Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. O anjo da história deve ter esse aspecto. Seu rosto está dirigido para o passado. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos, ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivel-mente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. Essa tempestade é o que chamamos progresso.

_ Walter Benjamin

Pois é, há um tempo atrás alguns dos 4,5 leitores do blog me questionaram sobre porque motivo eu dizia que Collor será visto sob uma luz diferente nos livros futuros de História.  Mas o que fazer se o sujeito vive fazendo modificações estruturais importantes por onde passa, independentemente de qual seja seu real objetivo?

Collor foi parar na presidência da Comissão de Infra-estrutura da Câmara, onde fez passar um ato que aumentou o rigor das sabatinas dos candidatos a preencher cargos nas diretorias das agências reguladoras.  Diz matéria do Valor:

De acordo com o ato aprovado pela Comissão de Infraestrutura, por proposta de Collor, a partir de agora o indicado precisa apresentar uma série de documentos antes não exigidos, comprovar condições técnicas e morais para exercer a função, fornecer certidões negativas do Fisco e revelar se tem parentes em empresas do setor relativo à agência para a qual está sendo indicado e se é réu ou autor em ação judicial.

Além disso, a apreciação passou a ser feita em duas etapas. Na primeira, o colegiado analisa o currículo e as informações prestadas pelo indicado. Foi o que aconteceu ontem. A segunda etapa é a realização da sabatina. Pela praxe anterior, a pessoa só era questionada de fato pelos senadores quando havia interesse político.”

Ou seja, agora o processo de sabatina verifica se o cúrriculo do candidato é consistente com o cargo para o qual ele se candidata _ o que deveria ser óbvio, mas, no nosso caso, não era.

E o pior é que sem querer Collor atirou no próprio pé, pois o processo de sabatina produzido por ele está se voltando contra candidatos do seu próprio partido, como é o caso de Ivo Borges, assessor de Gim Argello, do PTB:

Com relação ao assessor de Gim Argello, o questionamento da qualificação técnica para a ANTT foi feita pelo senador Gilberto Goellner (DEM-MT). O integrante do Democratas leu para os colegas o parágrafo primeiro do artigo 53 da lei 10.233, de junho de 2001, que regulamenta as indicações para membros da ANTT. 

Pelo dispositivo, os membros da diretoria – nomeados pelo presidente da República após aprovação pelo Senado – precisam ter “elevado conceito no campo de especialidade dos cargos a serem exercidos”. De acordo com o currículo de Borges, ele é assistente social, formado pela Faculdade de Serviços Sociais de Brasília, e tem pós-graduação em Comunicação Social. Nunca exerceu atividades diretamente ligadas a transporte. Ocupou vários cargos públicos, principalmente no Distrito Federal, onde foi conselheiro do Conselho de Assistência Social e secretário de Estado de Trabalho (2006).

 (…)

O episódio causa constrangimento político a Collor, que elegeu-se presidente da CI após vencer disputa com a petista Ideli Salvatti (SC). Gim Argello – principal padrinho político de Ivo Borges – é líder do partido de Collor, o PTB, e foi um dos articuladores de sua campanha à presidência da comissão. Collor também teve apoio do líder do PMDB, Renan Calheiros (AL).

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