Hoje saiu no Estadão a seguinte matéria:

Gastos com armas crescem 50% na América do Sul em 10 anos

Corrida do Brasil para ser potência regional e investimento colombiano contra Farc alavancam investimentos

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo Tamanho do texto? A A A A

GENEBRA – A corrida do Brasil por se tornar uma potência regional, aliado aos gastos do governo colombiano com armamentos, fez com que o dinheiro gasto com armas na América do Sul tenha sofrido um aumento de 50% em apenas dez anos. Os dados foram publicados nesta segunda-feira, 8, pelo Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo.

A alta nos gastos militares da região estaria sendo gerada pela “corrida do Brasil pelo status de potência regional”, além do aumento dos gastos da Colômbia para lidar com as Farc. Em termos mundiais, 2008 registrou um recorde absoluto em termos de recursos para o setor militar. Nunca na história o mundo gastou tanto com armas como no ano passado. Foram US$ 1,4 trilhão, uma alta de 45% em relação aos últimos dez anos. No total, o mundo gastou 2,4% de sua riqueza para a compra de armas. O valor seria equivalente ao gasto de US$ 217 por habitante.”

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Um problema: o relatório anual do SIPRI (Stockholm International Peace Research Institute ) é pago.  Não sei se o jornalista teve acesso ao texto integral ou fez o mesmo que eu: leu os sumários dos capítulos que, estes sim, estão disponíveis gratuitamente.

De fato, no Yearbook 2009, aparece a frase:

In South America, Brazil continued to increase spending as it seeks greater regional power status.

Bem, a menos que o texto integral traga outra escolha de palavras, não dá para entender como “seeks greater regional power status” virou “corrida do Brasil pelo status de potência regional“.  Parece frescura, mas o vocábulo “corrida”, quando aplicado à questões militares, suscita logo seu complemento: “corrida armamentista”.  E daqui a pouco dá-lhe Reinaldos Azevedos da vida dizendo que Lula quer unir-se à revolução bolivariana e peitar o Ocidente.

Até porque seria bom ter mais cuidado, e ler, por exemplo, o Yearbook 2008, do ano passado, que diz o seguinte:

SIPRI data show the volume of international arms transfers to South America in the period 2003–2007 to be 47 per cent higher than in 1998–2002. Despite attention-grabbing headlines and some evidence of competitive behaviour (e.g. the nature and timing of acquisitions by Brazil, Columbia and Venezuela), it seems unlikely that South America is in the midst of a classically defined arms race. Acquisitions have been primarily motivated by efforts to replace or upgrade military inventories in order to maintain existing capabilities; to respond to predominantly domestic security threats; to strengthen ties with supplier governments; to enhance domestic arms industry capability; or to bolster regional or international profile.

Mas o mais interessante mesmo foi a mágica que o Estadão fez com os números.  Abaixo, eu comparo a tabela da matéria do Estadão com a tabela que saiu no texto do Sipri:

paisesquemaisgastaram

Não é bacana?  Se você ler apenas a matéria do Estadão, ficará com a impressão de que segundo o relatório do SIPRI o Brasil é o décimo-segundo país que mais gasta em armas no mundo.  Quando, na verdade, o Estadão aparentemente fez uma quebra e adicionou mais dois países, Coréia do Sul e Brasil, e tascou-lhes o ônzimo e dôzimo lugares _ embora essa colocação possa até ter alguma razão, segundo outros levantamentos.

O Estadão também furtou-se a nos dar a outra coluna, que mostra o gasto de cada país como percentual do gasto total mundial.  Fazendo a conta rápida, vemos que o bananão aplica seus cobres no que se constitui em 1,23% dos gastos militares mundiais.  Bem, é bem menos que a participação brasileira no PIB mundial, por exemplo (2,31%, segundo a Wikipedia, projeção para 2009).  Ademais, os gastos de todos os outros países é bolinho se comparados aos gastos norte-americanos.