Como é de praxe, a montanha pariu um rato ou, nesse caso, dois: Tio Rei finalmente escreveu seu post sobre o caso do aborto feito na menina de 9 anos, e, por força das circunstâncias, teve que escrever mais um corrigindo o primeiro.

No post das 18:31, Tio Rei adotou postura cautelosa, embora tenha trilhado o caminho que já adivinhávamos:

A decisão do arcebispo de Olinda e Recife, que fique claro, tem alcance apenas religioso. Para um fiel comum, não pertencente à hierarquia católica, seu peso é simbólico, sem conseqüências na vida, digamos, civil. Faço tal observação porque, a julgar por certas reações, ficou parecendo que médicos e familiares foram alvos de uma punição legal. Que se note: d. José atuou de acordo com o que está expresso no Direito Canônico. As circunstâncias do caso talvez devessem ter empurrado o arcebispo para uma posição de conciliação. O aborto implica a excomunhão automática, é fato. Mas ele está investido de poder para considerar circunstâncias atenuantes – e, nesse caso, elas são muitas.”

Às vezes, uma assertiva, para ser clara e fiel ao que se quer dizer, necessita ser expressa em palavras duras, até chulas.  Então, quanto a este argumento de Tio Rei, tenho a dizer o seguinte:

Alcance apenas religioso“, o caralho. “Peso simbólico” é o cacete.

Suponhamos que os médicos, apesar de desejarem realizar sua missão, e cumprirem a lei do país, tivessem voltado atrás por medo da repercussão do caso.  Então teríamos uma menina de 9 anos grávida, correndo possível risco de vida, devido à opinião da Igreja _ independentemente da menina ser católica, evangélica, budista ou animista.

O curioso aqui é que ainda assim Tio Rei joga para a platéia _ que no caso dele não deve ser formada apenas por linha-duras da direita católica _ e fala em “posição de conciliação” e “circunstâncias atenuantes”. Seria bom ele explicar então porque motivo neste caso pululam as tais circunstâncias atenuantes mas nos casos de ortotanásia onde a pessoa expressou seu desejo de não continuar vivendo artificialmente, não.  Até porque no post seguinte, das 20:55, ele diz o seguinte:

de fato, é incorreto afirmar que d. José excomungou este ou aquele; ele apenas fez o anúncio. A excomunhão é automática nesse caso;

Ué, se a excomunhão é automática, então como o Bispo poderia ter conciliado?  Como as atenuantes interviriam no processo?  E porque apenas a equipe médica foi excomungada, mas não os pais da menina?

Tio Rei, no afã de jogar para a platéia, errou, mas preferiu não admitir seu erro, ou disfarçar essa admissão como uma “observação”.  De fato, o que importa aqui não é o caráter conservador do bispo de Olinda e Recife: o que importa é que a barbárie está inscrita nos termos constituintes da ICAR.  No caso, vale a pena reproduzir uma das declarações de d. José:

“A lei de Deus está acima de qualquer lei humana. Então, quando uma lei humana, quer dizer, uma lei promulgada pelos legisladores humanos, é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor

Deve ser por isso que no seu primeiro post Tio Rei diz que o bispo “errou no tom”:

A aparente “crueldade” de d. José, como li em algum lugar, se assenta num princípio que, pouco importa o que digam os militantes da morte, protege a vida. O que me parece é que faltou ao bispo, zeloso dos princípios, pesar as circunstâncias para que sua decisão não restasse contraproducente: em vez de chamar a atenção para a defesa da vida, apenas reforçou, ao olhos do público, uma espécie de rigidez que parece ignorar as fragilidades humanas. Acertou no princípio; errou no tom. Em tempos em que tudo se faz pensando apenas no marketing, d. José é mesmo um prodígio de falta de tino publicitário.”

E ao concluir seu primeiro post:

Como resta, creio, evidente, acho que o bispo escolheu o caminho do rigor que confunde em vez do da compreensão que esclarece.

Repito: “errou no tom“, o caralho.  “Acertou no princípio“, o cacete. “Rigor que confunde“, patavinas.

A fala do bispo entrega todo o ouro que Tio Rei e a direita católica pretendem esconder da sociedade: que seu projeto é totalitário.   Que com eles não tem essa de “alcance apenas religioso“.  O bispo disse em alto e bom som: “se a lei humana é contrária à lei de Deus, essa lei humana não tem nenhum valor“.  É a versão ocidental da sharia.

Também é curioso notar como Tio Rei também entregou o ouro ao falar em “falta de tino publicitário”.  Sim, é isso aí, como Goebbels já sabia, a propaganda é a, er, alma do negócio.  Principalmente quando é enganosa e, no varejo da tolerância, as letras miúdas mostram que é a sharia o que estamos comprando.

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