Finalmente saiu o relatório preliminar da BEA.  Alguns pontos importantes das conclusões finais, que eu ponho aí em francês mesmo, com minha tradução pé-quebrado:

“leur examen visuel montre que l’avion n’a pas été détruit en vol ; il paraît avoir heurté la surface de l’eau en ligne de vol, avec une forte accélération verticale.”

“o exame visual dos destroços do avião indica que ele não se destruiu no ar; ele parece ter caído sobre a superfície do mar em linha de vôo, com uma forte aceleração vertical.”.

Como havíamos indicado anteriormente, os fóruns aeronáuticos já haviam chegado a essa conclusão.

plusieurs avions qui ont évolué avant et après le vol AF 447, sensiblement à la même altitude, ont altéré leur route pour éviter des masses nuageuses.”

“várias aeronaves que seguiam a mesma rota antes e depois do AF 447, e à mesma altitude, alteraram sua rota para evitar massas de nuvens.”

Talvez no frigir dos ovos este termine sendo o maior mistério desse acidente.  E aqui cabem algumas palavras para contextualizar o negócio.

Como sabem, não sou piloto e nem especialista em aviação.  Mas segui atentamente pelo menos três fóruns de aeronautas e alguns blogs especializados.   Eles explicitam, bem claramente, que apesar do fato de que a tecnologia aeronáutica evoluiu muitíssimo nas últimas décadas, e de que todo o negócio do transporte aéreo é mais ou menos transparente para os tranquilos PAX (passageiros) que atravessam o mundo todo dia, a verdade é que nenhum piloto se aventura dentro de uma tempestade.  Em outras palavras, aviões não foram realmente feitos para voar dentro do ambiente borrascoso de uma grande formação de cumulus nimbus.

Apesar disso, e de algumas declarações dadas durante a coletiva à imprensa pelo executivo da BEA afirmando a impossibilidade de se saber se o avião alterou ou não sua rota para evitar a tempestade, acho que essa imagem do relatório, mostrando a rota do avião até sua última posição conhecida,  desperta uma dúvida:

trajetoriaaf447

(clique para ampliar)

A aeronave, contrariamente a todos os outros vôos, aparentemente não procurou se desviar.

Acho que mesmo que encontrem a caixa preta, talvez jamais saibamos o que realmente aconteceu _ a menos que isso fique claro da transcrição dos últimos diálogos da tripulação.

Em um dos fóruns que li, encontrei uma mensagem de um experiente piloto.  Ele contou uma situação que lhe ocorreu uma vez na mesma região e que me parece bem plausível de ter ocorrido neste vôo.  O referido piloto estava descansando na saleta privada da tripulação (eu também não sabia que isso existe, mas existe), quando resolveu ir até a cabine.  Ao chegar lá, deparou-se com o co-piloto bem tranquilo.  Mas ele resolveu dar uma olhada para fora, ficou desconfiado, e ajustou os parâmetros do radar meteorológico e…pimba! Estavam diante de uma muralha de tempestade, que simplesmente não aparecia na configuração padrão do radar.  Diz ele que se tivesse demorado mais quinze minutos, provavelmente seu avião também estaria no fundo do mar a essa altura.

mapadosfragmentos

(clique para ampliar)

A imagem acima mostra a posição de todos os destroços e corpos encontrados, bem como a última posição do avião.  Dá pra notar que existe uma área relativamente suspeita, principalmente se os destroços puderem ser catalogados quanto ao peso e área e se tiver alguma estimativa da velocidade das correntes na região naquele momento.  Ainda assim, trata-se de uma área relativamente grande.

A BEA disse que continuará a busca do sinalizador até 10 de julho e, se até lá, não encontrarem nada, continuarão a busca procurando identificar o que restou da estrutura do avião no fundo do mar.  Pode ser que pretendam usar algum sonar de abertura sintética, uma tecnologia que permite gerar imagens do fundo do mar com precisão relativamente elevada, como essa abaixo, mostrando um navio naufragado:

sas_image

Mas ainda assim vai dar um trabalhão.  Só resta esperar que tenham sucesso.

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