Tio Rei em outubro de 2007:

O terceiro mandato de Lula e os líderes sem liderança do PSDB

Não vou sugerir a vocês que recorram ao arquivo do blog ou ao Google para procurar as vezes que escrevi que haveria a tentativa — ao menos ela — de abrir caminho para Lula emplacar o terceiro mandato. Até batizei o esforço, numa alusão aos apoiadores de Getúlio Vargas, de movimento “queremista”. Era claro como o dia que isso seria tentado. Todo o discurso do Apedeuta, de fato, prepara o terreno para o “queremos Lula”. Pode dar certo? É claro que sim. Seria um “golpe”, como diz o senador tucano Arthur Virgílio (AM)? Lamento: se alguém apresentar uma emenda constitucional e se ela for aprovada pelo Congresso, golpe não é. O trágico, meus caros, não é haver petistas e outros aliados pensando no assunto (Lula, aliás, não pensa em outra coisa). O trágico é sabermos que, em larga medida, o governo só não arranca essa emenda do Congresso se não quiser.”

Tio Rei em maio de 2009:

TERCEIRO MANDATO DE NOVO? ESQUEÇAM ESSA CONVERSA

E o terceiro mandato de Lula voltou a ser tema das conversas — os petistas é que voltaram a tocar no assunto, num misto de ameaça e chantagem com o processo político. Por que isso agora? Responderei a essa pergunta. Antes, algumas considerações que afastam a fantasmagoria.

Nada impede que um parlamentar apresente um emenda — emenda constitucional — propondo a chance de um terceiro mandato. Ou da reeleição ilimitada, a exemplo de Hugo Chávez. Lula gostaria de ficar indefinidamente por aí? Gostar, ele gostaria. Se pudesse, seria imperador. A questão é saber se pode — isto é, se dispõe de força para tanto — e se seria prudente com a sua própria biografia. E a resposta para essas duas questões é uma só: “Não!”

Vamos primeiro a um impedimento que é de ordem prática. Para ser aprovada, uma emenda precisa do apoio de três quintos da Câmara e do Senado em duas votações em cada Casa. A base governista na Câmara é literalmente monstruosa. Oficialmente ao menos, ela é composta por 383 dos 513 deputados. Uma emenda propondo a chance do terceiro mandato precisaria de 308 votos. Seria “bico”, como se diz por aí? Acho que não. O custo de uma mudança como essa seria incalculável. O balcão de negócios que teria de ser aberto para pagar o preço desconstruiria o último ano do segundo mandato e certamente comprometeria o próximo. Mas vá lá: há uma boa margem para defecções.

No Senado, no entanto, as coisas se complicariam um pouco mais. Juntos, DEM (14), PSDB (13) e PSOL (1) contam com 28 senadores. Duvido que qualquer um deles votasse em favor de um terceiro mandato. A emenda precisaria de 49 votos. Sobram 53 parlamentares. Aoi menos dois do PMDB votariam contra: Jarbas Vasconcelos (PE) e Mão Santa (PI). Restariam 51. Tenho alguma dúvida sobre Pedro Simon (RS), mas acho que também não embarcaria na aventura. Sobraram 50. E há outras defecções possíveis. Lançar-se ao esforço por um terceiro mandato, depois de reiteradas negativas, com o risco de ser derrotado, mais a possível desconstituição do governo? Duvido.

Até agora, listei dificuldades que são, digamos, circunstanciais. Há os riscos de outra natureza. Não há chance de um eventual terceiro mandato de Lula não acabar fazendo sombra nos dois primeiros. Ele sabe que a economia não voltará a crescer tão logo no ritmo em que vinha crescendo. O seu próprio governo está criando armadilhas para a gestão seguinte que não são pequenas, a começar da explosão de gastos públicos. Caso se eleja um petista ou aliado do PT, o Apedeuta continuará como condestável da República e elemento de contenção dos ditos “movimentos sociais”. Caso se eleja um nome da oposição, essa gente toda certamente vai dar muito trabalho. De toda sorte, os quatro anos vindouros serão bem menos açucarados. Estou certo de que Lula já se convenceu de que é melhor deixar que outro arque com o ônus. (…)Assim, ignorem essa história. Não passa de uma variante do terrorismo eleitoral de quem foi surpreendido por fatos que estão fora do seu controle.” [grifo meu]

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Interessante.  Tio Rei apresenta as seguintes razões pelas quais um não haverá um terceiro mandato:

a) dificuldade de passar uma emenda constitucional na Câmara;

b) dificuldade de passar uma emenda constitucional no Senado;

c) desinteresse em arcar com os ônus da crise.

Dessas 3 razões, as duas primeiras estavam tão presentes em 2007 quanto hoje.  Quanto à crise…

popululidade

A popularidade de Lula caiu, sim, mas ainda é muito maior do que era em outubro de 2007.  Claro que é difícil adivinhar por quanto tempo a crise perdurará, e de qualquer maneira é inviável acreditar que os níveis de consumo dos EUA serão retomados brevemente, mas há uma séria chance da crise ir embora ainda em 2010.

Então, minha opinião é a seguinte: não é o PT quem está fazendo terrorismo com um possível terceiro mandato agora.  Era Tio Rei quem fazia terrorismo com o terceiro mandato em 2007 e, agora que já viu que não vai mesmo rolar, precisa justificar o que disse antes…