No Not Tupy, um post sobre o funk carioca. Cultura musical é um dos meus pontos cegos.  Genericamente, não gosto do funk carioca (mas nunca escutei muito para saber se eventualmente existe alguma coisa que eu gostaria; na verdade, gostei da trilha sonora de Tropa de Elite, mas essa apreciação vem colada ao produto que a música embala _ não poria o ratatá-tatatá-tatatá-tatatá para tocar numa tardinha relaxante aqui em casa, por exemplo).   Genericamente, também me incomoda a atitude nariz-pra-cima de uma elite (real ou fictícia) que prefere criticar qualquer manifestação da ralé, porque, que diabos, o problema é a ralé, portanto tudo que a ralé faça é ruim, feio, e censurável. Mas, como já disse, sou uma nulidade musical e não vou entrar em uma discussão que não me pertence.  O que me incomodou mesmo no post foi esse parágrafo aqui, meio perdido na argumentação, creio eu:

Críticos culturais conservadores, como Theodore Dalrymple, lembram-se que mesmo a ciência exige tradição para funcionar: que outra coisa se não a tradição é o que a universidade está ensinando? Valoriza-se excessivamente a desconstrução e a superação, sem se lembrar que o próprio inovador só pode fazer isso a partir de uma linhagem na qual se insere – se Einstein não conhecesse os problemas tratados ao longo de séculos por outros cientistas, se não tivesse milênios de matemática a suportá-lo, se, em outras palavras, não estivesse inserido na tradição da Física, jamais poderia ter contestado Newton.

Qualquer dia desses parece que a mera passagem dos anos de forma ordenada já vai ser celebrada como uma vitória conservadora, como se na cadeia de indução infinita dos anos que se sucedem apenas pela soma de um +1 ao anterior estivesse plantada a semente atemporal e estática da Tradição.  São mesmo uns eleatas.  Realmente, 2001 vem depois de 2000.  Já pensou que terrível seria se após 2000 tivéssemos, sei lá, 3517, ou pior, “THX1138”?  Aí sim a visão progressista do mundo estaria comprovada. É muito bacana ver um texto assim, pedindo a Einstein que dê o devido crédito aos seus antecessores.  Mas experimente dizer isso a Newton:

O problema com a física de Newton é que, quando um sujeito aceita uma tese autocontraditória como se fosse uma verdade definitiva, a contradição não percebida se refugia no inconsciente e danifica toda a inteligência lógica do infeliz. Newton não espalhou só o ateísmo pela cultura ocidental: espalhou o vírus de uma burrice formidável. Uma parcela da elite intelectual já se curou, mas a percepção da realidade pelas massas (incluindo a massa universitária de micro-intelectuais) continua doente de newtonismo. A quantidade de tolices que isso explica é tão infinita quanto o universo de Newton.”  (Olavo de Carvalho, “Nas Origens da Burrice Ocidental“).

Então, vamos fechar mais uma janela de Overton:  o problema do conservadorismo com o progresso não é que este último não dê o devido crédito à “sabedoria recebida”.  O problema do conservadorismo com o progresso é o fato dele existir.  Combinado?