No Valor, uma resenha estranha:

Todos nós conhecemos pelo menos um exemplar típico desta geração de jovens para os quais casamento, lar e filhos são vistos não como metas, mas perigos a serem evitados, como mostrou um estudo com o perfil dos americanos do fim da sua adolescência até os 20 e tantos anos. O mais apropriado, em muitos casos, seria acrescentar emprego à lista do que os assusta. Grande número deles não tem ideia de qual será sua ocupação e muitos estão adiando o momento de sair da casa dos pais. É possível prever que mesmo entre os mais instruídos haverá os que passarão anos em empregos temporários.

Em resumo, são jovens adultos que tentam adiar os compromissos, um fenômeno facilmente encontrável nos EUA, no Japão, na Europa e, claro, também no Brasil. Na Itália, tem-se constatado que a maioria dos jovens na faixa dos 30 ainda vive em casa com os pais e não está casada nem propriamente empregada. O governo inglês criou uma “classificação” específica para eles: são os Jovens Neet, na sigla em inglês: Not in Education, Employment or Trainining (não estudantes, não empregados, não em treinamento).

Outro grupo são os chamados “bumerangues” – saem da casa paterna para estudar ou quando arrumam emprego ou se casam, mas voltam porque fracassaram e não veem opção senão recorrer aos pais. De forma geral, sentem-se confortáveis morando com a família mesmo adultos, supostamente independentes, donos dos próprios narizes.

Para os pais, parece uma situação ideal o prolongamento da convivência diária com os filhos, já na fase adulta. Mas são cada vez mais comuns as manifestações de preocupação desses mesmos pais, dos dirigentes de empresas, de psicólogos sobre a instabilidade desses jovens. Haver filhos dependentes emocional e financeiramente dos pais não é um fenômeno recente, mas acentuou-se nos últimos anos, mesmo antes da crise financeira que dificultou o acesso dos jovens ao mercado de trabalho.

A questão, na verdade, é outra, e é esse o mote de William Damon, professor de educação e diretor do Centro de Pesquisas da Adolescência da Universidade de Stanford, no livro “O Que o Jovem Quer da Vida?”. É sua terceira obra nessa esteira de análise do papel e do perfil dos jovens. Para ele, o que falta aos jovens é um projeto de vida. E ele gasta praticamente todo o livro mostrando como é possível estimulá-los a descobrir qual é esse propósito de vida.

Não é tarefa fácil. Mas, com base em pesquisa com mais de 200 jovens com idade entre 12 e 26 anos, Damon oferece panorama das aspirações – ou da falta delas – desse grupo e sugestões de como motivar e inspirar os sem-projeto.”

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A resenha é estranha porque o resenhista toma grande parte do seu tempo falando de um fenômeno social, e só nos últimos dois parágrafos falando do livro _ com nem uma palavra sobre a proposta real do autor.

Fiquei sem saber se o livro é bom ou ruim, mas até que fiquei curioso.  Imagino, porém, que o livro seja ruim, pois se propõe a dar respostas locais (“motivar o jovem”) para problemas que são gerais (desemprego).  Resta a questão da alienação.  Acho que este é um divisor de águas, com os conservadores em geral achando que este é um “problema de valores” resolvível em casa e os progressistas achando que este é um “problema de valores” resolvível coletivamente.  Palpites?

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De toda forma, eu aposto que os “jovens Neets” estão superrepresentados nas redes de relacionamento.  E no Twitter.  :)