O Valor de hoje tem uma interessante matéria sobre a “janela de oportunidade demográfica” pela qual o país está passando.  E ela deve ser aproveitada rápido:

De qualquer forma, diz ele [José Eustáquio Diniz Alves, professor da escola de pós-graduação do IBGE], o período de bônus não dura para sempre. Depois segue-se o envelhecimento populacional. “Exatamente por isso o período de bônus deve ser levado em consideração para a implementação de políticas públicas que promovam principalmente educação e investimentos“, acredita o professor. “Essa janela de oportunidade de nada adianta se o país não for capaz de absorver a mão-de-obra disponível e incentivar a produção e a produtividade.” Disso vai depender um período de envelhecimento populacional mais tranqüilo. “Em qualquer país, a transição demográfica só acontece uma vez e somente uma vez se pode usar o bônus demográfico.”

Transcrevo abaixo para os sem-Valor.


Nova estrutura populacional pode acelerar o crescimento econômico
Marta Watanabe
08/05/2008

O Brasil vive um bônus demográfico. Ou seja, o país está atualmente com a melhor estrutura etária e a combinação ideal de condições demográficas e sociais para tornar mais propício o crescimento econômico.

Levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) projeta para o período 2000-2030 um maior contingente de pessoas em idade economicamente ativa com o menor percentual de crianças e idosos no total da população. Como resultado, há um grau de dependência econômica menor de quem é capaz de gerar renda. “A menor dependência tem efeito macroeconômico, pois significa maior capacidade de poupança, condição indispensável para a elevação dos investimentos necessários ao desenvolvimento econômico”, diz José Eustáquio Diniz Alves, professor da escola de pós-graduação do IBGE.

De 1950 a 1980, para cada 100 pessoas em idade economicamente ativa havia uma média de 82 em faixa etária de dependência (crianças e idosos). Para o período de 2000 a 2030, a taxa de dependência deve diminuir para uma média de 48 pessoas. As pessoas em idade de 15 a 64 anos que, em média, eram pouco mais da metade da população, passaram para mais de dois terços. “Isso acontece em função da desaceleração do crescimento populacional, com taxa de mortalidade baixa e desaceleração da taxa de natalidade”, diz Alves.

O levantamento mostra que entre 1950 e 1980 a quantidade de filhos por mulher era de 5,5. Essa taxa deve cair para 1,9 de 2000 a 2030. Ele lembra que a taxa de fecundidade mínima para reposição da população é de 2,1. Segundo o professor, alguns estudos já mostram que em algumas regiões, como o Estado de São Paulo, por exemplo, a taxa já está bem abaixo da reposição, em 1,7.

Com um menor crescimento, a população iniciou um processo de envelhecimento. A idade mediana da população passou de 19 anos para 31 anos. Isso, explica Alves, significa que entre 2000 a 2030 mais da metade da população brasileira terá acima de 31 anos. Segundo o professor, isso também contribuiu para o bônus porque propicia a maior concentração de pessoas adultas e em idade em que a contribuição como mão-de-obra costuma ser mais qualificada. “Essa concentração significa maior disponibilidade de recursos humanos para o desenvolvimento.”

A menor quantidade de filhos reflete a mudança da estrutura familiar brasileira, com redução do número de casal com filhos, o modelo tradicional de família. De 1996 a 2006 cresceu a participação das famílias de uma pessoa só e os casais sem filhos, que tiveram fatia ampliada de 8,21% para 11,07% e de 13,06% para 15,75%, respectivamente. No mesmo período a participação dos casais com filhos caiu de 59,71% para 51,6%. “Além de reduzir o grau de dependência dos que geram renda, a nova estrutura altera o perfil de consumo”, diz Alves. A tendência é maior demanda por bens de consumo industriais.

Outras condições contribuem para o quadro de bônus, como a população mais urbanizada e a redução do analfabetismo. Do período de 1950-1980 para 2000-2030, a taxa de urbanização saltou de 54% para 68%. A taxa de alfabetização passou de 58% para 92%. O tempo de estudo das mulheres foi de 2,1 anos para 8,5 anos. Com maior qualificação, há uma inserção cada vez maior da mulher no mercado de trabalho, o que ajuda a eleva a população economicamente ativa e a geração de renda. A taxa de atividade feminina saiu dos 19% e deve chegar pelo menos aos 44% entre 2000 e 2030.

Alves explica que o bônus demográfico traz benefícios para todos e não somente para quem estiver em idade economicamente ativa no período, com a tendência de maior disponibilidade de renda e investimento. As crianças e os idosos se beneficiam porque aumentam suas chances por melhor qualidade de vida e melhores condições de educação e saúde. Alves diz que alguns estudos indicam que o bônus demográfico já começou a ter efeitos e que pode ter sido responsável por 30% do crescimento econômico entre 1970 e 2000.

Levando em consideração a definição da Organização das Nações Unidas (ONU), o período de bônus brasileiro começou em 2000. O tempo de duração depende de como deve se comportar a taxa de fecundidade nas próximas décadas. Se a taxa for alta, o bônus é de 45 anos. Ou seja, o período de melhor estrutura demográfica vai até 2045. Se for média, o bônus é de 40 anos. Para uma taxa baixa, é de 35 anos. A tendência, para Alves, é que a taxa brasileira evolua entre fecundidade média a baixa.

De qualquer forma, diz ele, o período de bônus não dura para sempre. Depois segue-se o envelhecimento populacional. “Exatamente por isso o período de bônus deve ser levado em consideração para a implementação de políticas públicas que promovam principalmente educação e investimentos”, acredita o professor. “Essa janela de oportunidade de nada adianta se o país não for capaz de absorver a mão-de-obra disponível e incentivar a produção e a produtividade.” Disso vai depender um período de envelhecimento populacional mais tranqüilo. “Em qualquer país, a transição demográfica só acontece uma vez e somente uma vez se pode usar o bônus demográfico.”

O assunto foi discutido na palestra “As transições demográficas, as mudanças na estrutura etária e o bônus demográfico no Brasil” promovido pelo Instituto Fernand Braudel, em São Paulo.

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