Pois é, Tio Rei foi saudado como digno e civilizado pelos seus leitores, ontem, por ter produzido um post onde dizia o seguinte:

Será considerado um inimigo desta página aquele que ousar fazer o que faz a escória que combato: usar essa questão para atingir politicamente a pré-candidata do PT. A Dilma que combato é a que lidera a farsa política do PAC. A Dilma que luta, como todos nós, contra os seus males merece o meu aplauso.”

Atitude previsível dado o histórico do próprio RA.  A “dignidade” do sabujo de aluguel, porém, durou menos de 24 horas.  Hoje já se pode ler ali o seguinte:

O fato de eu ter considerado digna a admissão serena da doença e de ter alertado que vetaria comentários que achasse impróprios não quer dizer que ignore o óbvio aparato de comunicação mobilizado para dar conta da informação – que já tinha vazado para a imprensa. Ontem, os sites estampavam a foto de Dilma ao lado do ministro Franklin Martins (Comunicação Social), uma espécie de gerente da propaganda política do governo Lula. O anúncio da doença não escapou ao rigor profissional. Outro figura do ministério, qualquer que fosse, não teria merecido tal desvelo. A ministra não só é a gerente da mais formidável peça de ficção da história republicana – o PAC – como é a candidata de Lula à sua sucessão. Assim, doença, presente e futuro políticos se misturam.

Mais: os aspectos propriamente privados da moléstia foram mitigados para ceder lugar ao apelo ao coletivo. Dilma e Franklin não convocaram os repórteres para que a ministra falasse de suas dificuldades e dos desafios pessoais que tem pela frente. A mensagem não poderia ser mais clara:

“Obviamente o tratamento de quimioterapia é sempre algo muito desagradável. Mas assim como tantas mulheres e homens brasileiros que enfrentam esse desafio, […] tenho certeza também que vou ter um processo de superação dessa doença. Aliás, nós, brasileiros, temos esse hábito de sermos capazes de enfrentar obstáculos, de transpô-los e de sair inteiros do lado de lá. Acho que essa é a questão que está na pauta hoje para mim: enfrentar essa doença, que os médicos garantem que foi extirpada, e sair mais forte do lado lá“.

Como se vê, Dilma fala de si, mas também fala de todos os brasileiros. Nesse hora, apresenta-se como um exemplo e fala como quem está investida de uma representação – coisa que, a rigor, é falsa porque ministros não representam o povo, mas o presidente – ele, sim, eleito. Dilma está lá por vontade de Lula. Ao se apresentar como uma espécie de timoneira na superação de obstáculos, alude, é óbvio, ao futuro: a disputa eleitoral. É inútil negar que, a depender dos desdobramentos do caso, está lançada a semente publicitária da mulher que vence todas as dificuldades, inclusive aquela que mais apavora boa parte da humanidade – talvez a maior parte: o câncer.”

É claro que se Dilma ocultasse o problema, ganhasse as eleições e revelasse o assunto apenas depois de eleita, ganharia uma acusação de RA por omitir informações importantes para a decisão do eleitorado.  Aliás, a impressão que dá do discurso de Tio Rei é que a única forma neutra e não-eleitoreira de Dilma lidar com o câncer é morrendo…

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