Porque, de vez em quando, até que acerta.

Eu gosto de me imaginar como um livre-pensador.  E como livre-pensador, não me escravizo a pontos de vista pré-fabricados.  Por exemplo, há os que criticam meus recorrentes posts sobre Reinaldo Azevedo como um exemplo de “desalinhamento automático”: se ele acha A, eu automaticamente acho que tenho que achar B.  Nada mais falso.  Quando bato em Reinaldo Azevedo é porque analisei o que ele disse e discordei.  Da mesma forma, o comentário do Tio Rei à matéria da Folha que reproduzo abaixo está aí porque o analisei e concordei com as críticas que ele faz ao Ministro da Cultura, Juca Ferreira:

E Caetano vai levar a prebenda da Lei Rouanet…

sábado, 13 de junho de 2009 | 6:09

Por Marcio Aith, na Folha:

“Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação para irmã Dulce ou para Madre Teresa de Calcutá.” Com essas palavras o ministro da Cultura, Juca Ferreira, indicou à Folha que irá rever a decisão que proibiu produtores do músico Caetano Veloso de captar patrocínio da Lei Rouanet para divulgar o novo CD do artista, “Zii e Zie”.

Em reunião em maio, a Comissão Nacional de Incentivo à Cultura (CNIC) decidiu que o projeto, no valor de R$ 2 milhões, não precisa da Rouanet por ser comercialmente viável. A CNIC é um órgão colegiado que pertence ao Ministério da Cultura. O ministro pode, a seu critério, rever as decisões da comissão. Ferreira negou ter sofrido pressões da empresária Paula Lavigne, ex-mulher e empresária de Caetano, para que a decisão fosse revertida:

“Ela não fez nenhum sauê, apenas ligou para mim e perguntou qual critério tinha sido utilizado para Caetano que ela não percebia que tinha sido usado para outras pessoas”. Leia a seguir a entrevista.

FOLHA- O sr. vai rever o veto a Caetano Veloso?

JUCA FERREIRA – A produção de Caetano entrou com o recurso, que vai ser analisado pelo ministério. Estou acompanhando. Evito ao máximo rever decisões da CNIC. Só quando ocorre um erro muito contundente procuro chamá-los à razão.

FOLHA- Que erro foi esse?

FERREIRA – O que houve é o seguinte. Não é possível aplicar um critério para um artista e não aplicar para outro. A lei atual não tem nenhum critério que diga que os artistas bem-sucedidos não podem ter seus projetos aprovados, e nem a nova deverá ter. No ano passado, quando eu intervim para aprovar o show da Maria Bethânia [a CNIC também tinha negado acesso da cantora à Rouanet], já tínhamos aprovado projetos da Ivete Sangalo, artista mais bem-sucedida comercialmente em todos os tempos. Não podemos sair discricionariamente decidindo, sem critérios legais.

(…)

FOLHA – O senhor diz que não há critério legal para negar o projeto de Caetano Veloso. Se não existe critério, por que musicais como “Peter Pan” e “Miss Saigon”, e exposições como “Leonardo da Vinci” e “Corpo Humano” foram negados?

FERREIRA – Não vou aqui discutir casos.Frequentemente há erros, eu tenho dito isso. É justamente a falta de critérios que cria ambiente para julgamentos subjetivos. Um dos objetivos da reforma da lei é adotar critérios previamente legitimados pela discussão pública.

FOLHA – Não há uma contradição entre o espírito da reforma da Lei Rouanet, baseada no uso de dinheiro público para quem precisa, e a decisão de estender a lei a Caetano, um artista consagrado?

FERREIRA – De modo algum. O show já está em turnê, cobrando um preço. Seus produtores se dispuseram a reduzi-lo para pouco menos da metade se for incorporado dinheiro público. Ao que parece, o ingresso cairia para R$ 40 inteira, e R$ 20 meia. Isso possibilita a ampliação de pessoas na plateia. Atende a uma demanda nossa, a de que um artista bem-sucedido amplie seu público. Não é contraditório. Queremos uma política cultural sólida, mas não faremos isso sem os grandes artistas brasileiros. A única coisa que apontamos é que, da maneira como a lei é hoje, os artistas novos, de diversos Estados, não têm acesso à lei. Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação de irmã Dulce nem de Madre Teresa de Calcutá. Um artista conhecido pode ter dificuldade de conseguir patrocínio para uma obra experimental, ou pode ser do interesse público abaixar os preços de um espetáculo popular. Deve-se avaliar economicamente cada projeto, o que hoje a lei sequer prevê. A discussão não está aí. “

O comentário de Reinaldo foi o seguinte:

“Comento

Este bogueiro já se declarou contra subsídio até para feijão, como sabem. Ou jamais seremos eficientes na produção de feijão. Simples e óbvio assim. Imaginem esse papo de subsidiar cultura…

Mas vá lá. A coisa está aí. Juca Ferreira, coitado!, chega a ser patético, bisonho. Sabe que Caetano, se quiser, pode fuzilá-lo com três ou quatro palavras, que seriam publicadas em todos os jornais. E por quê? Porque, se pode haver dúvida sobre se é ou não o mais importante artista popular brasileiro, uma coisa está fora de debate: é o mais influente. E, obviamente, não tem problemas para atrair público a seus shows. Se um Caetano precisa de Lei Rouanet, os outros artistas precisam de muleta. Tenham paciência!

É uma piada. Ao justificar, no entanto, a revisão da decisão, concedendo ao cantor o benefício, Juca Ferreira se trai e evidencia uma espécie de má consciência que vai tomar conta da lei. Explico.

O espírito da revisão da lei, diz ele, é descentralizar a concessão de benefícios, atendendo a produções regionais, que não se orientem só por critérios de mercado etc. Bem, vocês conhecem essa cascata. É claro que, dado esse critério, Caetano estaria fora: tem público, não é um autor regionalista desconhecido, não faz arte experimental… Ao contrário: é a própria filha da Chiquita Bacana…

Mas aí é Juca Ferreira quem demonstra o que realmente pensa dos tais artistas fora do mercado que serão apoiados pela Lei Rouanet: “Não sou masoquista para trabalhar só com artistas malsucedidos. O ministério não tem vocação de irmã Dulce nem de Madre Teresa de Calcutá.”

Sacaram? O que não for, digamos, coisa de mercado, como Caetano, é “artista malsucedido”… Pergunto: por que o Estado tem de dar subsídio a artista malsucedido? E os caminhoneiros malsucedidos? E os contabilistas malsucedidos? E os padeiros malsucedidos? Ah, bem, não vale perguntar sobre torneiro-mecânico malsucedido…

***

Bem, no mínimo, depois dessa Juca Ferreira merece ganhar a medalha de ministro mais atrapalhado que já passou pelas páginas do Diário Oficial.  Ele conseguiu dar uma declaração que desmonta a política do seu próprio Ministério.  Acho que Tio Rei captou com eficácia o paradoxo: se a política é pra ser descentralizadora, como pode a canetada do Ministro “recentralizar” o financiamento?

Mas tem mais dois detalhes que eu gostaria de trabalhar.

Primeiro:  a nova versão da Lei Rouanet, que ainda será enviada ao Congresso, contém um dispositivo chamado “vale-cultura”.  A idéia é, como vocês já podem imaginar, dar à população acesso aos bens culturais.  Pergunto: depois que o “vale-cultura” começar a funcionar, ainda haverá patrocínio estatal de artistas bem-sucedidos mediante o argumento de que é preciso dar acesso aos bens culturais?  Eu tenho minha aposta.

Segundo: eis o que disse Juca Ferreira quando da polêmica envolvendo o patrocínio do Cirque du Soleil, via Bradesco, com recursos de incentivo fiscal da Lei Rouanet:

Sobre o incentivo federal para o Cirque du Soleil, Juca Ferreira, secretário-executivo do ministério, diz que “um projeto cultural que não tem a preocupação de facilitar o acesso a um número cada vez maior de pessoas tem que ser viabilizado pelo mercado, e não por recursos públicos”.

O que será que fez o Ministro mudar de idéia?

***

UPDATE:

Em tempo: fui conferir o site Ticketmaster, que está vendendo os ingressos para o show do Caetano no Credicard Hall em São Paulo.  O menor preço é R$45,00 reais, meia entrada para estudante, poltrona do setor 2 _ um pouco mais que os R$ 20,00 informados pelo Ministro.

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