Realmente, cada vez mais me convenço que eu e a anaerobicidade vivemos em mundos diferentes.  Isso se revela tanto em situações complexas como nas mais comezinhas.

Ato 1: Pedro Sette Câmara comenta a polêmica da excomunhão dos parentes da vítima e da equipe médica que fez o aborto da menina estuprada.

Na boa, acho até que ele, que não é burro, tenta criar uma saída pela tangente para a ICAR relativamente ao tratamento dado à mãe da menina, em detrimento do conservadorismo de enfrentamento do arcebispo de Recife e Olinda, ainda que preservando sua retaguarda de gente mais anaeróbica que ele (“não sou um canonista”, etc).  Pelo menos é o que depreendo desta frase:

De todo modo, entre as condições necessárias para a excomunhão, estão 1. a consciência de que a Igreja prescreve a pena de excomunhão para determinado ato (como a prática do aborto) e 2. a ação deliberada e suficientemente livre. Creio que 1. a mãe não sabia da pena (normalmente só os militantes anti-aborto sabem dela) e 2. a mãe estava pressionada demais pelo terror da situação e até pela assistente social.”

Até aí…tudo bem.  Mas veja o tipo de preparação esquisita que ele faz para o post:

Vamos começar com dois links para a edificação geral:

1. Grávida de gêmeos em Alagoinha: o Pe. Edson Camargo, que acompanhou a família da menina estuprada até o ponto em que uma assistente social o permitiu, conta o que presenciou.

2. Menina estuprada de 9 anos é a mãe mais jovem do Peru: o que sugere que é possível ter filhos com essa idade. Não sei como era o caso da menina de Alagoinhas, se havia alguma complicação; mas, como não li nenhum boletim médico, eis aí ao menos algum contexto.

Bom, o primeiro link traz o “outro lado”, que é a descrição do que teria contecido pelo ponto de vista do pároco de Alagoinhas, que tentou acompanhar o negócio de perto.  Ele insinua, de fato, que uma ONG coagiu os parentes da menina a aceitarem o aborto:

Ficamos a nos perguntar o seguinte: lá no IMIP nos foi afirmado que a criança estava correndo risco de morte e que, por isso, deveria ser submetida ao procedimentos abortivos. Como alguém correndo risco de morte pode ter alta de um hospital. A credibilidade do IMIP não estaria em jogo se liberasse um paciente que corre risco de morte? Como explicar isso? Como um quadro pode mudar tão repentinamente? O que teriam dito as militantes do Curumim à mãe para que ela mudasse de opinião? Seria semelhante ao que foi feito com o pai?

(..)

Na manhã da quarta-feira, dia 4 de março, ficamos sabendo que a criança estava internada na CISAM, acompanhada de sua mãe. O Centro Integrado de Saúde Amaury de Medeiros (FUSAM) é um hospital especializado em gravidez de risco, localizado no bairro da Encruzilhada, Zona Norte do Recife. Lá, por volta das 9 horas da manhã, nosso sonho de ver duas crianças vivas se foi, a partir de ato de manipulação da consciência, extrema negligência e desrespeito à vida humana.

Me parece que eles mesmos respondem à sua pergunta: a criança foi transferida de um hospital para outro com maior competência para tratar um caso tão grave.  Em nenhum momento o pároco se questiona sobre seus conhecimentos médicos.  Nem precisa: ele está no ramo de produção de anjinhos.

O segundo link já é bem mais complicado, e aponta para a seguinte notícia:

Menina estuprada de 9 anos é mãe mais jovem do Peru

LIMA, 2 dez (AFP) – Uma menina de nove anos deu à luz um menino neste sábado, fruto de um estupro, em um hospital público de Lima, informou o ministro peruano de Saúde, Carlos Vallejos.

O bebê nasceu com 2,520 kg e 47 cm e apresenta dificuldades respiratórias. Por isso, permanece na UTI.

A mãe precoce receberá ajuda psicológica, e seu filho terá toda assistência de que precisar, ressaltou o ministro Vallejos, após visitá-la.

“Ela permanecerá no hospital todo o tempo que for necessário até que seu filho e ela estejam em perfeitas condições”, declarou.

A garota foi vítima de abuso sexual de um primo de 29 anos, em um povoado pobre da província de Pachitea, no departamento centro-andino de Huánuco.

O caso comoveu o Peru, quando sua gestação foi revelada em setembro passado, tornando-a a mãe mais jovem do país.

Se eu bem entendi, Pedro Sette quer dizer que o fato da menina ter 9 anos não quer dizer nada, porque, ora bolas, meninas de 9 anos podem perfeitamente parir e portanto tornarem-se responsáveis por seus atosresponsáveis por atos de terceiros.

Isto me lembra, de novo, que parte importante da experiência de ser um anaeróbico é a de se imaginar capaz de julgar qualquer acontecimento, por mais complicado que seja, pela sua “intuição”, ignorando o que a ciência médica tem a dizer quanto à gravidez de meninas de 9 anos de idade.

***

Ato 2: Pedro Sette detestou Watchmen, e tenta demonstrar porque.  No processo, produz o seguinte argumento:

Comecei a odiar Watchmen porque ele me pareceu usar uma estratégia meio brasileira de sedução. “Olha só, nós éramos os super-heróis, mandávamos benzão, hoje estamos velhos e ferrados, mas ainda temos alguns truques na manga“. [grifo meu]

Não sei nem o que dizer.  Como assim, “estratégia brasileira”?  Alôoo-u, Pedro Sette, você viu “Cowboys do Espaço”?  “Impacto Profundo”?  “Gran Torino”? Se bobear o Rafael Galvão é capaz de citar uns quinhentos filmes AMERICANOS explorando esta temática.  Esse truque narrativo tem afinidade com um troço que tem até nome em um livrinho meio velho, a “Poética” de Aristóteles: peripécia.  Essa comichão por falar mal do Brasil que atormenta os anaeróbicos é caso, sei lá, para uma sonda anal.  Segue-se:

Parecia um show de Toquinho e Vinícius contando histórias do passado. Ou do MPB-4.”

Ou quatro anaeróbicos em uma mesa de livraria.  🙂

Mas o pior vem agora:

E a partir de um dado momento ficou claro o anti-intelectualismo do filme, que permeia uma pá de filmes. É sempre assim: os caras mais inteligentes acham que a humanidade não vale nada, e é preciso extingui-la; aí alguém se insurge contra eles, e os vence porque, com toda sua inteligência, esqueceram o coração. Em Watchmen isso só aparece pela metade: o “homem mais inteligente do mundo”, que também é um malvadão, realiza seu objetivo – mas, como o cara mais poderoso do mundo, o azul fosforescente, acaba concordando, não há coração que impeça a maldade. Os mais inteligentes sempre são maus e querem extinguir os menos inteligentes. O que demonstra, claro, que para aqueles “mais inteligentes” ser inteligente significa ser parecido com eles.”

Bom, agora complicou.  Pedro Sette não gostou de Watchmen por não gostou do filme que Watchmen poderia ter sido se fosse tão ruim quanto ele imagina, e não por ser tão ruim como ele imaginaria um filme ruim.  Porque, de fato, em Watchmen não existe a idéia de extinguir a humanidade _ pelo contrário, o plano de Ozymandias exige o sacrifício de uma pequena parte dela para salvar o restante (por mais idiota que seja a idéia).  Ou seja, Ozymandias pensava mais ou menos como a trupe anaeróbica que acha importante esmagar qualquer coisa que se mova na Faixa de Gaza para salvar a civilização judaico-cristã ocidental.

Mas enfim.  Tem gente pior fazendo crítica de cinema anaeróbica, como aquele cara que vê Deus em qualquer filme

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