Folha, 09/01/97

Deputados pedem cargos para votar reeleição

A barganha de votos pela reeleição em troca de cargos já está sendo encaminhada formalmente ao Palácio do Planalto. Seis deputados do Mato Grosso exigiram nesta quinta-feira (9) oito cargos no Estado para aprovar a emenda da reeleição. “Ou nos atendem ou não votamos a reeleição. Se quiserem, podem dizer que é fisiologismo. Isso é um jogo político. E, dentro desse jogo, queremos a nossa parte”, disse o deputado Welinton Fagundes (PL-MT).”

(…)

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), defendeu que o seu partido tenha mais cargos no governo. “O PMDB precisa aumentar seu espaço no governo”, disse Sarney. O partido quer mais um ministério e o próprio ex-presidente poderá indicar um dos seus afilhados políticos para ocupar o cargo. Segundo Sarney, o partido “quer participar mais das decisões para aumentar sua contribuição”. Sarney, que sempre foi contra a reeleição, vem defendendo que a Convenção Nacional do PMDB aprove “posição aberta” para os deputados e senadores que vão definir o futuro da reeleição.

Folha, 08/01/1997

Pressão faz governo defender reeleição para todos

OAB comandará mobilização contra emenda

A ameaça da família Sarney de boicotar a emenda da reeleição se governadores e prefeitos também não forem beneficiados obrigou o presidente Fernando Henrique Cardoso e os partidos aliados a trabalhar pela chance de um segundo mandato não apenas para presidente. “Se não for garantida a reeleição para todos, vamos votar contra no segundo turno”, afirmou o deputado Sarney Filho (PFL-MA), interessado na possibilidade de reeleição da irmã Roseana Sarney, governadora do Maranhão. “Reeleição só para presidente caracteriza um casuísmo inaceitável”, investiu Sarney Filho até arrancar o compromisso do partido em buscar os 308 votos necessários para que os atuais governadores e prefeitos também possam disputar a eleição de 1998.”

Isto é, 04/09/1995

Presidente em campanha

FHC articula a reeleição, faz uma atrapalhada operação para tirar Itamar do páreo e deixa ministros na berlinda

Contagiado pelo clima eleitoral que predomina em todo o País, o presidente Fernando Henrique resolveu entrar de cabeça na campanha para permanecer no Palácio do Planalto até o ano 2002. Na última semana, FHC jogou pesado. Promoveu encontros no Palácio da Alvorada com seus principais aliados e escolheu seu ex-padrinho político, Itamar Franco, como a primeira pedra a ser afastada do seu caminho rumo à reeleição. Na quarta-feira 28, o Planalto divulgou uma pesquisa feita pela MCI/Ibope sob encomenda do governo e paga com dinheiro público da Petrobrás mostrando que Fernando Henrique ganharia a disputa presidencial com 41% dos votos, disparando na frente de Maluf e Sarney, que teriam 11%, e do próprio Itamar, com 5%. Empolgado pelo clima dos palanques, Fernando Henrique fez um discurso de comício durante um jantar articulado pelo deputado Newton Cardoso na mesma quarta-feira. “Aqui estão as pessoas que têm articulação e mostram os votos e não aqueles que articulam pelos jornais”, exaltou-se o presidente diante de uma platéia de duas dezenas de parlamentares, quase todos do PMDB.

Seguindo à risca seu estilo temperamental, Itamar vestiu rapidamente a carapuça. Na manhã seguinte, durante conversa com FHC e Marco Maciel no Palácio do Planalto, ele deixou claro que estava lá como adversário. “Fernando, você sabe que sempre fui e continuo sendo contra a reeleição”, disparou Itamar. “E você sabe que eu sempre fui a favor”, retrucou FHC. Mais tarde, ao sair do almoço na casa do presidente do PMDB, deputado Paes de Andrade (CE), oferecido para ele e para o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), com o objetivo único de atrapalhar a reeleição de FHC, Itamar mandou um recado mais duro para o presidente. “Esta pesquisa foi feita pelo Palácio do Planalto e divulgada no momento oportuno para eles, que foi a véspera do meu encontro com os presidentes Paes e Sarney. Pesquisas levantam números e os números não mentem. Mas os mentirosos fabricam os números”, disparou Itamar. O encontro entre os três, bolado para oficializar uma frente política contra a reeleição, quase morreu na praia. Numa postura oscilante, Sarney resistiu o quanto pôde em assinar uma nota conjunta contra a reeleição. Motivo: há várias semanas, Fernando Henrique vem paparicando Sarney. Em conversas reservadas com o ex-presidente, FHC acenou com a possibilidade de Sarney ganhar um Ministério ou indicar um afilhado para integrar o governo. O presidente do Senado descarta apenas a primeira hipótese: “O único patrão que aceito é o povo brasileiro. Quem já foi presidente, não pode ser ministro.” [grifo meu]