Tio Rei hoje bate bumbo em um confessadamente longo texto (“mais de 10 mil toques“, ele diz, orgulhoso, como aquelas crianças pequenas que chamam a mãe para ver o que fizeram no troninho).  Lead:  “HOJE, POPULAÇÃO APROVA LULA, MAS QUER SERRA“.  Será?

Os argumentos de Tio Rei já são conhecidos: Dilma é pesada, tem maior rejeição que Serra, o horário eleitoral ainda não começou mas a exploração eleitoral de Dilma sim, etc.  Mas há detalhes engraçados na argumentação do Tio Rei:

Enquanto Lula foi a Heloisa Helena do seu tempo, jamais se elegeu. Fazia-se o principal nome da oposição, mas não chegava lá porque, como é mesmo?, queria “mudar tudo” — inclusive o que não saberia ou não poderia mudar. Em países em que as instituições funcionam mais ou menos regularmente (e, no Brasil, até a ditadura se esforçava para parecer normal), esse comportamento costuma ser rejeitado. O petista se elegeu quando deixou claro que, no dia seguinte, se eleito, a vida continuaria seu curso. Hoje, o principal candidato da oposição, Serra, caso chegue à Presidência, dará continuidade à continuidade que Lula deu ao governo do antecessor. Entenderam? Assim, é perfeitamente possível que o eleitor, mesmo satisfeito com um governo, escolha alguém da oposição.”

A tal “continuidade da continuidade me faz perguntar porque motivo, então, Reinaldão se cobre de brotoejas quando se fala em terceiro mandato, até porque segundo mandato nunca pareceu demais para ele.

Mas o que eu queria analisar neste parágrafo é a idéia, meio subentendida no texto,  de que a “Carta ao Povo Brasileiro” (que se inicia com a frase “O Brasil quer mudar“…) salvou Lula por significar um compromisso com a continuidade.  Vejamos o gráfico das intenções de voto no decorrer de 2002, segundo o Instituto Datafolha:

eleicoes2002

Bem, a “Carta ao Povo Brasileiro” é de 10 de julho de 2002.  Nessa data, Lula realmente experimentava uma queda nas intenções de voto, mas quem subia não era a “continuidade” serrista (que aliás ia ladeira abaixo), era Ciro Gomes.  E Ciro, sabe-se, não representa nenhuma idéia de estabilidade.

Tio Rei continua, avaliando o “fator Serra”:

E, para encerrar este bloco, há o fator Serra. Faltam dados qualitativos nessa pesquisa. Mas os partidos certamente os terão. O eleitorado só persiste durante tanto tempo numa escolha se reconhecem no candidato qualidades que julga importantes para o exercício do poder. O governador de São Paulo, por mais que os petistas tentem negar, tem sua história política ligada à reparação social. Ainda que o PT tente pespegar a pecha de “neoliberal” no tucano, a campanha não cola. E não cola porque a contrapelo dos fatos. Levantamentos passados em disputas para outros cargos indicam que Serra é tido como competente, inteligente, honesto — características, felizmente, apreciadas pelo eleitorado. Se não é prudente, numa disputa, que Serra parta para cima da “figura Lula”, também não é prudente o PT tentam desconstruir uma imagem que já está consolidada.

É bem verdade que em política tudo muda.  Mas sabem qual era a rejeição de Serra em 2002?

rejeicao

O texto da Isto É da época dizia:

O que também está ajudando a consolidar a onda Lula no País, em termos técnicos, é o alto índice de rejeição ao tucano Serra: 52%. Este número cruzado com o limite de votos que Serra pode obter em 27 de outubro (leia quadro) faz com que a rejeição se eleve negativamente em meio ponto porcentual, passando para 52,5%. Para Ricardo Guedes, diretor do Instituto Sensus, a situação eleitoral de Serra é muito difícil. “Pela experiência que nós temos, um candidato com 40% ou mais de rejeição terá problemas para se eleger no segundo turno,” afirma. Já o presidente da CNT e vice-governador eleito de Minas Gerais, Clésio Andrade (PFL), acredita que não existem fatos novos capazes de mudar o quadro eleitoral. “O povo está acreditando em Lula.”

Bem, não se pode dizer que Serra não fosse conhecido.  Em 2002, ele já havia sido Deputado Federal, Senador, Ministro do Planejamento e Ministro da Saúde.  E sua exposição na mídia era permanente.  Pode ser, de fato, que ele tenha “herdado” rejeição do governo FHC, porém.

Tio Rei meio que conclui voltando à duplicidade “continuidade vs mudança”:

Assim, parece haver no eleitorado, até agora, um paradoxo: está contente com o governo Lula, mas prefere Serra. Estaria ele escolhendo Serra para a continuidade? Justamente um nome da oposição? Quem entendeu o que escrevi até agora vai responder: “Sim e não”. Mas esse tipo de contraste não basta neste blog. É preciso explicar. Sim, o eleitor não quer mais saber de grandes solavancos — já disse: só elegeu Lula quando este deixou claro que ofereceria mais do mesmo, mas com a sua marca pessoal, que, pretendem alguns e ele próprio, é a maior inflexão social. O o eleitor entende que Serra não significa um tranco no que está em curso. Então ele pode ser, nesse estrito sentido, a continuidade.

Mas também pode encarnar a mudança do que tem de ser mudado. A saúde no país, por exemplo, segue sendo um descalabro, como é público e notório. Serra foi o ministro que deu um salto de qualidade na área. E lá o setor ficou estacionado. A segurança pública, que depende, em grande parte, de ações do governo federal, ficou para as calendas. Recuperar as promessas do governo Lula na área e as realizações vai demonstrar a distância gigantesca entre discurso e prática efetiva. Ao fim de 2010, quando o PAC for confrontado com os fatos, vai-se verificar que o governo Lula é ruim de realizações — a despeito de tanto discurso. Em suma, há muito que mudar.”

Caracterizar Serra como a continuidade ao governo de alguém que ele já demonizou, e ao mesmo tempo como um “novo” que tem o histórico que ele tem, será uma tarefa hercúlea quando começar a chover fogo sobre sua candidatura.

Tio Rei também aposta que Dilma não decola.   Pois como uma imagem vale por mil palavras, tempero a análise reinaldina com um só gráfico sobre as eleições de 1994, retirado do site do Instituto Datafolha:

eleicao1994

(clique para ampliar)

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