A esta altura, suponho que meus 4,5 leitores já devem estar carecas de saber que um dos “Justices” (ministros do Supremo dos EUA), David Souter, enviou uma carta a Obama comunicando sua decisão de retirar-se da corte.  Abre-se, assim, uma nova vaga no mais alto escalão do Judiciário dos EUA.

A princípio, esta mudança não altera muito a “atual correlação de forças” na Corte.   Souter é conhecido por ser uma pedra no sapato dos republicanos _ um juiz indicado por Bush pai que, entretanto, mostrou-se um dos mais “liberais” juízes da história recente da Suprema Corte, responsável, entre outras coisas, por impedir a aniquilação de Roe vs Wade e por colocar-se na minoria que foi contrária à decisão que permitiu a George W. Bush ser ungido presidente dos EUA em 2000.  Obviamente espera-se que Obama substitua Souter por alguém também alinhado ao pensamento liberal (à americana) _ aliás, parece que Souter, um recluso que detesta o ambiente da capital e deseja ardentemente voltar para New Hampshire, seu estado natal, esperava o fim da era Bush para pedir seu boné, na certeza de que seria substituído por alguém que mantivesse o atual status quo da Corte.

Evidentemente, especula-se selvagemente em Washington sobre quem será o sucessor de Souter.  Há vários nomes na roda, inclusive o de Cass Sunstein, um scholar do direito muito próximo a Obama.  O Volokh Conspiration tem uma tese bem interessante dentre as que estão rolando por aí: a de que o que faria mais sentido seria Obama escolher agora alguém tão à esquerda quanto ele deseje, e deixar os liberais mais gradualistas para mais tarde.  A rationale é a de que Obama agora ainda é muito popular, está prestes a obter 60 votos no Senado (com a adesão do Senador Specter ao Partido Democrata e a possível posse de um outro Senador democrata para breve, em um estado onde o resultado da eleição ainda está em disputa), e as “midterm elections” podem diminuir a margem democrata em 2010.  Além disso, a História ensina: Reagan usou sua primeira vaga para colocar Scalia (um juiz conservador, mas palatável para certos democratas) no Supremo, mas teve sua segunda indicação rejeitada no Congresso (Robert Bork, um originalista radical e profundamente conservador).

Mas o que eu queria dizer aqui não era nada disso.  O que eu queria era transcrever essa passagem que fala da relação de David Souter com a mídia, em um post do Scotus Blog:

In recent months, he has allowed himself a few public appearances, in what was clearly a break from years when he determinedly sought to avoid celebrity or even innocuous mention.  He has indicated that one of his main reasons for continuing to oppose television or filmed coverage of the Court’s public proceedings was that that would give him and his colleagues vivid public personalities.

Que diferença, né gente?

***

UPDATE:

Mais sobre Souter e filmagens na Suprema Corte aqui.  Opinião dele: “só sobre meu cadáver”.

UPDATE2:

E não é que já rolou um debate sobre televisionamento das sessões do STF ano passado?

No início da TV, havia uma certa resistência de alguns ministros às transmissões. Mas esses ministros já se aposentaram. A atual composição do STF não levanta obstáculos à veiculação dos julgamentos, nem mesmo quando são flagrados bate-bocas entre ministros, o que vem se tornando freqüente no tribunal. Para Lula, o fato de os julgamentos serem televisionados estimula os ministros do Supremo a falar mais sobre os processos e a fazer mais críticas ao governo. O presidente acha que os ministros aproveitam a transmissão ao vivo para fazer “discursos inflamados”.

Na conversa com interlocutores do Planalto, Lula avalia que a TV virou “um elemento a mais” nos julgamentos do Supremo. Na visão dele, o julgamento se transforma em um espetáculo, influenciando o comportamento dos ministros. O presidente observa com freqüência que em nenhum outro País há esse tipo de transmissão de julgamento ao vivo. “Nem nos Estados Unidos”, costuma destacar. Apesar das críticas de Lula, não há sinais de que o Supremo modificará a grade de programação da TV Justiça. Gilmar Mendes é a favor da transmissão dos julgamentos ao vivo e sem edições.” [grifo meu]

Anúncios