oportunidades de publicidade para os manifestantes.

Assim, os tanques de Chávez continuam a ser um mistério, a ser esclarecido depois de instalados em suas bases de operações _ sejam elas onde forem, e aí que Chávez prevê problemas.

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Por outro lado, a localização das bases colombianas onde os EUA poderão operar também é um tanto enigmática.  Por exemplo, elas estão longe dos principais pontos de operação das FARC.  No entanto, não estão tão longe assim do Canal do Panamá (principalmente as vitais bases navais).  Portanto, eu não ficaria muito surpreso se houvesse mais do que se enxerga neste movimento aparentemente tão óbvio.