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Lá no Torre de Marfim, um post curioso:

Los olvidados

Em todas, ou quase todas, as narrativas sobre a crise financeira americana, eu sinto falta de um personagem fundamental, um dos protagonistas do troço. Eu falo do consumidor americano – o sujeito que tomou crédito barato, fez várias hipotecas e viveu por alguns anos uma orgia de consumo que fez a alegria de grande parte da sociedade americana e do resto do mundo. A falta de regulação adequada do mercado financeiro e os juros baixos por muito tempo são os fatores que levaram à eclosão dessa crise, é fato. Mas, do modo como a história é contada, parece que apenas algumas centenas ou milhares de banqueiros e corretores de Wall Street se beneficiaram dos anos em que a bolha imobiliária esteve em formação.

Essa versão esquece que boa parte da sociedade americana entrou no jogo do contente. A bolha especulativa não teria o tamanho que teve sem a participação de milhões de pessoas, que durante alguns anos ficaram inebriadas pelo crédito barato. As picaretagens financeiras, como as operações fora do balanço dos bancos, ampliaram em muito o efeito do problema. São fundamentais para explicar por que a crise assumiu essa dimensão catastrófica. Os juros baixos, por sua vez, criaram o ambiente propício para que a bolha ocorresse. Só que sem o consumidor a história não existiria. Não haveria uma escalada de preços de imóveis naquela magnitude. Não, eu não estou culpando o consumidor. Mas ele é um personagem fundamental da crise, que por vários anos aproveitou gostosamente a orgia do dinheiro barato

Um post provocativo, para dizer o mínimo.  Na discussão subsequente, Matamoros explicou o que quis dizer com o post da seguinte forma:

“(…)sem os consumidores, não teria havido bolha imobiliária, e que boa parte da sociedade americana se beneficiou do crédito barato.

Eu discordei, e reproduzo aqui minha resposta:

Esta frase pode ser entendida das seguintes maneiras, até onde consigo ver (e por favor me corrija se eu estiver errado):

– Numa interpretação do tipo “causa material”. Claro, da mesma forma que sem judeus não haveria Holocausto, ou que sem jogadores não existiria futebol, é totalmente razoável dizer que sem consumidores não teria existido a bolha das hipotecas. Essa é a acepção mais trivial possível do seu post, mas a longa tradição deste blog, creio eu, nos desautoriza a imaginar que algo tão óbvio se constituísse em matéria para post por aqui.

– A outra interpretação possível, portanto, é a de que há que se relativizar as críticas aos mecanismos que causaram a bolha, já que a sociedade se beneficiou deles. Não é uma postura intelectualmente indigente per se; existe até um livro de um autor, Daniel Gross, que defende que bolhas são coisas boas (eu tenho o livro, chama-se “Pop!: Why Bubbles Are Great For The Economy”). A idéia geral é de que uma bolha deixa atrás de si um considerável conjunto de infraestrutura que pode ser usado depois a baixo preço. Nada que a engenharia econômica já não conheça: a falência de um gera o sunk cost que pode ser barganhado pelo outro. Essa visão parece atrativa porque se avalia o benefício localizado pós bolha contra coisa alguma, mas o raciocínio é viciado na origem, pois se desconsidera a ineficiência alocativa gerada pela bolha em primeiro lugar e os custos de oportunidade criados por ela. No caso da nossa bolha financeira, mal existe infraestrutura que dê conta desse mecanismo para começar a conversa _ certamente os imóveis deixados para trás pela bolha dificilmente poderão ser contabilizados do lado positivo do negócio, por uma série de motivos.

Portanto, a sua avaliação tem sérios problemas. Por exemplo, o tamanho do bailout adiciona severa pressão fiscal ao Tesouro americano (*) _ já tem gente no mercado dizendo que os players estão começando a precificar isso aí _ com consequencias severas para o crescimento econômico nos próximos anos.

Se quem comprou casa está no olho da rua, despejado, e se quem comprou carro e TV de plasma nos anos de bonança descobre que vai passar a próxima década sem emprego ou subempregado, então é bem possível que a relação custo/benefício do negócio não seja nada atraente.

(*) e de outros países.

***

Eu acho que o post do Matamoros leva lenha para o tradicional “blame game” que surge nestas ocasiões.  Mas está longe de ser o pior ou mais ultrajante deles.  Aprofundando a linha, o Paulo do FYI chega a dizer que a culpa não só é dos consumidores, como de sua mentalidade esquerdista (com origens naquela terrível década do sexo livre, the sixties).   A máquina de distorção da realidade, como se vê, continua funcionando em velocidade máxima…

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