Tio Rei fala sobre a demissão do presidente do BB.  Ele fala e eu comento:

DEMISSÃO NO BANCO DO BRASIL CHEIRA MAL, MUITO MAL

Quer dizer que o spread é alto no Brasil, e a culpa é do presidente do Banco do Brasil? Faz bem a oposição em exigir explicações do ministro Guido Mantega (Fazenda) e de Antonio Francisco Lima Neto, que foi defenestrado. Essa história cheira muito mal. E vou dizer por que é mister suspeitar de algum cadáver incômodo no armário.

Tá. Depois eu é que sou conspiratório.

Porque o governo está assumindo, com uma impressionante e desabrida desfaçatez, que está se imiscuindo na instituição segundo critérios que não seriam aqueles normalmente aceitos pelo mercado – isso para uma instituição que tem ações negociadas na Bolsa de Valores.

Ahnnn…médio.  Voltaremos a isso depois.

Na própria entrevista coletiva concedida em companhia de Lima Neto, Mantega chegou a falar que a nova diretoria terá um “contrato de gestão”, comprometida com a cobrança de taxas menores. É mesmo? Então se está acusando o presidente demitido de ter sabotado os interesses do país? Qual seria o seu interesse particular em manter elevado o spread? Ou ele praticava, vamos dizer, preços compatíveis com a saúde do Banco do Brasil, mas a saúde do Banco do Brasil começa a ser incompatível com a saúde do projeto político de Lula e Dilma Rousseff.

Pois é, o que é um “preço compatível com a saúde de um banco“?

A parte do interesse do ex-presidente é mais fácil de entender: dificilmente o sujeito não tinha um pacote remuneratório atrelado aos resultados do Banco.  Já dizer que o interesse de um banco é o mesmo interesse do País, é uma outra história.  Mas, de novo, voltaremos a isso já já.

A ministra e o presidente Lula estiveram num encontro com sindicalistas. Segundo testemunhos de alguns deles, ela não economizou e atacou gestores de bancos públicos que se comportariam como se fossem dirigentes de bancos privados. Voltando à coletiva, Mantega defendeu que o Brasil use seus bancos públicos para concorrer com os privados, oferecendo juros menores, para ganhar mercado. Como se vê, a mudança do dirigente de uma instituição com essa importância, feita de maneira um tanto brusca, teria raiz numa questão, admitamos, quase prosaica.”

Pois é.

Só no ano passado, o Banco do Brasil comprou a Nossa Caixa, o Banco do Estado de Santa Catarina (Besc) e o Banco do Piauí. Neste ano, já comprou 49% das ações do Banco Votorantim (uma operação que salvou o banco, deixando-o, no entanto, sob o cuidado dos antigos controladores – de pai para filho, mesmo…) e negocia a aquisição do Banco de Brasília (BRB) e do Banco do Estado do Espírito Santo (Banestes). E tudo é negócio realmente de vulto. Não se chega ao comandante de uma instituição como essa e se diz: “Você está demitido”, assim como quem declara: “Hoje é quarta-feira”.”

Ué, porque não?

Por que o governo, por intermédio dos ministros Guido Mantega e Dilma Rousseff, assume o risco de admitir uma interferência de caráter claramente político no Banco do Brasil? Isso me lembra a piada do sujeito que chega numa roda de amigos e diz: “Me contaram que aqui só tem corno e ladrão”. E todo mundo, imediatamente, se declara “ladrão”…

Onde está o caráter “político” da intervenção?  Por acaso Lima Neto é filiado ao DEM ou ao PSDB?

Traduzindo a piada para os desprovidos de tecla SAP: quem assume com muita rapidez o ruim pode estar temendo o pior.

Ele enrolou, enrolou, mas não disse porque a história “cheira mal”, e nem qual é o “pior”.  Na verdade, a questão é mais simples.

No mundo inteiro, há uma tensão entre a necessidade de evitar o tal do “risco sistêmico” presente no sistema financeiro e o exercício de políticas de defesa da concorrência.  Segundo a sabedoria tradicional (crescentemente desfavorecida diante da crise, diga-se de passagem, por ter gerado instituições “too big to fail“), bancos são instituições extremamente vulneráveis a crises de confiança, com o agravante que a falta de confiança em uma instituição pode propagar-se a outras, teoricamente aniquilando todo o sistema financeiro de um país.  Por isso, existem vários arranjos que na prática equivalem a uma “isenção antitruste” para o setor bancário.  Que, justamente por causa disso, aproveitou-se desse dilema de policy para aumentar a concentração do setor.

O problema é que quando você tem um mercado onde existem poucos atores,  há um tremendo incentivo para condutas coordenadas, isso é, a formação de cartéis.  Existe, portanto, uma grande chance que o tamanho do spread hoje embutido nas taxas de juros cobradas pelos bancos seja fruto de uma certa concertação entre as instituições financeiras.  Usar os bancos públicos para baixar o spread a patamares civilizados equivale, portanto, a uma operação de quebra de cartel.

Bem, exceto nas franjas mais radicais do movimento liberal, a maior parte do establishment econômico aceita que ações antitruste são essenciais em uma economia de mercado, no intuito de sanar falhas.  Idealmente, é claro, uma ação antitruste deveria assumir uma feição tradicional.  No caso, a ação antitruste tradicional envolve invadir os escritórios das empresas, apreender provas, prender dirigentes e atirar multas gigantescas contra as instituições envolvidas.

Exceto, é claro, pelo fato de que este não é o tipo de coisa saudável de se fazer contra instituições financeiras em épocas de crise.

Ou seja: a intervenção no Banco do Brasil é formalmente equivalente a uma ação anticartel.  As ações caíram?  Pois é, também cairiam no caso de uma ação anticartel tradicional.   O lucro dos acionistas vai diminuir?  É claro.  Aliás, a idéia é essa.

Anaeróbicos: bem vindos ao capitalismo por outros meios.