Em uma rara ocasião em que vejo um jornal brasileiro se antecipando a uma revista internacional, tanto o Estadão quando a Seed publicaram os resultados de uma pesquisa que aparentemente leva água para o moinho de uma antiga teoria comportamental, a chamada Broken Window Theory, ou teoria da janela quebrada.  Diz a matéria do Estado:

Uma pesquisa inédita feita por três pesquisadores holandeses mostra que a marca de pichações em um local pode dobrar o número de pessoas dispostas a jogar lixo no chão e até a roubar. “Certamente as violações aumentam em uma rua pela simples presença de pichação”, diz Kees Keizer, responsável pela pesquisa que sai hoje na revista Science, de responsabilidade da Sociedade Americana para o Avanço da Ciência (AAAS) e uma das mais prestigiadas publicações científicas do mundo. “É uma clara mensagem aos gestores públicos que prevenir a desordem é a melhor maneira de impedir a disseminação da violência.”

Os pesquisadores montaram duas situações distintas no centro da cidade de Groninga, norte da Holanda. Na primeira, colocaram folhetos de “Feliz ano-novo” em bicicletas que estavam em um beco sem pichações. O mesmo número de folhetos foi colocado em bicicletas que estavam estacionadas em um beco parecido, mas repleto de marcas na parede. Resultado: 33% das pessoas jogaram o tal papel no chão no beco limpo, enquanto 69% sujaram o chão do beco que estava grafitado. Na segunda situação, os pesquisadores colocaram um envelope na entrada de uma caixa de correio, no qual era possível ver uma nota de 5. Primeiramente, a caixa estava limpa, sem grafite, e 13% das pessoas que passaram por ali furtaram o envelope. Repetida a experiência, mas agora com a caixa postal cheia de pichações, o número de furtos subiu para 27%.

Os resultados correlacionam-se positivamente com a Teoria da Janela Quebrada:

A pesquisa de Kees Keizer toma por base a teoria desenvolvida por George Kelling e James Wilson em 1982 e denominada Broken Windows (Janelas Quebradas). Os dois ensaístas entendiam que era imprescindível eliminar a desordem para conseguir reduzir a criminalidade. Exemplificavam: “Se você ignorar a janela quebrada de um prédio, outras janelas também serão quebradas. A área vai passar a ter uma imagem de abandono e a delinqüência penetrará na sua casa.”

Para ficarmos no tema “janelas”, acredito que o mesmo efeito psicológico de fundo está subjacente à famosa “Janela de Overton”, da qual já tratamos neste post (e neste).   É como se a gang ideológica de Karl Rove tivesse se apercebido de que ao pixar os muros da política conseguiriam criar um ambiente propício à degeneração do embate eleitoral _ e da própria polity norte-americana (algo que, para sermos honestos, já havia sido intuído pelos publicitários de Reagan na sua primeira campanha _ a segunda já contou com o auxílio de Rove).

E tudo isto me parece ter a ver com a idéia de “coerência arbitrária” desenvolvida por Dan Ariely e Drazen Prelec em um estudo experimental.   Nesse estudo, eles pediam que as pessoas escrevessem os dois últimos algarismos dos seus números do seguro social e depois fizessem escolhas sobre preços de mercadorias, em particular, se pagariam por determinada mercadoria um valor igual àqueles dois últimos dígitos.  Em seguida, eles pediam que os sujeitos da experiência realmente fizessem lances pelas mercadorias.  Em suas palavras, 

The basic idea of arbitrary coherence is this: Although initial prices can be “arbitrary,” once those prices are established in our minds, they will shape not only present prices but also future ones (thus making them “coherent”). So would thinking about one’s Social Security number be enough to create an anchor? And would that initial anchor have a long-term influence? That’s what we wanted to find out.

O que eles descobriram é que os sujeitos cujos dois últimos números do seguro social forneciam um valor mais alto sistematicamente faziam lances mais altos pelas mercadorias _ como se aqueles números, por menos racional que isto pareça, tivessem “ancorado” as pessoas em torno de determinados valores.

Ariely retira daí a lição de que somos muito bons em fazer comparações mas não muito bons em determinar níveis absolutos.  Isso significa que nossas escolhas são “dependentes do caminho”.  Eis porque acredito que a teoria da janela quebrada ou a da janela de Overton são meras instâncias do fenômeno da coerência arbitrária: a partir do momento em que somos introduzidos em um determinado “nível” (seja este “nível” um patamar de preços, de moralidade ou de opinião política), ficamos ancorados naquele nível e nossas decisões posteriores partem daí.

O próprio Karl Rove tornou-se republicano aos nove anos de idade, quando seu pai passou a apoiar Nixon.  E desse buraco ele não saiu mais (ok, exemplos similares podem ser encontrados à esquerda, obviamente).

Tudo isso é meio intrigante e pouco reconfortante, pois costumamos nos achar mais espertos e menos automáticos do que isso.   Mas só posso dizer o seguinte: “conhece-te a ti mesmo”.

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Recomendo fortemente o livro do Dan Ariely que já saiu em português, “Previsivelmente Irracional”.  Um tiro em certas teorias ingênuas do homo economicus.

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UPDATE:

O “previsivelmente irracional” tem blog.

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