Continuo me sentindo bonzinho e por isso vou traduzir uma coisa do Irish Times, via Crooked Timber:

A RYANAIR diz fala sério sobre planos de cobrar seus passageiros pelo uso do banheiro em sua aeronave. “Isso vai acontecer”, disse ontem  Michael O’Leary, executivo-chefe da empresa, a alguns jornalistas sobre a proposta que atraiuenorme publicidade mundial quando ele a apresentou como uma vaga possibilidade na semana passada.  O senhor O’Leary disse que os fabricantes de aeronaves lhe informaram que havia certas questões técnicas e de segurança sobre como utilizar um sistema de pagamento com moedas instalado nas portas dos banheiros, motivo pelo qual a proposta agora é que os passageiros usariam um cartão de crédito para ganhar acesso aos toaletes. Ele disse que se a companhia aérea fosse impedida de cobrar dos passageiros a entrada no banheiro, iria impor uma cobrança para que eles saíssem.

Mais tarde, o mesmo executivo voltou atrás na idéia, ao deparar-se com uma dura realidade:

“A Boeing pode colocar pessoas na lua, projetar caças e bombas inteligentes, mas não consegue conceber uma miserável mecanismo para possibilitar portas que aceitem moedas”, admitiu.  O senhor O’Leary também confessou que iss não seria possível também porque alguns “burocratas de Bruxelas” haviam decretado que os estabelecimentos onde são servidos alimentos e bebidas têm de fornecer banheiros gratuitos.”  [grifo meu]

Malditos burocratas, hein?

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Gostaria de saber se Tio Rei, que defende com unhas e dentes o direito de nascer, dedicaria algumas palavras em prol do direito de urinar.

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Mas vamos lá: eu sei o que um economista esperto diria sobre isso.  Seria algo mais ou menos assim:

Bem, é claro que a utilidade é maximizada quando as pessoas tem mais possibilidades de escolha.  A Ryanair tem concorrentes e, se você não quer pagar para ir ao banheiro do avião, tem outras opções, é claro.  Além disso, a discriminação de preços é algo eficiente, pois é claro que essa estratégia poderá se refletir em menores preços para as tarifas aéreas da Ryanair, visto que os passageiros que desejarem pagar para ir ao banheiro estarão subsidiando a tarifa dos que não precisam ir ao banheiro tão constantemente“.

Alguns problemas com essa idéia:

1) a partir do momento em que o ato de pagar para ir ao banheiro em um avião for uma característica encarada com naturalidade,  TODAS as companhias se sentirão compelidas a adotá-la _ exceto uma ou outra que vai cobrar dos seus passageiros um sobrepreço pelo luxo de poder ir ao banheiro sem pagar.

2) no novo equilíbrio, portanto, um maior número de companhias oferecerá a novidade _ e com isso a vantagem competitiva da Ryanair desaparecerá.  E assim os preços não necessariamente cairão _ ou se caírem em um primeiro momento, provavelmente voltarão coletivamente ao patamar anterior.  Até porque os banheiros, cujo custo maior para a linha aérea é o de existirem e tomarem o lugar de poltronas, continuarão lá.

Exceto, é claro, se a próxima novidade no conceito low-fare for o avião sem banheiros. Nesse caso sugiro que levem bastante Bom Ar.

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Não há dúvida que o conceito low-fare é interessante e trouxe amplos benefícios aos viajantes e à sociedade como um todo (bem, há controvérsias).  No entanto, também é verdade que se os passageiros fossem tratados como bagagem as tarifas aéreas possivelmente seriam ainda menores _ e se o conceito de não ser tratado como uma mala passar a ser entendido como um “luxo” (o que quase já é realidade), então fica claro que o milagre da possibilidade de escolher fica meio prejudicado.

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