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Parava de falar do que não entendo

O Pedro 7 ataca de novo _ mas pelo menos dessa vez ele não fala de mulher.

Ele fala de cinema, o que é quase tão constrangedor:

A CULTURA NÃO PRECISA DE MINISTRO ETC

Trecho de uma pequena palestra de Leopoldo Serran em 1986 (vejam bem: 1986):

“O hábito da passividade vem aos poucos atingindo a todos, inclusive aos artistas, e nós tivemos um bom exemplo disso quando foi criado o “Ministério da Cultura”. Como não podemos ou sabemos resolver nossos problemas, copiamos as soluções externas americanas ou francesas. E da França, normalmente o que ela tem de mais “pedante”, como o “cinema d’auteur”, a “Academia de Letras” e o “Ministério da Cultura”. Sobre o último, Jean Paul Sartre falou claramente: “A cultura não precisa de ministro”. Se é verdade que nenhum artista aceitou ocupar este posto, nenhum também chegou a contestá-lo, isto é, a cumplicidade com o poder e o dinheiro público vivida durante a ditadura, ensinou-nos a ficar “em cima do muro”. Assistimos em silêncio e nada foi dito.”

E o Pedro continua:

E eu posso complementar com o seguinte: generalizando mesmo, um problema sério do Brasil é o excesso de incentivos para a imoralidade. Óbvio que não estou falando de libertinagem sexual. Estou falando do tamanho do governo mesmo. Onde há burocracia, há propinas. Onde há excesso de leis, há excesso de gente burlando as leis. Onde há a possibilidade de pertencer a uma elite burocrática com emprego estável e regalias (em comparação com o setor privado), há o incentivo para que os mais educados (aqueles que têm o mais forte sentido de entitlement, de que têm direito a privilégios que os distingam da massa proletária ignara) convenientemente ignorem que sua renda vem do blood money arrancado do povo. Onde o Estado administra tudo, as pessoas acham que justiça é obter algum privilégio às custas de alguém já que é impossível não ser roubado para dar privilégios a outros.

A citação é interessante, mas o mais interessante ainda é sua descontextualização pelo Pedro 7, esse peralta.  Pois o artigo do Serran ostenta o seguinte trecho, também:

Sem a ajuda do Estado, a produção nacional não pode se sustentar.

Na verdade, o artigo do Serran está longe de ser apenas uma diatribe anti-Estado como faz parecer o Pedro 7.  Serran era um roteirista, e seu artigo versa sobre a fragilidade do roteiro na produção cinematográfica contemporânea à época em que ele escreveu _ o ano da graça de 1986.

Este outro trecho da fala do Serran é interessante:

Quanto ao cinema, foi sob os auspícios da “ideologia desenvolvimentista” do final dos anos 50, que a classe media começou a “falar com voz própria” – mediante influências estrangeiras. O “cinema de autor” foi uma importação francesa – cujo principal teórico era o cineasta François Truffaut – e trouxe conseqüências desastrosas para o trabalho específico do roteirista. De repente, no Brasil, todo mundo virou autor e o roteiro perdeu sua função.
Ao se estabelecerem os governos militares, o dinheiro particular que financiava o cinema desapareceu; e nós caímos na dependência da verba pública. Grupos de pressão se formaram, fortaleceu-se o cinema de autor e o roteiro continuou relegado. Mas para se saber o porquê do vazio do roteiro, há que se definir quem são os produtores e como eles foram formados na transação com o poder público. São dois os principais aspectos: o primeiro é que o dinheiro público não tem dono e passou a não ser importante o sucesso ou o fracasso de um filme para o produtor (há os que dizem que o dinheiro se ganha antes do filme e não depois).

Tenho a impressão que o Serran e o Rafael Galvão virariam bons amigos se tivessem se conhecido.  🙂

De qualquer maneria o discurso do Serran procura identificar porque motivo o roteiro continuou desimportante.  E é uma boa sacada porque sem um bom roteiro não há como transformar o cinema em indústria.  O Ministério da Cultura, reconhecendo isso, começou desde 2003 a botar na rua editais de apoio ao desenvolvimento de roteiros.  Já é um passo, embora eu ignore se o programa tem dado resultado.  De qualquer forma eu acho que a coisa seria mais eficiente se fosse trabalhada já dentro das faculdades de cinema.

O que é complicado no discurso do Pedro 7 é o fato dele ignorar totalmente as condições reais em que se dá a disputa pelo mercado no Brasil.  O cinemão das majors chega aqui com seus filmes já completa, ou parcialmente, amortizados pela sua performance no mercado local.  Isso significa que fora os custos de publicidade ele se incorre praticamente nos custos das cópias.   Já o cinema nacional tem que se pagar no mercado brasileiro, uma tarefa hercúlea.

Portanto, QUALQUER país fora os EUA tem mesmo que começar a se virar com verba pública.  O fato de que muitos filmes não dão resultado é preocupante mas não é em si uma anomalia: os produtores americanos também trabalham com o conceito de portfolio, pois sabem que “nobody knows“: apesar dos investimentos em roteiro, elenco, efeitos especiais etc., há um número de filmes que viram bombas, e vão direto para o mercado de TV.

O problema do Brasil, portanto, é formação de massa crítica, além é claro do nosso raquítico sistema exibidor que praticamente inviabiliza o break-even de um filme.

E, no entanto

A sequência “Se Eu Fosse Você 2” bateu novo recorde ao alcançar renda de R$ 39,2 milhões em 37 dias em cartaz nos cinemas do país. O filme foi visto por 4,7 milhões de espectadores.

O longa se tornou a maior renda do cinema brasileiro desde a retomada da produção nacional, em 1995.

O número anterior era de “Dois Filhos de Francisco”, que fez R$ 36,7 milhões e teve 5,3 milhões de público.

Dirigido por Daniel Filho, “Se Eu Fosse Você 2” acumula recordes. Foi o filme com melhor abertura em 14 anos –no fim de semana de estreia 570 mil pessoas assistiram ao filme.”

***

O Pedro entende bastante de literatura e poesia mas, como já mostrei anteriormente, gosta muito de falar sobre o que não entende.  É uma pena, porque é um desperdício de vantagens comparativas.

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