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Em um post que fez até o finado Adriano do Palatando ressuscitar e entrar na thread (com pouco êxito, mas vamos dar um desconto porque ele está destreinado), Arranhaponte do Torre de Marfim escreveu o seguinte:

Ah não, o velho debate sobre se a sobrevalorização do real do Gustavo Franco foi uma idiotice total, completamente evitável (sem comprometer em nada o fim da hiper-inflação obtido pelo Real), ou se foi um erro até certo ponto compreensível diante da dificuldade política de se fazer o ajuste fiscal e da incerteza sobre se a inflação voltaria, NÃO! Tudo menos debater isso de novo.

Eu também não quero discutir isto de novo. Gostaria apenas de observar que respostas espirituosas às vezes destinam-se, voluntária ou involuntariamente, a encobrir problemas mais sérios. Afinal, se a enorme dívida pública da qual falei no outro post originou-se de esqueletos, como disse Arranhaponte, seria bom averiguar de onde vinham esses esqueletos. Ora, eles vieram (dentre outros lugares) da federalização da dívida dos estados e municípios. Mas a dívida de estados e municípios, sabe-se com certeza, não veio de Marte para o Brasil, ela foi criada aqui mesmo _ e ao que eu saiba, não por governos do PT. Aliás no mapa aí em cima vemos que a maior dívida em 2001 era a do estado de São Paulo, estado que nunca teve governador petista e sempre esteve na mão de tucanos e seus, er, “aliados” (como Orestes Quércia…). Outros estados como Minas e Bahia (aquele da face moderna do PFL DEM, ACM Neto) aparecem com dívidas expressivas. O Rio de Janeiro, bem, o Rio.

Para piorar, essa dívida foi potencializada pela Selic estratosférica.

Ocorre que a partir de 1996 o governo FHC, de olho em aprovar a emenda da reeleição _ o que lhe tomou praticamente a metade do mandato _ desistiu de fazer reformas que mitigassem o gasto público (aquilo que hoje cobram do atual governo, com razão, aliás). Aliás, neste mister, operou um timing para as reformas constitucionais totalmente perverso incoerente, pelo menos com a racionalidade econômica _ as reformas estruturais, evidentemente, permitiriam alterar a trajetória da dívida pública e teriam permitido ao governo operar com uma taxa de juros bem menor. Porém FHC atirou-se às chamadas “reformas econômicas”, como as privatizações. Eu defendo as privatizações com unhas e dentes como algo que contribuiu para aumentar a eficiência da economia brasileira, mas reconheço que a justificativa dada então pelo governo _ usar os recursos da privatização para amortizar a dívida pública _ era risível diante da política monetária praticada. E justificativas de eficiência, por mais bem intencionadas, não minoram o fato de que as privatizações poderiam esperar até que a equação macroeconômica estivesse resolvida _ a não ser, é claro, que a racionalidade empregada tenha sido a política, e não econômica.

Isto para não falar que FHC atirou-se a um populismo cambial de deixar a classe “média” brasileira contentíssima _ teve ano do contingente brasileiro ser o maior consumidor entre os turistas em New York.

Mas talvez pessoas sofisticadas não queiram discutir essas coisas tão aborrecidas. 🙂

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