Matéria curiosa da Der Spiegel na Folha de São Paulo:

Moda da depilação pubiana desconcerta especialistas

Manfred Dworschak

A batalha contra os pelos do corpo chegou às áreas genitais. Os jovens cada vez mais sentem que seu pelos pubianos são nojentos e nada sensuais, adotando medidas drásticas para se livrar deles. A ideia não é nova, mas os possíveis motivos por trás da tendência atual preocupam várias pessoas.

Novamente, a indústria pornográfica apontou o caminho. No final dos anos 90, as primeiras estrelas pornôs começaram a aparecer com a região pubiana depilada. Na época era algo novo. Mas, atualmente, com a maioria das estrelas pornôs tendo seus pelos pubianos removidos, as mulheres com pelos pubianos naturais estão gradualmente se transformando em excentricidades em sites pornográficos. Elas aparecem aqui e acolá, é claro, mas apenas em sites fetichistas que exibem coisas como anãs e mulheres trajando látex.

Além disso, a depilação da zona íntima não é popular apenas entre as estrelas pornôs. Na Alemanha, pelo menos, as chances estão aumentando da garota ao lado também estar experimentando uma redução dos pelos pubianos.”

Na íntegra abaixo, para os com-pêlo e sem UOL…

Moda da depilação pubiana desconcerta especialistas

Manfred Dworschak

A batalha contra os pelos do corpo chegou às áreas genitais. Os jovens cada vez mais sentem que seu pelos pubianos são nojentos e nada sensuais, adotando medidas drásticas para se livrar deles. A ideia não é nova, mas os possíveis motivos por trás da tendência atual preocupam várias pessoas.

Novamente, a indústria pornográfica apontou o caminho. No final dos anos 90, as primeiras estrelas pornôs começaram a aparecer com a região pubiana depilada. Na época era algo novo. Mas, atualmente, com a maioria das estrelas pornôs tendo seus pelos pubianos removidos, as mulheres com pelos pubianos naturais estão gradualmente se transformando em excentricidades em sites pornográficos. Elas aparecem aqui e acolá, é claro, mas apenas em sites fetichistas que exibem coisas como anãs e mulheres trajando látex.

Além disso, a depilação da zona íntima não é popular apenas entre as estrelas pornôs. Na Alemanha, pelo menos, as chances estão aumentando da garota ao lado também estar experimentando uma redução dos pelos pubianos.

Segundo uma pesquisa realizada pelo psicólogo Elmar Brähler, de Leipzig, e publicada na segunda-feira (13), 50% das mulheres entre 18 e 25 anos admitiram depilar seus pelos pubianos. O estudo também mostra que os homens da mesma faixa etária estão seguindo seu exemplo: um quartos deles apara ou remove os pelos.

Há não muito tempo, os homens se orgulhavam de seus pelos, independente de onde nascessem. Mas agora isso parece estar mudando. Os seguidores da mais recente tendência estão removendo grande parte de seus pelos pubianos e aparando o restante em formato de diamantes ou fazendo as chamadas “barbas de pênis”. Ou talvez deixem um “N” para Natasha ou alguma outra forma de padrão decorativo.

No passado, provavelmente só se encontrariam mulheres, fisiculturistas e uma clientela masculina quase que exclusivamente gay na sala de espera de um salão de depilação. Atualmente, nenhum homem precisa se envergonhar ao pedir uma seleção padrão de tratamentos: “costas, traseiro e saco”.

Os motivos por trás da tendência não são claros. Os depilados de ambos os sexos gostam de dizer que a pele nua, suave, simplesmente parece melhor e mais asseada. Além disso, eles acrescentam, o sexo é mais prazeroso quando os pelos não acabam na boca.

Mas agora até mesmo crianças e adolescentes estão se interessando na questão da remoção do pelo pubiano. Muitos não percebem que está longe de ser verdade que todos adultos fazem isso. “Eles estão convencidos de que é a única coisa a fazer”, diz Gudrun Schäfer, uma educadora de uma divisão em Tübingen da organização “pro familia”, que oferece vários serviços de orientação e educacionais relacionados a direitos sexuais e reprodutivos.

Schäfer sabe muito sobre essas coisas. Ela dá palestras em escolas, realiza debates em centros juvenis e fornece orientação online no site de educação sexual “Sextra”, da organização. Ela descobriu que adolescentes com apenas 14 ou 15 anos, que recém-entraram na puberdade, já estão travando a batalha contra seus pelos pubianos. “E a maioria não está fazendo isso porque gosta”, diz Schäfer, “mas porque sentem que o pelo pubiano é nojento e anti-higiênico”.

De fato, os jovens estão tão obcecados com higiene que agora veem sua genitália como inerentemente suja. Por exemplo, diz Schäfer, é frequente encontrar garotos que aplicam loções fragrantes em seus pênis, enquanto as garotas usam obsessivamente duchas vaginais e mantêm lenços umedecidos em suas bolsas. “Isso beira uma mania de higiene”, ela diz.

Toda a empolgação não é por acaso. Os jovens têm a mídia para agradecer por ensiná-los que as partes privadas normalmente peludas são praticamente tabu nos dias atuais. E estudo após estudo -a maioria deles financiado por empresas como Gillette, Philips e Wilkinson, que lucram com a tendência- essa crença é alimentada. Segundo um levantamento encomendado pela Wilkinson e realizado pela empresa de pesquisa de mercado GfK, 61,9% das mulheres querem que os homens depilem seus pelos pubianos. Sentimentos semelhantes aparentemente predominam entre os homens, como pode ser visto em outro recente estudo que concluiu: “Mulheres não depiladas têm menos chances de sexo”.

Em novembro passado, Brähler apresentou números que eram consideravelmente mais espetaculares do que seus resultados atuais. Na época, um estudo que ele realizou entre estudantes universitários concluiu que 88% das mulheres e 67% dos homens depilavam suas áreas genitais. De lá para cá esses números têm circulado por toda a mídia. Mas eram baseados em uma pesquisa envolvendo apenas cerca de 300 estudantes em um hospital universitário. A nova pesquisa, por outro lado, forneceu resultados representativos pela primeira vez a partir de 2.512 entrevistados -e o percentual de homens jovens que dizem depilar seus pelos pubianos despencou de quase 70% para pouco mais de 20%.

Os especialistas estão desconcertados com o fenômeno. “Nós não podemos explicá-lo”, diz Brähler dando de ombros. Nem o novo estudo apagou da memória as pessoas mais velhas. Na semana passada, o semanário conservador “Die Zeit” declarou em letras garrafais: “Depilação dos Pelos Pubianos Se Torna Necessidade de Moda para Mais da Metade da População”. Mas se você acreditar no mais recente relatório, o número na verdade está mais próximo de 18,4%.

A pressão social para depilar certamente tem um efeito. As meninas adolescentes ficam mais ansiosas porque sua região genital agora está nua e mais exposta ao escrutínio. “As garotas estão muito preocupadas sobre como deve ser a aparência ali”, diz Schäfer. Os lábios internos, que gradualmente se tornam mais visíveis nesta idade, frequentemente são vistos como pouco atraentes, por causa de sua aparência enrugada e saliente. Como resultado, diz Schäfer, “pessoas cada vez mais me perguntam a respeito de cirurgia”.

O medo da aparência estranha não se limita apenas aos adolescentes. As mulheres adultas também temem que seus lábios, que antes ficavam quase escondidos por pelos pubianos, possam parecer grandes demais ou caídos. “As partes privadas da mulher se tornaram seu segundo rosto”, diz Aglaja Stirn, diretora do Departamento de Psicossomática do Hospital Universitário J.W. Goethe de Frankfurt. E os mesmos princípios de estética são aplicados tanto ao rosto quanto à genitália. “Os lábios devem parecer jovens, proporcionais e firmes”, diz Stirn.

A história do excesso de pelos

A natureza cada vez mais exposta do debate sobre a remoção de pelos não pode ser atribuída apenas às pessoas que sucumbiram à moda. A questão é muito mais sobre a imagem que cada pessoa tem de si mesma. Não se trata apenas de moda. Tem um pouco a ver com o assunto eternamente sensível do relacionamento do homem com seu mamífero interior.

Há milhares de anos, o pelo do corpo é visto como um legado dos tempos pré-históricos e como uma expressão das tendências animais e altamente libidinosas do Homo sapiens. E, por tanto tempo, o homem se sente compelido a aparar cuidadosamente seu crescimento excessivo de pelos. Para muitas culturas, aparar ou remover os pelos pubianos faz parte da vida.

Mas ainda não conseguimos remover completamente os pelos do corpo. Na verdade, a existência de pelos nas áreas do corpo onde ainda permanecem tem um motivo evolucionário. Por exemplo, ter pelos na virilha e na axila impede o atrito da pele. Ao mesmo tempo, também refresca o corpo, ao ajudar o suor a evaporar e, se os biólogos estiverem corretos, serve como meio de atrair parceiros românticos geneticamente adequados, ao produzir odores particulares.

O novo aspecto do atual movimento de remoção de pelos é que está se espalhando na mesma proporção que as roupas encolhem. A remoção de pelos nas pernas e axilas começou décadas atrás, e agora a região genital é a próxima.

Alguns psicanalistas suspeitam que, por trás do desejo de depilar os pelos pubianos, há um desejo secreto de parecer inofensiva, imatura e infantil, para não afugentar parceiros potenciais. Isso pode ter algo a ver com a tendência das estrelas pop de cultivar a aparência de meninas. Mas os joelhos voltados para dentro e o rosto inocente de Bambi que usam nas sessões de fotos não dão apenas uma aparência infantil a estas mulheres. Elas também parecem um pouco sexualmente reprimidas -e um pouco sem-vergonha.

Isso significa que meia geração está recuando de uma vida sexual adulta? É precisamente o oposto, diz Brähler: “Talvez a mulher de hoje esteja tão autoconfiante que pode arcar em expor seus encantos sem escondê-los”.

O que mais forte vai contra o apelo desta nova tendência é o grande trabalho que a acompanha. Mesmo os maiores escravos da moda podem se cansar de usar uma lâmina de depilação a cada dois dias ou ter seus pelos depilados a cada poucas semanas com cera ou outros aparelhos. Com nomes como “Cleanskin” ou “Hairfree”, novas redes de lojas que prometem suavidade duradoura surgiram para ajudar a atender a essa clientela. A Hairfree, por exemplo, usa laser para cauterizar as raízes dos pelos. E há muitos dermatologistas que ficam felizes em ganhar toda essa receita extra gerada pelos seus caros raios.

É claro que são necessários para cada região da pele pelo menos oito tratamentos, aplicados no intervalo de várias semanas. Para pessoas abençoadas com um peito peludo como Sean Connory, o processo poderia durar quase dois anos. Isso porque cada pelo passa por várias fases de crescimento, e em cada caso o tratamento deve ser aplicado durante a fase certa. Isso aumenta os preços. Na Cleanskin, por exemplo, um único tratamento nas costas custa entre 200 e 300 euros, dependendo da densidade de pelos da pessoa.

Mas o custo não afasta os clientes, e o número de pessoas em busca da remoção permanente está crescendo rapidamente. “Às vezes os pais trazem seus filhos”, diz Ossi Casmir, o gerente de uma franquia da Cleanskin na cidade alemã de Wiesbaden, no sudoeste do país. “Eles pedem pela sua primeira remoção de pelos como presente pelo aniversário de 18 anos -como antes costumavam pedir pela carteira de motorista.”

Mas mesmo com soluções de alta tecnologia, os clientes não têm como evitar a dor. Durante a remoção de pelos por laser, há uma sensação de beliscão a cada pelo removido -quanto mais espesso e escuro o pelo, mais desconfortável é sua remoção. “Pelo facial frequentemente é o mais difícil”, diz Anita Ruppenthal, da Laderma, uma clínica de remoção de pelos com laser em Frankfurt. “Às vezes as pessoas chegam a pular da cadeira.”

A idéia de ter o pelo facial removido pode parecer estranho para algumas pessoas. Mas o fato é que mais e mais homens estão procurando isso. “São principalmente banqueiros e outros profissionais que usam terno para trabalhar”, diz Anita Ruppenthal, da Laderma. No caso deles, pelo menos, a motivação é relativamente simples. “Eles não querem perder tanto tempo se barbeando pela manhã.”

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