Como alguns dos 4,5 leitores do blog já devem estar sabendo,  o Deputado Jackson Barreto,  do PMDB, botou na rua uma proposta de Emenda Constitucional permitindo o terceiro mandato.  Deu no Valor:

BRASÍLIA – A proposta de emenda à Constituição (PEC 367), que abriu a possibilidade de um terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e para os atuais governadores e prefeitos, terá tramitação normal na Câmara dos Deputados, assim como tem outras PECs. A informação foi dada pelo presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP), logo após o deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) apresentar a proposta para tramitação, na tarde de hoje.

(…)

O primeiro signatário da PEC, Jackson Barreto justificou a apresentação da proposta afirmando que ela é um reconhecimento do povo nordestino ao trabalho que o presidente Lula tem feito em favor deles. “É o reconhecimento do Nordeste ao trabalho e às políticas públicas do governo do presidente Lula. Eu acho que, em um momento de crise que o país atravessa, é muito melhor sermos conduzidos por alguém que tem credibilidade interna e externa”.

Segundo Barreto, a proposta foi assinada por 194 deputados. Dessas assinaturas, 15 seriam de parlamentares da oposição, sendo 11 do DEM e quatro do PSDB. A informação ainda não foi confirmada pela Secretaria-geral da Câmara.” [grifo meu]

Curiosamente, o Estadão noticiou a PEC assim:

BRASÍLIA – O deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) protocolou nesta quinta-feira, 28, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê o terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele informou ter conseguido 194 assinaturas, sendo 80 delas de integrantes do PT e PMDB.” [grifo meu]

O Correio Braziliense, assim:

O deputado Jackson Barreto (PMDB-SE) protocolou hoje a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que prevê o terceiro mandato para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele informou ter conseguido 194 assinaturas, sendo 80 delas de integrantes do PT e PMDB. “Essa PEC é um reconhecimento do Nordeste às políticas públicas do presidente Lula. Em momento de crise, é melhor que sejamos conduzidos por alguém com credibilidade externa e interna”, afirmou. A PEC prevê a realização de referendo popular no segundo domingo de setembro deste ano para que o terceiro mandato possa ser instituído.” [grifo meu]

Engraçado que o Estadão e o Correio chamem a atenção para as assinaturas do PT e PMDB _ o que não é notícia _ e se esqueçam de falar dos deputados do DEM e do PSDB que assinaram o treco, o que, isso sim, é notícia.

Como não poderia deixar de ser, Tio Rei foi muito solícito e rapidamente apresentou-se para apagar o incêndio:

Falei há pouco com o deputado Rodrigo Maia (RJ), presidente do DEM. Quer dizer, então, que a emenda do terceiro mandato surge com o apoio de DEM, já que conta com a assinatura de 11 deputados do partido?

Ele me respondeu o seguinte: “Olhe, o partido não vai polemizar em torno de um tema que já nasceu morto. Todo mundo sabe como funciona isso. Muitos parlamentares dão a sua assinatura na base da camaradagem, não significa que concordem com a proposta. Esse negócio não tem a menor chance de prosperar”.

Maia trata de uma questão real. Essa camaradagem existe. Mas acho que já passou da hora de parar com essa prática. Eu estava na Folha ainda, acho que foi em 1996, e fizemos uma emenda extinguindo a República e tornando o Brasil, novamente, colônia de Portugal. Evidentemente, tratava-se de um absurdo, que esbarrava em cláusulas pétreas da Constituição. E conseguimos o número necessário de assinaturas para a emenda ser ao menos apresentada.

Acho péssimo que deputados de quaisquer partidos dêem sua assinatura a propostas sem nem saber do que se trata. Mas também resta evidente que a esdrúxula proposta do terceiro mandato NÃO CONTA com o apoio do DEM ou dos tucanos.”

Agora vamos lá: não dá pra engolir esta história de “camaradagem” assim.  Isso devia se transformar em um escândalo.  Afinal, os deputados dos partidos que querem nos governar algum dia assinam uma proposta que inviabiliza este projeto, assim por “camaradagem”?  Antes da “camaradagem” por seus colegas não devia vir a fidelidade a seus eleitores?

Por outro lado, acho que Tio Rei, querendo “naturalizar” a coisa (“Essa camaradagem existe“), se enrola um bocado.  Afinal, como explicar esta frase?

Eu estava na Folha ainda, acho que foi em 1996, e fizemos uma emenda extinguindo a República e tornando o Brasil, novamente, colônia de Portugal. (…) E conseguimos o número necessário de assinaturas para a emenda ser ao menos apresentada.”

Como é que um jornalista da Folha “faz uma emenda extinguindo a República“?   Querendo mostrar que a tal “camaradagem” seria a coisa mais comezinha do mundo, Tio Rei expôs algo que não devia?  Cá entre nós: acho que isso dá processo.  Tio Rei, explique-se aí, senão para nós pelo menos para os seus fiéis seguidores…

***

A Folha já traz os nomes dos deputados do DEM e PSDB que haviam assinado a PEC:

Pressionados pelo comando do partido, os deputados Rogério Marinho (PSDB-RN), Antonio Feijão (PSDB-AP), Carlos Aberto Leréia (PSDB-GO), Eduardo Barbosa (PSDB-MG) e Silvio Torres (PSDB-SP) pediram a retirada de seus nomes à Secretaria Geral da Mesa Diretora da Câmara.

Depois foram sete parlamentares do DEM: Francisco Rodrigues (DEM-RR), Jorge Khoury (DEM-BA), José Carlos Vieira (DEM-SC), José Maia Filho (DEM-PI), Walter Ihoshi (DEM-SP), Clóvis Fecury (DEM-MA) e Fernando de Fabinho (DEM-BA). Por último, o deputado Félix Mendonça (DEM-BA), o que motivou a suspensão da tramitação da PEC.”

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