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Este post do Crooked Timber me fez recapitular minha infância.

Se bem me lembro, o livro didático “A Mágica do Saber”, que era usado pela rede pública do Rio de Janeiro, continha um trechinho do livro “A Reforma Da Natureza“, de Monteiro Lobato, onde Emília, a boneca endiabrada do universo ficcional do Sítio do Pica Pau Amarelo, resolve consertar o que ela acha que está errado no mundo.  E um desses erros reside no fato de que a melancia, uma fruta tão grande, nasce em uma planta rasteirinha, enquanto a jabuticaba, tão pequena, nasce em uma árvore grande…até que uma jabuticaba cai no nariz de alguém e ela percebe que se tivesse sido uma melancia o estrago teria sido considerável.

Pois o post do CT fala de um poema da época vitoriana, da “autoria” de Anne, Duquesa de  Winchelsea sobre um ateu que especulava sobre como as abóboras ficariam melhor se nascessem em castanheiras, até que uma castanha lhe cai sobre o cocoruco.  Obviamente, o argumento por trás da história é o de que a criação é perfeita.  O diabo é que quem avança um argumento desses para provar a existência de Deus certamente nunca viu uma jaqueira.

Nos comentários do post do CT, alguém mostra que La Fontaine já havia feito um poema sobre o mesmo tema, e que o poema de Anne é uma tradução.

Ao ler o post eu até fiquei meio cabreiro com a idéia de que alguma vez Monteiro Lobato tivesse lido alguma coisa de uma duquesa vitoriana, mas depois ficou claro que a inspiração certamente veio de La Fontaine.   Ou não?

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Mas o interessante mesmo é que lá pelas tantas o Cosma Shalizi me sai com um comentário linkando um trecho da Suma Teológica de Tomás de Aquino onde o Doutor Angélico especula sobre a veracidade da hipótese de que os santos, no Paraíso, rejubilam-se com a visão dos danados no Inferno, e aparentemente conclui que é por aí:

I answer that, A thing may be a matter of rejoicing in two ways. First directly, when one rejoices in a thing as such: and thus the saints will not rejoice in the punishment of the wicked. Secondly, indirectly, by reason namely of something annexed to it: and in this way the saints will rejoice in the punishment of the wicked, by considering therein the order of Divine justice and their own deliverance, which will fill them with joy. And thus the Divine justice and their own deliverance will be the direct cause of the joy of the blessed: while the punishment of the damned will cause it indirectly.”

O que, eu diria, não só é uma forma bastante sofisticada de schadenfreude, como também é a mãe de todas as justificativas para a existência de Guantanamo.

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