db051128

No Crooked Timber, Michel Berubé, amigão do Idelber, discute a noção de “estigma” (entre outras coisas, como a gafe de Obama, “Trovão Tropical”, queer theory, etc.).

Berubé tem um filho deficiente mental, logo, a questão é um pouco mais que teórica para ele.

Confesso que sendo um engenheiro de formação sou automaticamente alguém com “necessidades especiais” quando se trata de entender textos escritos por cientistas sociais, os quais, para mim, tendem a ser excessivamente palavrosos.  Nem por isso, porém, o post perde interesse.  Pelo que entendi, o texto do Berubé, no frigir dos ovos, pergunta-se qual o papel da linguagem, e em particular do humor, em uma possível empreitada de desestigmatização de condições hoje estigmatizadas, como a de “deficiente mental”.

Eu tenho bastante simpatia no poder curativo do humor.  Muitos anos atrás, ainda na faculdade, um trabalho de grupo me fez frequentar a casa de um colega de turma cuja família era muito católica.  A casa tinha uma grande sala com uma grande mesa, onde almoçávamos (o trabalho levou alguns dias para ser feito), e no meio de uma parede havia uma gigantesca foto de uma menina muito parecida com meu colega.  Claro que a primeira coisa que fizemos foi perguntar quem ela era _ ao que nosso amigo respondeu, “nós não falamos sobre ela”.

Estigma e tabú andam muitas vezes de mãos dadas, e o problema é que transformar um assunto em tabú é também criar um estigma: nosso amigo era “aquele sobre cuja irmã ele não fala”, condição evidentemente estimulada pela curiosa prática de deixar em indecente evidência um assunto acerca do qual buscava-se criar um silêncio ensurdecedor.  O fato é que até hoje não sei que diabos aconteceu à menina, mas  não posso evitar de até hoje pensar o pior.

É claro que não estou aqui para pontificar sobre como famílias que atravessam tragédias (incluindo a de ser extremamente católica) devem lidar com a dor, mas genericamente creio que uma percentagem expressiva das situações de mal-estar são criação de nossas próprias cabeças, e portanto é uma boa idéia cultivar um modo de ver as coisas menos trágico.  E o humor pode nos ajudar nisso.