“Ora vejam só.  O post é antigo, mas eu não conhecia:

Serviço público: os baixos salários dos mais capacitados

A botocúndia petista é mesmo de amargar. Diz agora que aprovo a elevação dos salários do secretariado do governo de São Paulo porque a medida conta com o apoio do tucano José Serra. É impressionante! Já devo ter escrito umas duas dezenas de textos — desde Primeira Leitura — apontando o ridículo da remuneração do serviço público especializado no Brasil. Em todas as áreas. Há alguns marajás que conseguem liminares na Justiça e acabam recebendo supersalários. Mas, na média, o serviço público paga mal às categorias de ponta.

De quanto será o salário de um secretário em São Paulo? R$ 11.885 brutos. O valor líquido deve ser algo em torno de R$ 9 mil. Médico, engenheiros, arquitetos, administradores ou jornalistas bem-sucedidos ganham bem mais do que isso na iniciativa privada. Chamo de “bem-sucedida” gente de qualidade, disputada pelo mercado de trabalho, com experiência para exercer postos de comando — que é o caso de um secretário. Hoje, ele recebe em torno de R$ 5 mil — abaixo de um editor assistente de jornal, inferior ao ganho de muitos redatores experientes.

O que se diz aqui vale também para a União, onde a realidade é ainda pior. Um ministro tem um salário líquido de uns R$ 6 mil. Ridículo. Waldir Pires reclamou outro dia. Ele não seria mais competente se ganhasse o quádruplo, mas que o valor é irrisório, lá isso é. Secretários-executivos, os que realmente fazem funcionar a máquina, ganham ainda menos. O porta-voz de Lula, André Singer, tem vencimento inferior a ministro. Receberia mais na universidade, de onde se afastou.

Se os funcionários de ponta recebem muito menos do que paga o mercado aos competentes, no outro extremo, o dos salários mais baixos, tem-se o inverso. Não é preciso ser um gênio da administração de pessoal para perceber que a lógica está invertida. Ela acaba privilegiando, digamos, mais o aspecto social do que o funcional. Só que este “social” diz mais respeito à corporação do que ao conjunto da sociedade. Note-se ainda que, à diferença dos deputados, senadores, presidente da República e até governadores de Estado, estes secretários e funcionários especializados não têm qualquer regalia especial: 13 salários e só. Em alguns casos, dispõem de carro oficial com gasolina garantida. Mas não muito mais do que isso.

O que queremos?
Queremos serviços competentes, gente dedicada ao trabalho? É preciso pagar. Eu já disse e repito: duvido da realidade salarial de alguns nomões que estão por aí exercendo cargo público; duvido que recebam apenas aquilo que a lei especifica. Por que gente competente vai comprometer o próprio futuro e o da família servindo ao Estado por R$ 6 mil quando poderia estar ganhando R$ 18 mil?

Existem os abnegados? Ah, existem, sim. Mas também há aqueles que:
– aceitam o cargo como indicação do partido, que passa a ser a sua real fonte de rendimento. No cargo, comportam-se como procuradores de interesses partidários;
– não precisam trabalhar; podem exercer o cargo por amor à causa, mas não vivem do seu salário;
– são pagos, indiretamente, por empresas que prestam serviço aos governos. A prática é ilegal, mas admitida como uma forma possível de manter a pessoa no cargo;
– ocupam cargos no conselho de empresas públicas para dar um jeito de elevar o ganho mensal
– usam o serviço público como um investimento; o objetivo é pular para a iniciativa privada levando consigo as preciosas informações adquiridas no serviço público. Bancos, por exemplo, têm especial apreço por funcionários de ponta mal remunerados

Quem perde? Na maioria das vezes, é a população. Notem que estatais, autarquias e assemelhados já estão fora do teto dos servidores.

Acusei aqui e acuso a indecência do que se tentou fazer com o salário dos parlamentares. É impossível debater seus vencimentos mensais sem levar em conta a cadeia de vantagens de quem dispõem. Recebessem apenas os pretendidos R$ 24,5 mil, seria um valor baixo. Mas sabemos dos outros benefícios. Se Lula gastasse como um mortal comum, os R$ 8,8 mil que recebe seriam uma porcaria. Mas é claro que seu salário é muito maior do que isso. O que sustento é que os altos cargos executivos da administração pública — não o dos políticos eleitos ou o dos funcionários de base ou médio — são baixos.

País pobre
É claro que esses números em face de um mínimo de R$ 350 parecem uma enormidade. O país é pobre; a renda média é ridícula. Mas é fato que alguém terá de exercer os cargos de comando. E que tais cargos demandam uma formação intelectual e profissional. É cruel, mas é assim: essa mão-de-obra não é escolhida no conjunto dos 180 milhões de brasileiros. Ela é fornecida pela elite intelectual e econômica do país. As pessoas investiram em sua formação e esperam retorno, como qualquer um de nós.

Governantes podem tentar se orgulhar dos salários magros, espartanos, de seus subordinados diretos. Desconfiem. O dinheiro que você vê pode ser apenas uma cortina de fumaça para o dinheiro que você não vê.

Que direi?  Até um relógio parado está certo duas vezes ao dia (embora até mesmo eu ache que há certo exagero da parte de algumas parcelas do funcionalismo)…

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