Ando com um problema de pombos aqui em casa.  Meu vizinho tem um segundo andar inacabado que virou um pombal.  E os pombos vêm para o meu quintal, comer a comida e beber a água dos meus cachorros, transformando, no processo, o quintal em um repositório de cocô de pombo.  Até aí tudo bem, mas pombos são ratos com asas, passam doenças e tal (diz a Wikipedia que o bicho transmite 57 doenças diferentes), e já por três vezes um dos meus cachorros pegou uma doença de pele na pata por causa das aves miseráveis.

Várias tentativas químicas foram tentadas para debelar a praga dos pombos.  Nenhuma deu certo. Existem pombos fósseis com mais de 5 milhões de anos.  Os pombos, parece, são aparentados ao Pássaro Dodô.  Você pensa que o Pássaro Dodô foi extinto? Foi, mas deixou parentes.

Então, abandonei Lavoisier e busquei soluções mais radicais.  Físicas.  Artilharia.

Comprei uma espingarda de chumbinho.  E com ela tenho me deliciado a extinguir carreiras de pombos enfileirados.  Um por um.  Até o último.

E, vejam, nunca fiz curso de tiro.  Mas a questão é: uma espingarda foi feita com um propósito.  Não resta dúvida de que prefiro, de Borges, seu texto sobre o punhal àquele das aves enfileiradas:

Numa gaveta há um punhal.

Foi forjado em Toledo, em fins do século passado; Luis Melián Lafinur deu-o a meu pai, que o trouxe do Uruguai; Evaristo Carriego teve-o uma vez na mão.

Os que o vêem têm de brincar um pouco com ele; percebe-se que a muito o buscavam; a mão se apressa em apertar o punho que a espera; a lâmina obediente e poderosa folga com precisão na bainha.

O punhal outra coisa quer.

É mais que uma estrutura feita de metais; os homens o pensaram e o formaram para um fim muito preciso; é, de algum modo, eterno, o punhal que na noite passada matou um homem em Tacuarembó, e os punhais que mataram César. Quer matar, quer derramar brusco sangue.

Numa gaveta da secretária, entre borradores e cartas, interminavelmente sonha o punhal seu singelo sonho de tigre, e a mão se anima quando o dirige porque o metal se anima, o metal que em cada contato pressente o homicida para quem os homens o criaram.

Às vezes, dá-me pena. Tanta dureza, tanta fé, tanta impassível ou inocente soberba, e os anos passam, inúteis.

O punhal tem teleologia.  A espingarda também.

Ela sabe o caminho, se ajeita precisamente ao ombro. Ela foi feita pra isso, existe um design inteligente condensado na forma do objeto.  Como nada que é humano nos é estranho, sabemos usar uma espingarda.

***

Considere agora uma piscina.  Digamos, uma piscina tipo olímpica, com 50 metros de comprimento e 25 de largura, mas com uns 10 metros de profundidade.  Suponha agora que desses dez metros, 8 estão cobertos pela água, sobrando dois metros para chegarmos até a borda.

Agora coloque dentro dessa piscina um homem e um tubarão branco.

O tubarão saberá exatamente o que fazer com o homem.  O homem tem o tamanho, a forma e a consistência perfeita para ser uma presa saborosa para o tubarão.  Ele foi feito pra isso.  Nada que é nutritivo é estranho ao tubarão.

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Assim, Deus ou não existe ou é um tubarão.

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Obrigado.

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