No Torre de Marfim, um post curto e intrigante:

Agir de acordo com as suas convicções e respeitando os seus princípios é fácil. Herói pra valer é quem age contra as suas convicções e os seus princípios. Quando é preciso.”

Não é difícil perceber onde esse post quer chegar quando se olha o histórico recente dos posts por lá.  Trata-se de um estado de espírito que anda produzindo frases que desmerecem a folha corrida da Torre, como esta:

Eu não sou um liberal friedmaniano, mas citei a frase (…) para deixar claro que uma visão ultra-liberal não é incompatível com regulamentação financeira mais forte.

Se não é incompatível, então eu não sei o que o ultra-liberalismo é.

Mas vivemos tempos confusos, o que faz com que defensores do livre-mercado reajam de modo igualmente confuso. Por exemplo, alguém que diante da adversidade _ principalmente de uma adversidade que decorre de seus atos pretérios _ passa a agir “contra suas convicções e princípios” não é um herói.  É um pateta, embora demonstre vestígios de bom senso.  E demonstraria ainda mais se jogasse fora seu conjunto de “convições e princípios” que não funcionaram e os trocasse por outros mais eficazes.

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O blogueiro do bom blog Trapézio escreveu um post transcrevendo um trecho de um livro de um autor que eu não conhecia, Benjamin Graham, que foi nada mais nada menos que o mentor de Warren Buffet.   Eis um fragmento característico do trecho:

No doubt there will be new regulations and new prohibitions. The specific abuses of the late 1960s will be fairly adequately banned from Wall Street. But it is probably too much to expect that the urge to speculate will ever disappear, or that the exploitation of that urge can ever be abolished. It is part of the armament of the intelligent investor to know about these “Extraordinary Popular Delusions,” and to keep as far away from them as possible.”

Se eu bem entendi o que ele quer dizer no post, ofereço como antídoto a seguinte singela parábola.

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Imagine que você tem duas filhas, Carla Cristina e Raiane Rachelle.  As duas têm, para simplificar, a mesma idade _ 19 anos e estão na faculdade.  Você dá para cada uma delas uma mesada de trezentos contos para elas se virarem na faculdade, mas compra livros e o básico.  O que elas fazem com o dinheiro que você lhes dá é com elas, mas você verifica que ele costuma se transformar em itens como tênis Nike,  mochilas Kipling e caderninhos e papeizinhos da Hello Kitty.

Um belo dia a Carla Cristina começa a aparecer em casa com itens como bolsas Luis Vuitton, jóias da Vivara, vestidos Dolce&Gabbana.  Você desconfia, mas acredita que não deve interferir.  Um belo dia você recebe uma carta dizendo que a Carla Cristina está expulsa da Universidade porque foi pega fazendo programas com alunos e professores.

Você aprende a lição.  Decreta horários rígidos para suas filhas chegarem e sairem de casa, só admite que elas vistam roupas comportadas, começa a ir à Igreja com elas todo domingo, contrata um psicólogo.  A coisa funciona e Carla Cristina aparentemente deixa sua vida alternativa pra lá.

Aí, um ano depois, a Raiane Rachelle começa a aparecer em casa com bolsas Prada, jóias H. Stern, vestidos Versace e compra um Peugeot 206.  Você desconfia, mas acredita que não deve interferir, e além do mais suas antigas normas continuam em vigor e, o que é melhor, as duas filhas as cumprem integralmente.

Até que um dia a polícia bate na sua porta com um mandato de prisão contra Raiane Rachelle porque ela está traficando drogas na universidade.

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A diferença é que no caso da atual crise, suas filhas vêm mostrando sinais exteriores de riqueza há vários anos.

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