Saiu uma matéria na FSP sobre os possíveis novos reatores nucleares a serem construídos no Brasil.  Mas a parte que achei mais interessante foi a que falava do depósito dos dejetos radioativos:

Depósito radioativo
Segue indefinida, no entanto, a localização do depósito para o combustível queimado nas usinas, ainda radioativo -cujo projeto detalhado é uma exigência ambiental para a entrada em operação de Angra 3, prevista para 2014. A construção da usina, interrompida nos anos 80, será retomada nos próximos meses. Está entre as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) concedeu no mês passado a licença de instalação de Angra 3. O documento é necessário para o início das obras. Em julho do ano passado, o órgão havia concedido licença para a construção do canteiro de obras da usina Angra 3.
Em dois anos, a Eletronuclear começará a construir, no município de Angra dos Reis, um protótipo do depósito, desenhado para estocar o combustível já resfriado por um período de 500 anos.
A ideia em discussão no governo é que haverá um leilão entre os municípios que se dispuserem a abrigar o depósito de lixo nuclear, em troca de uma compensação financeira.
A Folha teve acesso ao modelo do depósito planejado pela Eletronuclear. O presidente da estatal, Othon Luiz Pinheiro da Silva, descreve o projeto como uma espécie de “pombal” feito de concreto e isolado do solo.
O combustível usado nos reatores, depois de resfriado em grandes tanques instalados no interior das usinas, será acondicionado em ampolas de aço inoxidável blindadas, que, por sua vez, serão levadas à estrutura de concreto.
“Essa estrutura será construída em uma caverna, a salvo de um eventual ataque por aviões, totalmente segura”, sustenta o presidente da estatal. “É uma solução simples e engenhosa.”
O arranjo permitirá a reciclagem do combustível usado pelas usinas, baseado em urânio. A tendência é que o depósito venha a ser construído na região Sudeste, próximo de onde funcionam as três primeiras usinas nucleares brasileiras.
A construção de um depósito definitivo para o rejeito de alta radioatividade foi descartada na licença do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que autorizou a retomada das obras.
A definição de onde ficarão as novas usinas gera movimentos antagônicos. Governadores do Nordeste já disputam a primazia, sobretudo pela movimentação da economia local e a perspectiva de aumento de arrecadação de impostos. (…).” [grifos meus]

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A idéia de um leilão com “compensação financeira” para o aceite do depósito me causa mixed feelings.  Primeiro: a localização de um depósito nuclear, mesmo provisório, devia ser cercada de muitos cuidados técnicos, e não submetida a uma loteria.  Segundo: me parece que o processo de escolha é tão perverso que o município escolhido será, seguramente, um onde a população é mal informada e a elite política é ávida.

Mais: a idéia de “segurança” invocada pelo presidente da Eletronuclear é totalmente idiota.  Para projetos desta natureza, a maior preocupação não é com “ataques de aviões”, mas sim com que diabos pode acontecer com estruturas destinadas a sobreviver intactas por muitos séculos, às vezes milhares de anos.

Como diz a própria matéria, a idéia é que o repositório “provisório” possa durar 500 anos.  Bem, seria proveitoso levarmos em conta que estamos em 2009 e que há 500 anos atrás vivíamos o ano da graça de 1509.  Este ano é interessante porque provavelmente muito poucas famílias quatrocentonas paulistas teriam como dizer o paradeiro de seus ancestrais por esta época.  O que quero dizer com isto é que os principais perigos que podem afetar um depósito previsto para durar séculos é o esquecimento, e a consequente possibilidade de que pessoas bem intencionadas mas mal informadas possam ser vítimas de um incidente desagradável.  Lembrai-vos do episódio do césio em Goiânia, por exemplo.

Já o trecho que eu não entendi mesmo, e que pode ser um problema na redação na matéria ou não, é a parte que fala que o Ibama descartou a licença para um depósito definitivo.  Não dá pra entender se era a licença para um local proposto ou para a idéia de um depósito definitivo em abstrato.  Claro, a segunda hipótese é ridícula.  Mas eu gostaria de ter certeza.   🙂

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