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Tio Rei provando que Olavão estava certo

I´m back.

E que maneira melhor de recomeçar os trabalhos no blog, senão comentar mais um post do Tio Rei?

Há muita coisa para comentar ali, aliás, como o fato do Tio Rei ter se convertido no defensor dos fracos e oprimidos, a começar por Eliana Tranchesi e a diretoria da Camargo Corrêa.  Mas eu prefiro me ater à leitura que Tio Rei faz de Gran Torino.

Temos visto por aqui como a anaerobicidade, ainda atordoada com Obama e mais atordoada ainda com a crise que se abateu sobre o Deus Mercado, anda procurando alívio na busca de uma “vitória” no front cultural.  Isso envolve uma certa dose de wishifull thinking absoluta cara de pau, como por exemplo a abstrusa identificação de “Brazil, o filme” como um libelo conservador.  Tio Rei adere ao movimento, celebrando em Gran Torino uma hipotética filiação conservadora, em um post intitulado “Gran Torino: o melhor e mais conservador dos filmes de Clint Eastwood(…)“. Um post cuja densidade intelectual é daquelas que o fazem poder ser escrito com um arpão no cérebro.

Páginas e páginas já se escreveram sobre tio Clint e seus filmes e personagens.  Pauline Kael, nos anos 70, baixava a lenha em Clint por causa de Dirty Harry, a quem chamava de “fascista”.   Curiosamente, a direita parece se esquecer de que há não muito tempo também baixava a lenha em Clint por causa de Million Dollar Baby (“Menina de Ouro”, no Brasil):

Rush Limbaugh used his radio megaphone to inveigh against the “liberal propaganda” of “Million Dollar Baby,” in which Mr. Eastwood plays a crusty old fight trainer who takes on a fledgling “girl” boxer (Hilary Swank) desperate to be a champ. Mr. Limbaugh charged that the film was a subversively encoded endorsement of euthanasia, and the usual gang of ayotallahs chimed in. Michael Medved, the conservative radio host, has said that “hate is not too strong a word” to characterize his opinion of “Million Dollar Baby.” Rabbi Daniel Lapin, a longtime ally of the Christian right, went on MSNBC to accuse Mr. Eastwood of a cultural crime comparable to Bill Clinton having “brought the term ‘oral sex’ to America’s dinner tables.

No caso de “Menina de Ouro”, Tio Rei faz aliás uma interpretação do filme pelo que ele não diz:

Assistiram ao filme Menina de Ouro (Million Dollar Baby), do excelente Clint Eastwood. Quando o ex-boxeador e treinador Frankie Dunn (o próprio Clint), um irlandês católico, pede ao padre autorização para desligar os aparelhos que mantêm viva Maggie Fitzgerald (Hilary Swank, estupenda no filme), ouve uma frase: “Não faça isso; você vai mergulhar num abismo do qual nunca mais vai sair”. No caso, ela estava consciente e pedia isso ao amigo.

Ele não ouve o padre. E nunca mais se ouve falar dele. Não ficamos sabendo o que vem depois do abismo.

Pois é, no caso de Gran Torino ele faz a mesma coisa:

Prestem atenção, nas cenas finais, ao close dado num isqueiro Zippo, espécie de símbolo dos soldados americanos na Segunda Guerra, na Guerra da Coréia e na Guerra do Vietnã. Eastwood ainda acredita no poder civilizador da América.

Faltam-me palavras para descrever o quão lascada está uma filosofia política que regojiza-se com o fato do “poder civilizador da América” materializar-se em um artefato cujo design, no que tange ao principal (“windproofness”), foi copiado de um predecessor austríaco.  Ainda mais por tratar-se de um país onde um governo republicano aderiu ao Framework Convention on Tobacco Control (em maio de 2004).

Mas então porque não perguntar ao próprio Clint o que diabos ele acha da vida?  Por sorte, há uma matéria bastante reveladora sobre ele no Guardian, datada de junho de 2008.  Ali ele diz o seguinte sobre sua visão política:

“I don’t pay attention to either side,” he claims. “I mean, I’ve always been a libertarian. Leave everybody alone. Let everybody else do what they want. Just stay out of everybody else’s hair. So I believe in that value of smaller government. Give politicians power and all of a sudden they’ll misuse it on ya.

E sobre a eleição daquele ano:

Has he declared for anybody in this electoral cycle? “You know, I haven’t really,” he says. “My wife used to be an anchorwoman in Arizona, so she knew John McCain and she liked him and I kinda liked him. In fact, we sort of supported him when he was running the first time against Bush eight years ago. But we haven’t been active as yet. It’s kind of a zoo out there right now. So I think I’ll kinda let things percolate.”

Parece que Clint já não anda tão certo do poder civilizador da América, ou pelo menos, do partido republicano.  

Está claro que Clint não é um “liberal” no sentido americano do termo.  Também duvido que ele tenha qualquer simpatia pelo Partido Democrata.  Mas não creio que ele se sentiria confortável como um “companheiro de viagem” na maior parte das viagens de Reinaldo Azevedo…